segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

UMBERTO ECO: EM DEFESA DE HARRY POTTER

Na crônica "Harry Potter faz mal aos adultos?", de Umberto Eco, lançado aqui no Brasil no livro Pape Satàn aleppe: crônicas de uma sociedade líquida, pela editora Record, o autor defende a série de J. K. Rowling contra críticas de deseducação e diabolismo para crianças. Eco mostra que as histórias de magia são arquetípicas, conectando-se a obras clássicas como Branca de Neve, Oliver Twist, Peter Pan e O patinho feio e que as crianças distinguem fantasia da realidade. Para o autor, a verdadeira influência está nos valores transmitidos pelos personagens, como amizade, coragem e justiça, elementos que as crianças incorporam de maneira consciente.


A seguir coloco a crônica completa:


Harry Potter faz mal aos adultos?
Umberto Eco

Escrevi uma Bustina* sobre Harry Potter quase dois anos atrás, quando as três primeiras histórias já haviam sido publicadas e o mundo anglo-saxônico começava a discutir se não seria deseducativo contar aos jovens estas histórias de magia, pois poderiam induzi-los a levar certos delírios ocultistas a sério. Com o filme, o fenômeno Harry Potter está se transformando numa coisa verdadeiramente global e vi outro dia um episódio do programa Porta a porta onde apareciam o mago Otelma, felicíssimo com a publicidade a favor de senhores como ele (e vestido, ademais, de um modo tão “magoso” que nem Ed Wood teria coragem de mostrá-lo assim em seu filme de terror) e, do outro lado, um ilustre exorcista, o padre Amorth (nomen omen), para quem as histórias de Harry Potter veiculam ideias diabólicas. Para explicar melhor, enquanto a maioria das outras pessoas sensatas presentes no programa pensava que magia branca e magia negra são invencionices (se é que podemos levar a sério quem acredita nelas), o padre exorcista levava muito a sério toda e qualquer forma de magia (branca, negra e até de bolinhas) como obra do Maligno.


Se o clima é este, creio que devo entrar em campo a favor de Harry Potter. As histórias são, é claro, histórias de magos e feiticeiros e é óbvio que teriam sucesso, pois as crianças sempre gostaram de fadas, anões, dragões e bruxos e ninguém nunca pensou que Branca de Neve fosse criação de um complô de Satanás, e se tiveram e ainda têm sucesso é porque sua autora (não sei se por cultíssimo cálculo ou prodigioso instinto) soube colocar em cena situações narrativas verdadeiramente arquetípicas.

Harry Potter é filho de dois bruxos boníssimos mortos pelas forças do mal, embora não soubesse disso no início e vivesse como um órfão maltratado por tios mesquinhos e tiranos. Depois, sua verdadeira natureza e sua vocação foi revelada e ele partiu para estudar num colégio para jovens bruxos de ambos os sexos, onde vive aventuras mirabolantes. Eis o primeiro esquema clássico: pegue uma jovem e meiga criatura, faça com que sofra todo tipo de maldade, revele por fim que era criatura de uma raça fadada a destinos luminosos e eis que se obtém não apenas o Patinho Feio e Cinderela, mas Oliver Twist e o Remy de Sem família, de Malot. Além disso, a escola de Hogwarts, onde Harry aprende a fazer poções mágicas, parece com muitos colégios ingleses, onde se joga um daqueles esportes anglo-saxões que fascinam tanto os leitores de além-Mancha, porque conseguem entender as regras, quanto os continentais, que jamais conseguirão entendê-las. Outra situação arquetípica evocada é a dos Meninos da rua Paulo. Também tem alguma coisa do Jornalzinho de Gian Burrasca, com os pequenos estudantes reunidos numa conspiração contra professores excêntricos (alguns perversos). Acrescente-se que as crianças jogam cavalgando vassouras voadoras e eis que temos também Mary Poppins e Peter Pan. Por fim, Hogwarts parece um daqueles castelos misteriosos que aparecem nos livros da “Biblioteca dei miei ragazzi” de Salani Editore (o mesmo de Harry Potter), onde um grupo bem entrosado de meninos de calças curtas e meninas de longos cabelos dourados desmascara as manobras de um intendente desonesto, de um tio corrupto, de um bando de trapaceiros e descobre no final um tesouro, um documento perdido, uma cripta secreta.

Se Harry Potter fala de encantamentos de causar arrepios e de animais assustadores (afinal, a história é voltada para crianças que cresceram com os monstros de Carlo Rambaldi e com os desenhos animados japoneses), as crianças lutam por boas causas, como fazem os escoteiros, e dão ouvidos a educadores virtuosos, tanto que chegam a lembrar (feitos todos os descontos históricos) o bom-mocismo de Coração, de De Amicis.

Acreditamos realmente que, lendo histórias de magia, as crianças vão acreditar em bruxas quando crescerem? É o que alegam, como se fosse um só pensamento, embora com sentimentos opostos, o mago Otelma e o padre Amorth. Todos experimentamos um temor salutar diante de ogros e lobos maus, mas ao crescer aprendemos a não ter medo de maçãs envenenadas, e sim do buraco na camada de ozônio, e o fato de acreditarmos, quando éramos pequenos, que os bebês eram trazidos pela cegonha não nos impediu de adotar, quando adultos, um sistema mais adequado (e mais agradável) de fazê-los.

Umberto Eco

O verdadeiro problema não são as crianças, que nascem acreditando no Gato e na Raposa, como Pinóquio, mas depois aprendem a lidar com espertalhões bem diferentes e menos fantásticos; o problema preocupante são os adultos, talvez os que não leram histórias de magia quando pequenos, que, encorajados até por programas televisivos, consultam leitores de borra de café, ilusionistas de tarô, oficiantes de missas negras, curandeiros, manipuladores de mesas, prestidigitadores do ectoplasma, reveladores do mistério de Tutancâmon. E depois, de tanto acreditar em magos, voltam a acreditar até no Gato e na Raposa.

2001


* Bustina era a forma como eram conhecidas as suas crônicas, uma redução do nome da sua coluna La Bustina di Minerva, na revista L’Espresso.


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domingo, 25 de fevereiro de 2024

E AGORA, JOSÉ SARAMAGO?

Na crônica "E Agora, José", de José Saramago, lançado aqui no Brasil no livro A bagagem do viajante, pela editora Companhia das Letras, um ajuntamento de crônicas publicadas em jornais portugueses entre 1969 e 1972, o autor estabelece uma conexão íntima com o verso de Carlos Drummond de Andrade que nomeia o texto do português, explorando a angústia existencial diante das adversidades da vida. Saramago reflete que o verso do poeta mineiro funciona como um estímulo para superar momentos de desânimo, contrastando-o com um incidente envolvendo um homem marginalizado em uma aldeia. A crônica, enquanto observação social, aborda a crueldade e indiferença humanas, culminando em uma reflexão pessoal sobre a insignificância dos próprios pesares diante da degradação humana.


O autor ressalta que, longe de ser um lamento, o verso drummondiano age como um impulso para resistir aos momentos de desespero. Essa perspectiva mostra a influência da poesia como uma ferramenta transformadora na vida do autor.

A crônica apresenta um incidente envolvendo um homem marginalizado, pobre, ferido e desprezado, destacando a insensibilidade daqueles que se divertem à custa do sofrimento alheio. É uma reflexão crítica sobre a injustiça inerente à condição humana.

Saramago distancia-se do caso de José Júnior, situando-se em uma noite tranquila com vista para o Tejo. Reconhecendo a futilidade de seus próprios pesares e raivas diante da degradação humana testemunhada, destacando a disparidade entre as preocupações pessoais e as questões sociais mais amplas.

Carlos Drummond de Andrade

Saramago encerra a crônica com uma pergunta retórica, "Será possível?", sugerindo uma indagação filosófica sobre a natureza humana e a possibilidade de superação das injustiças observadas. 

Coloco abaixo a crônica completa:


“E agora, José?”
José Saramago


Há versos célebres que se transmitem através das idades do homem, como roteiros, bandeiras, cartas de marear, sinais de trânsito, bússolas — ou segredos. Este, que veio ao mundo muito depois de mim, pelas mãos de Carlos Drummond de Andrade, acompanha-me desde que nasci, por um desses misteriosos acasos que fazem do que viveu já, do que vive e do que ainda não vive, um mesmo nó apertado e vertiginoso de tempo sem medida. Considero privilégio meu dispor deste verso, porque me chamo José e muitas vezes na vida me tenho interrogado: “E agora?” Foram aquelas horas em que o mundo escureceu, em que o desânimo se fez muralha, fosso de víboras, em que as mãos ficaram vazias e atónitas. “E agora, José?” Grande, porém, é o poder da poesia para que aconteça, como juro que acontece, que esta pergunta simples aja como um tónico, um golpe de espora, e não seja, como poderia ser, tentação, o começo da interminável ladainha que é a piedade por nós próprios.

Em todo o caso, há situações de tal modo absurdas (ou que o pareceriam vinte e quatro horas antes), que não se pode censurar a ninguém um instante de desconforto total, um segundo em que tudo dentro de nós pede socorro, ainda que saibamos que logo a seguir a mola pisada, violentada, se vai distender vibrante e verticalmente afirmar. Nesse momento veloz tocara-se o fundo do poço.

Mas outros Josés andam pelo mundo, não o esqueçamos nunca. A eles também sucedem casos, desencontros, acidentes, agressões, de que saem às vezes vencedores, às vezes vencidos. Alguns não têm nada nem ninguém a seu favor, e esses são, afinal, os que tornam insignificantes e fúteis as nossas penas. A esses, que chegaram ao limite das forças, acuados a um canto pela matilha, sem coragem para o último ainda que mortal arranco, é que a pergunta de Carlos Drummond de Andrade deve ser feita, como um derradeiro apelo ao orgulho de ser homem: “E agora, José?”

José Saramago

Precisamente um desses casos me mostra que já falei demasiado de mim. Um outro José está diante da mesa onde escrevo. Não tem rosto, é um vulto apenas, uma superfície que treme como uma dor contínua. Sei que se chama José Júnior, sem mais riqueza de apelidos e genealogias, e vive em São Jorge da Beira. É novo, embriaga-se, e tratam-no como se fosse uma espécie de bobo. Divertem-se à sua custa alguns adultos, e as crianças fazem-lhe assuadas, talvez o apedrejem de longe. E se isto não fizeram, empurraram-no com aquela súbita crueldade das crianças, ao mesmo tempo feroz e cobarde, e o José Júnior, perdido de bêbedo, caiu e partiu uma perna, ou talvez não, e foi para o hospital. Mísero corpo, alma pobre, orgulho ausente — “E agora, José?”

Afasto para o lado os meus próprios pesares e raivas diante deste quadro desolado de uma degradação, do gozo infinito que é para os homens esmagarem outros homens, afogá-los deliberadamente, aviltá-los, fazer deles objecto de troça, de irrisão, de chacota — matando sem matar, sob a asa da lei ou perante a sua indiferença. Tudo isto porque o pobre José Júnior é um José Júnior pobre. Tivesse ele bens avultados na terra, conta forte no banco, automóvel à porta — e todos os vícios lhe seriam perdoados. Mas assim, pobre, fraco e bêbedo, que grande fortuna para São Jorge da Beira. Nem todas as terras de Portugal se podem gabar de dispor de um alvo humano para darem livre expansão a ferocidades ocultas. 

Escrevo estas palavras a muitos quilómetros de distância, não sei quem é José Júnior, e teria dificuldade em encontrar no mapa São Jorge da Beira. Mas estes nomes apenas designam casos particulares de um fenómeno geral: o desprezo pelo próximo, quando não o ódio, tão constantes ali como aqui mesmo, em toda a parte, uma espécie de loucura epidémica que prefere as vítimas fáceis. Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espumas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados. E tudo isto parece pacífico e harmonioso como os dois pombos que pousam na varanda e sussurram confidencialmente. Ah, esta vida preciosa que vai fugindo, tarde mansa que não será igual amanhã, que não serás, sobretudo, o que agora és.

Entretanto, José Júnior está no hospital, ou saiu já e arrasta a perna coxa pelas ruas frias de São Jorge da Beira. Há uma taberna, o vinho ardente e exterminador, o esquecimento de tudo no fundo da garrafa, como um diamante, a embriaguez vitoriosa enquanto dura. A vida vai voltar ao princípio. Será possível que a vida volte ao princípio? Será possível que os homens matem José Júnior? Será possível?

Cheguei ao fim da crónica, fiz o meu dever. “E agora, José?” 


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Referência do texto:
SARAMAGO, José. A bagagem do viajante. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

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A FOTO DO FÓSFORO DE LÚCIFER

A primeira tentativa de registrar imagens permanentes ocorreu por volta de 1826, quando o inventor francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) conseguiu fixar uma imagem usando uma placa de estanho coberta com betume. Esse processo, conhecido como heliografia, exigia um longo tempo de exposição, chegando a várias horas, e resultava em imagens de baixa resolução.

O avanço decisivo ocorreu em 1839, quando o também francês Louis Daguerre (1787-1851) desenvolveu o processo conhecido como daguerreotipia. Esse método envolvia a exposição de uma placa de cobre revestida com prata ao vapor de iodo, criando uma imagem nítida após um curto período de exposição. O daguerreótipo foi o primeiro processo fotográfico comercializado e ganhou popularidade rapidamente.


Enquanto isso, na Inglaterra, o cientista e matemático William Henry Fox Talbot (1800-1877) desenvolvia outro processo fotográfico, chamado calotipia ou talbotipia. Esse método utilizava papel tratado quimicamente para criar negativos, que podiam ser usados para produzir múltiplas cópias de uma mesma imagem. Esse método foi fundamental para a disseminação da fotografia, permitindo a reprodução de imagens em grande escala.

A fotografia logo se tornou uma nova forma de arte e uma poderosa ferramenta para documentar a história. Fotógrafos pioneiros, como Mathew Brady (1822-1896), registraram imagens icônicas durante a Guerra Civil Americana, revelando ao mundo os horrores do conflito.

Outros, como Eadweard Muybridge (1830-1904), inventor do zoopraxiscópio, exploraram o uso da fotografia para capturar o movimento, abrindo caminho para o desenvolvimento do cinema. Essa palavra é uma junção de três elementos gregos: zoo – que significa “animal”; praxis – que denota “ação, atividade”; e scópio – com significado de “observar” ou “olhar”. O dispositivo foi projetado para estudar o movimento de animais e seres humanos, permitindo que Muybridge capturasse sequências fotográficas de seus movimentos e, em seguida, as exibisse em sucessão rápida. Isso resultou em uma ilusão de movimento, semelhante ao que hoje conhecemos como animação. Com o zoopraxiscópio, Muybridge realizou importantes experimentos que influenciaram profundamente o desenvolvimento da fotografia e do cinema. Suas sequências fotográficas de cavalos em movimento, por exemplo, tiveram um impacto significativo na compreensão da cinética animal e na evolução das técnicas cinematográficas.


Ao longo dos anos, a fotografia continuou a evoluir, com a introdução de novos processos, como o colódio úmido, o gelatino-brometo e, finalmente, a fotografia em película. Essas inovações tornaram a invenção mais acessível e possibilitaram a expansão do jornalismo fotográfico, da fotografia documental e artística.

No final século XX, a fotografia digital surgiu como uma grande e vantajosa revolução tecnológica, substituindo o uso de filme por sensores eletrônicos que capturavam imagens. Isso permitiu o armazenamento, edição e compartilhamento de fotografias de maneira mais rápida e conveniente. Com a popularização dos smartphones e das redes sociais, a fotografia se tornou uma parte intrínseca da cultura contemporânea. Hoje, milhões de fotos são tiradas e compartilhadas diariamente em todo o mundo, registrando momentos significativos e banais da vida cotidiana.

Quanto à origem da palavra, uma ideia une três vocábulos aparentemente distantes: fotografia, fósforo e Lúcifer.

A palavra fotografia tem origem no grego phos (luz) e graphein (marcar, desenhar, registrar). Literalmente, significa “marcar ou registrar com luz”, é a captura de imagens por meio da exposição à luz.

Já o vocábulo fósforo deriva do grego phosphoros, que se referia à Estrela da Manhã, geralmente identificada como o planeta Vênus em sua aparição matutina. O termo é composto por phos (luz) e phoros (portador). Portanto, fósforo significa “portador de luz” ou “aquilo que traz a luz”. Essa palavra também foi associada a materiais químicos que emitem luz quando esfregados ou expostos a uma chama. A palavra semáforo carrega também esse significado de portador de algo: ela tem origem no grego sema (sinal, marca) e phoros (portador), ou seja, é aquilo que porta o sinal (de trânsito).


A palavra Lúcifer, por sua vez, tem origem no latim lucifer, que também significa “aquele que traz/porta a luz”. É formada por lux (luz) e ferre (portar, trazer). Originalmente, “Lúcifer” era o nome dado pelos romanos à Estrela da Manhã, Vênus. Então Fósforo e Lúcifer significam a mesma coisa, mas em línguas diferentes. No contexto bíblico, o nome Lúcifer, por uma tradução feita por São Jerônimo no séc. IV, foi associado a uma figura celestial que caiu em desgraça, citada em Isaías 14:12-15, sendo posteriormente interpretada como uma referência ao Diabo. A palavra em hebraico é helel ben-shachar e significa Estrela da Manhã. Jerônimo traduziu como Lúcifer e depois as pessoas começaram a fazer essa associação com o Diabo.

Será, então, que Augusto dos Anjos, em seu poema Versos íntimos, quando nos diz “Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”., já sabia que fósforo e Lúcifer têm relação semântica? E que a todo instante recebemos do mundo tanto luzes quanto diabos? E que, então, não haveria mais forma de nos livrarmos dessa sina, senão nos convertermos a algoz de nossos algozes? Por isso, então, ele nos aconselha: “Se alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!”? Parece que Manuel Bandeira, anos depois, entendeu assim ao afirmar, em seu poema Pneumotórax, que “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”.


Os verbos levar e portar, presentes nas palavras Lúcifer e fósforo, originam-se de duas bases latinas e uma grega: ferre (fer-) e o particípio latus (lat-, que em português ficou lad- ou laç-); e phoros. Dessas bases, surgiram vários vocábulos em português, como auferir, circunferência, conferir, preferir; colação, delação, dilatar. 


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DULCINEIA DE DOM QUIXOTE: UMA CRIAÇÃO DE UMA CRIAÇÃO

Dom Quixote de la Mancha (1605), de Miguel de Cervantes, está visceralmente entrelaçado à influência das novelas de cavalaria, especialmente na criação da figura enigmática de Dulcineia de Toboso. Essa personagem é uma manifestação da memória literária do personagem Dom Quixote, derivada das damas idealizadas presentes nas narrativas que o cavaleiro leu. 


Dom Quixote, influenciado pelas novelas de cavalaria como Amadís de Gaula e Espejo de príncipes y cavalleros, concebe Dulcineia como a dama idealizada. O nome —  escolhido em contraste com a figura que inspirou a criação de Dulcineia, uma camponesa rústica com quem ele nunca falou chamada Aldonza Lorenzo — traz a sonoridade doce e poética da palavra dulzura. Cervantes habilmente emprega a ironia ao contrastar a idealização do cavaleiro com a origem prosaica de Dulcineia. O cavaleiro, ao fazer uma penitência de amor por ela, imita os rituais dos cavaleiros andantes, demonstrando a fusão de loucura e desatino presentes nas novelas de cavalaria.

A criação de uma amada imaginária é evidenciada quando Dom Quixote realiza uma mimesis, uma imitação da arte, para dar forma à sua dama ideal. O cavaleiro busca uma cópia e exige que ela seja reconhecida como o original. O episódio da caverna de Montesinos, onde sonha ver Dulcineia encantada, é uma sátira da fantasia e ilusão características do amor quixotesco. A ironia de Cervantes revela-se nas cenas cotidianas, como a carta de Dom Quixote a Dulcineia, evidenciando o contraste entre realidade e ficção, loucura e sensatez, e ridículo e sublime no amor do cavaleiro.


O amor de cavaleiro por sua amada surge como uma paródia criativa e crítica dos modelos literários anteriores. Suas declarações de amor exageram e distorcem os clichês e convenções do amor cortês, cavaleiresco, renascentista e de ouvidos presentes em romances de cavalaria como os de Amadis, Esplandian e Palmerin. A aventura do leão, a visita de Sancho à aldeia de El Toboso e a carta de Dom Quixote a Dulcineia destacam ainda mais o contraste entre a realidade e a ficção, estabelecendo o amor quixotesco como uma forma de paródia transformadora e libertadora.

Cervantes incorpora, além das novelas de cavalaria, à sua obra diversas influências literárias e culturais, notadamente de Petrarca, Dante e Erasmo. A idealização de Dulcineia reflete a influência do amor cortês de Petrarca, enquanto a busca de Dom Quixote por verdade e justiça assemelha-se à jornada espiritual de Dante na Divina Comédia. A crítica à sociedade e à igreja, inspirada em Erasmo, contribui para a complexidade da narrativa.


O conceito de metalinguagem, uma das funções da linguagem relacionada a mensagens que deixam em evidência a própria linguagem utilizada na comunicação, também está presente na obra. A metalinguagem pode ser identificada em textos que falam sobre outros textos, em obras de arte que se referem a outras obras de arte, ou em personagens que comentam sobre sua própria condição de personagens. Dulcineia é um objeto metalinguístico, pois é uma criação da memória literária de Dom Quixote, que é outro personagem fictício. Ele a imagina como uma princesa de alta linhagem e de grande beleza, sem nenhuma relação com a realidade. Dessa forma, Dulcineia é uma paródia dos motivos mais recorrentes da literatura idealista, como o amor, a honra, a valentia, o encantamento, etc. Ela é a encarnação da memória literária de Dom Quixote, que abrange as novelas de cavalaria e outros gêneros da época, como a poesia petrarquista e a literatura renascentista. Ela é um símbolo do amor quixotesco, um amor idealizado e inatingível que motiva as ações de Dom Quixote. 

Dom Quixote é, portanto, um símbolo universal. É uma obra seminal na literatura mundial, o primeiro romance moderno e polifônico. Ele satiriza os romances de cavalaria da época, introduzindo uma nova forma de narrativa que influenciou a literatura subsequente. As personagens e as aventuras de Dom Quixote se tornaram parte do imaginário coletivo, sendo adaptadas em diversas formas de arte e ensinando valores universais como coragem, lealdade e a importância dos sonhos. É um marco na literatura espanhola e mundial. 


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Referências do texto:
CERVANTES, Miguel de. Dom Quixote. Tradução de Sérgio Molina. São Paulo: Editora 34, 2023.

LAU, Y.W.J. Dulcinea: uno de los prosaicos productos de la deslumbrante memoria de don Quijote de la Mancha. Eindwerkstuk BA Spaanse Taal en Cultuur (200200214). Utrecht, 2005.

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sábado, 24 de fevereiro de 2024

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ E O ADEUS A JOHN LENNON

Em 8 de dezembro de 1980, morria John Lennon, aos 40 anos. E isso não passou despercebido pelo autor de Cem anos de solidão, Gabriel García Márquez. Segundo o escritor, durante 48 horas, o mundo foi tomado por uma comoção que uniu três gerações em uma catástrofe comum.



Veja a seguir uma crônica do autor colombiano sobre o acontecimento:


SIM: A NOSTALGIA CONTINUA A MESMA DE ANTES

Gabriel García Márquez

Foi uma vitória mundial da poesia. Num século em que os vencedores são sempre os que batem mais forte, os que conseguem mais votos, os que fazem mais gols, os homens mais ricos e as mulheres mais belas, é alentadora a comoção provocada no mundo inteiro pela morte de um homem que dedicou a vida a cantar o amor. É a apoteose dos que nunca ganham.

Durante 48 horas não se falou de outra coisa. Três gerações — a nossa, a de nossos filhos e a de nossos netos mais velhos — tínhamos pela primeira vez a impressão de viver uma catástrofe comum, e pelas mesmas razões. Um repórter da televisão perguntou na rua a uma senhora de oitenta anos qual era a canção de John Lennon que lhe agradava mais, e ela respondeu como se tivesse 15:

— “Happiness is a warm gun.”

Um garoto que estava vendo o programa disse:

— Pois eu gosto de todas.

Meu filho mais novo perguntou a uma garota da mesma idade por que mataram John Lennon, e ela respondeu, como se tivesse oitenta anos:

— Porque o mundo está acabando.

É assim: a única nostalgia comum que a gente tem com os filhos são as canções dos Beatles. Cada qual com seus próprios motivos, e com uma dor diferente, como ocorre sempre com a poesia. Não esquecerei nunca aquele dia memorável de 1963, no México, quando ouvi pela primeira vez, de maneira consciente, uma canção dos Beatles. A partir de então descobri que o universo inteiro estava contaminado por eles. Em nossa casa de San Ángel, com espaço apenas para nos sentarmos, havia somente dois discos: uma seleção de prelúdios de Debussy e o primeiro disco dos Beatles. Por toda a cidade, a toda hora, escutava-se um grito de multidão: “Help, I need somebody.” Alguém voltou a sugerir por esta época o velho mote segundo o qual os melhores músicos são os da segunda letra do catálogo: Bach, Beethoven, Brahms e Bartok. Alguém voltou a dizer a mesma tolice de sempre: que se incluísse Bozart. Álvaro Mutis, que como todo grande erudito da música tem uma fraqueza irremediável pelos tijolos sinfônicos, insistia em incluir Bruckner. Houve também quem tentasse reeditar a batalha em defesa de Berlioz, da qual eu discordava, porque não podia superar a superstição de que é um oiseau de malheur, isto é, um pássaro de mau agouro. Em compensação, empenhei-me desde então em incluir os Beatles. Emilio García Riera, que concordava comigo e é um crítico e historiador de cinema com uma lucidez um pouco sobrenatural, sobretudo depois do segundo trago, disse-me num destes dias:

— Ouço os Beatles com um certo medo, porque sinto que vou me recordar deles pelo resto de minha vida.

É o único caso que conheço de alguém com bastante clarividência para se dar conta de que estava testemunhando o nascimento de suas nostalgias. Entrava-se no escritório de Carlos Fuentes e ali estava ele escrevendo à máquina com um único dedo de uma única mão, como fazia sempre, em meio a uma densa nuvem de fumaça e isolado dos horrores do universo com a música dos Beatles a todo volume. 

Como sempre acontece, pensávamos então que estávamos muito longe de ser felizes, e agora pensamos o contrário. É a armadilha da nostalgia, que tira de seu lugar os momentos amargos e os pinta com outra cor, e torna a colocá-los onde já não doem. Como nos retratos antigos, que parecem iluminados pelo resplendor ilusório da felicidade, nos vemos com assombro como éramos jovens quando éramos jovens, e não apenas nós que estávamos ali, mas também a casa e as árvores do fundo, e até as cadeiras em que nos sentávamos. Che Guevara, conversando com seus homens ao redor do fogo nas noites vazias da guerra, disse uma vez que a nostalgia começa pela comida. É certo — mas só quando se tem fome. Em compensação, sempre começa pela música. Na realidade, nosso passado pessoal se afasta de nós desde o momento em que nascemos, mas só o sentimos passar quando um disco acaba.


Esta tarde, pensando tudo isto diante de uma janela triste onde cai a neve, com mais de cinquenta anos nas costas e ainda sem saber bem quem sou, nem que porra faço aqui, tenho a impressão de que o mundo foi igual desde meu nascimento até que os Beatles começaram a cantar. Tudo mudou então. Os homens deixaram crescer o cabelo e a barba, as mulheres aprenderam a se despir com naturalidade, mudou a maneira de vestir e de amar, e se iniciou a liberação do sexo e de outras drogas para sonhar. Foram os anos estridentes da guerra do Vietnã e da rebelião universitária. Mas, sobretudo, foi a dura aprendizagem de uma relação diferente entre pais e filhos, o início de um novo diálogo entre eles que parecera impossível durante séculos.

O símbolo de tudo isto — à frente dos Beatles — era John Lennon. Sua morte absurda nos deixa um mundo diferente povoado de imagens harmoniosas. Em “Lucy in the sky”, uma de suas canções mais bonitas, fica um cavalo de papel de jornal com uma gravata de espelhos. Em “Eleanor Rigby” — com um baixo obstinado de celos barrocos — fica uma jovem desolada que recolhe o arroz, no átrio de uma igreja onde acaba de se celebrar um casamento. “De onde vêm os solitários?”, pergunta-se, sem resposta. Fica também o padre MacKensey escrevendo um sermão que ninguém ouvirá, lavando as mãos sobre os túmulos, e uma jovem que tira o rosto antes de entrar em casa e o deixa num frasco perto da porta para colocá-lo de novo quando tornar a sair. Estas criaturas sugerem que John Lennon era um surrealista, que é algo que se diz com demasiada facilidade de tudo o que parece extraordinário, como costumam dizer de Kafka os que não souberam lê-lo. Para outros, é o visionário de um mundo melhor. Alguém que nos fez compreender que velhos não somos os que temos muitos anos, mas os que não subiram a tempo no trem de seus filhos. 

16/12/1980

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Referência do texto:
MÁRQUEZ, Gabriel García. Crônicas: 1961-1984 (Obras Jornalísticas 5). Rio de Janeiro: Record, 2019.

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quarta-feira, 21 de fevereiro de 2024

"CLOSE READING": UMA LEITURA DE "VIDAS SECAS"

A prática do close reading (algo como "leitura próxima, minuciosa) na interpretação literária é uma leitura meticulosa que busca desvincular os leitores do poder envolvente da narrativa. Ao focar na linguagem, imagens, alusões, intertextualidade, sintaxe e forma, o close reading proporciona uma forma de desfamiliarização, rompendo com práticas habituais de leitura. 

Leitores frequentemente consomem textos pela trama, seguindo a experiência de leitura sem questionar os meios pelos quais trechos específicos atingem seus efeitos. O close reading traz uma pausa reflexiva, incitando os leitores a examinar técnicas, dinâmicas e conteúdo com precisão. Não se trata apenas de ler entre as linhas, mas de mergulhar mais fundo nas linhas, revelando os múltiplos significados que uma expressão, descrição ou palavra pode conter.

Embora seja possível realizar um close reading de trechos extensos, geralmente é mais eficaz escolher extratos curtos para demonstrar percepções. O close reading é a base para análises literárias mais profundas, permitindo descobertas interessantes e inesperadas, que destacam a vivacidade e a multiplicidade da linguagem.

Na crítica literária, o close reading concentra-se na interpretação cuidadosa e sustentada de trechos breves. Sua ênfase no singular e específico, em detrimento do geral, destaca-se pela atenção minuciosa às palavras, sintaxe e estrutura formal. Essa abordagem envolve considerar tanto o conteúdo quanto a forma, proporcionando observações valiosas.

Ao realizar uma leitura atenta e minuciosa, várias perguntas podem orientar a análise. Desde questões sobre o locutor, público-alvo e propósito até a identificação de padrões, ambiguidades e movimento no trecho, a prática do close reading exige um envolvimento ativo. A transcrição cuidadosa é essencial, permitindo uma compreensão mais profunda dos ritmos, viradas e nuances do texto.


A seguir, coloco uma pequena análise do início da obra Vidas secas, de Graciliano Ramos, sob a base do close reading.

Este é o primeiro parágrafo de Vidas Secas, romance de Graciliano Ramos, lançado em 1938:

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da catinga rala.

Vidas Secas é o quarto romance do escritor alagoano, feito na sua plena maturidade literária. Dênis de Moraes, em seu excelente livro O velho Graça: uma biografia de Graciliano Ramos, nos dá este relato:

Lançado em março de 1938, Vidas secas assombrou a crítica. Álvaro Lins foi taxativo: “Um mestre da arte de escrever, acrescento sem nenhum medo de estar errado. E essa categoria Graciliano a conquistou com as vidas secas que povoam o seu mundo romanesco”.

Farei aqui pequenas análises apenas sobre o primeiro parágrafo da obra, uma leitura atenta acerca de como o autor construiu esse trecho – e, como consequência, acerca de todo o livro.

Comecemos pelo uso da nominalização. A alternância de substantivos e adjetivos que lembram a aridez, o calor e a fadiga em oposição a nomes que trazem a sensação de leve alívio sensório produz um caleidoscópio sinestésico-semiótico que faz o leitor entrar no mundo seco dos personagens e sentir o ambiente e o sofrimento da família.

  • planície avermelhada;
  • cansados; 
  • famintos;
  • areia do rio seco;
  • galhos pelados;
  • catinga rala.
  • manchas verdes;
  • sombra;
  • folhagem dos juazeiros.

Outra característica que nos chama atenção é a utilização dos artigos. Toda a paisagem e a situação lhes são familiares: a planície avermelhada, os juazeiros, a areia do rio seco, a viagem, a folhagem dos juazeiros, os galhos pelados, a catinga rala. Esse cenário de desolação é todo revelado com artigos definidos, o que mostra que essa lida é diária e a labuta não tem previsão de fim. O único substantivo antecedido de um artigo indefinido é exatamente aquilo que tanto os personagens procuram: uma sombra, objetivo ainda não conquistado, que irá aliviar um pouco seus sofrimentos.

Até os próprios personagens, que até então não foram nomeados, aparecem com uma única designação: os infelizes, uma conversão do adjetivo em substantivo por meio de um artigo definido. Isso, ao mesmo tempo, ilustra a condição ininterrupta da família e o não ineditismo daquele sofrimento.

Esse martírio inexorável é ainda sustentado pelo tempo verbal que prevalece, o pretérito imperfeito: alargavam, estavam, andavam, fazia, procuravam. Esse tempo tem como uma de suas características indicar uma ação em curso, no passado, ou uma ação habitual e duradoura no passado, mas que não necessariamente terminou. Assim, o narrador prepara o leitor para contínua saga da família, um ciclo interminável como a própria estrutura da obra mostrará: a narrativa termina como começa, com a família em retirada, no capítulo denominado Fuga. É o destino de vários Fabianos e Vitórias.

Como ilustração, coloco aqui o trecho final do último parágrafo de Vidas Secas:

E o sertão continuaria a mandar gente para lá. O sertão mandaria para a cidade homens fortes, brutos, como Fabiano, sinha Vitória e os dois meninos.

***

O que significa esse sinha anteposto ao nome Vitória?

A palavra senil e a palavra senhor vêm da mesma origem: do latim senior. Tanto senil quanto senhor se relacionam com o significado de “velho”.

Muitas vezes, ouvi certas construções que equiparavam senil e senilidade com a falta de memória típica de quem vai ficando idoso. Mas essa associação é apenas metonímica: utiliza-se uma característica da velhice para dar sentido à palavra senil. A rigor, não é para ser. Senil significa apenas velho.

Já senhor teve uma evolução que passou de idoso a uma forma de tratamento (“senhor João”, que depois passou a “seu João”, em que seu é redução de senhor, nesse caso). Após isso passou a ser sinônimo de valoração, quando se diz “ele é um senhor médico”. Veja que a anteposição de senhor ao substantivo médico indica um tom valorativo: ótimo médico. Isso já não acontece se senhor vier após o substantivo: um médico senhor, que equivale a “médico idoso”.

Semelhante evolução aconteceu com senhora, que produziu várias formas diferentes na língua portuguesa, especialmente no Brasil, devido à influência de diferentes culturas e dialetos. Dentre elas, estão sinha e sinhá, formas com as quais os escravos designavam a matriarca; e iaiá, um regionalismo do Brasil que se dava às meninas e às moças, muito usado também no tempo da escravidão. Um dos romances da fase romântica de Machado de Assis se chama Iaiá Garcia.

***

E por que Vitória?

Sinha Vitória é uma figura de resistência e sobrevivência. Embora a vida dela e de sua família seja marcada pela luta constante contra a seca e a pobreza, ela mantém a esperança e a determinação para continuar.

O nome Vitória, embora possa parecer irônico, frente ao contexto de dificuldades em que a personagem se encontra, torna-se profundamente apropriado, se considerarmos a vitória não como um estado final de sucesso ou prosperidade, mas como a capacidade de persistir e sobreviver.

Ela é a força motriz que mantém a família unida e em movimento, apesar das circunstâncias desafiadoras. Sua vitória está na sua resiliência, na sua capacidade de enfrentar a adversidade e continuar lutando. Sua força, determinação e resistência representam uma forma de sucesso em si mesmas.

 

Jason Lima
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terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

POR QUE AINDA PRECISAMOS DA LITERATURA?

Qual é a importância da literatura na sociedade moderna?

A literatura desempenha um papel fundamental na formação de nossa compreensão do mundo, influenciando normas e valores sociais, estimulando o pensamento crítico e inspirando-nos a refletir sobre o intricado ambiente que nos cerca. Num cenário onde as transformações acontecem em ritmo acelerado, a literatura permanece como um alicerce essencial em nossa educação e panorama cultural.

A beleza da literatura reside na sua atemporalidade; ela constrói uma ponte entre a realidade e os sonhos. Ao germinar sementes de novas ideias e aspirações nas mentes dos leitores, a literatura proporciona uma esperança abundante para o futuro. Apesar de a leitura muitas vezes ser considerada uma atividade solitária, ela, na verdade, nos conecta de maneira íntima aos personagens, reais ou fictícios, que o autor habilmente dá vida através de sua criação imaginativa.

A busca pela imortalidade é uma constante na história humana, e a literatura oferece um caminho singular para alcançá-la. Mesmo quando os personagens encontram seu fim em um romance, uma parte deles permanece no livro. O escritor, por meio de sua criação literária, transcende a barreira da mortalidade, imortalizando-se para as gerações futuras.

Vejamos algumas outras vantagens da literatura:

1. Portas culturais

A literatura é uma janela que nos permite vislumbrar outras culturas, pontos de vista e perspectivas. Desde clássicos até obras contemporâneas, ela é um veículo que nos possibilita compreender melhor outros modos de vida. A literatura é um meio ideal para explorar diferentes perspectivas e estilos de vida sem precisar vivenciá-los diretamente.

 2. Estímulo ao pensamento crítico

A leitura é um convite ao pensamento crítico, uma prática essencial em um mundo em constante evolução. Ela desafia nossas mentes a imaginar cenários e considerar diferentes pontos de vista, desenvolvendo habilidades criativas fundamentais.

3. Exploração de novas ideias

Num mundo hiperconectado, em que o desempenho irrefreável é o motor social, a literatura oferece um espaço para a reflexão profunda. Ela nos permite explorar novas ideias e conceitos, alimentando nossa criatividade e permitindo-nos imaginar o inimaginável.

4. Participação em assuntos sociais e culturais

Ao nos mergulhar em histórias e perspectivas únicas, a literatura nos capacita a compreender melhor o mundo ao nosso redor. Essa compreensão gera empatia e contribui para diálogos importantes sobre questões sociais e culturais. Com isso, a diversidade literária permite que exploremos diferentes experiências, culturas e pontos de vista, proporcionando um entendimento mais profundo do comportamento humano. Essa compreensão é valiosa em nossas vidas pessoais e no trabalho em equipe ou na tomada de decisões importantes que afetam muitas pessoas.

5. Importância da literatura para crianças

A literatura também desempenha um papel essencial no desenvolvimento da literacia e das habilidades de pensamento crítico das crianças. 

A estrutura repetitiva da maioria das obras narrativas ajuda a melhorar o reconhecimento de palavras, a compreensão de frases e a fluência geral na leitura das crianças.

Ao envolver as crianças em histórias, a literatura as incentiva a pensar sobre o uso da linguagem e como ela pode ser aplicada de maneira eficaz em diferentes situações. Isso leva a uma melhoria nas habilidades de escrita e na capacidade de expressão criativa.

A imersão de crianças em mundos fictícios estimula, ainda, o interesse pela leitura e a exploração de uma variedade de tópicos. Isso pode ser especialmente benéfico para os jovens aprendizes que estão desenvolvendo suas motivações e interesses.

Além disso, a literatura incentiva as crianças a pensar fora da caixa, imaginar situações impossíveis na vida real e considerar diferentes pontos de vista. Isso contribui para o desenvolvimento de habilidades de pensamento crítico e resolução criativa de problemas.

Ademais, muitos livros infantis abordam situações sociais desafiadoras, como bullying ou racismo, encorajando as crianças a explorar essas questões em suas próprias vidas e determinar como responder a elas.


Conclusão

A literatura nos obriga, pois, a saber mais sobre nós mesmos e a aprofundar nossos interesses e capacidades. Ao estudar literatura, naturalmente associamos nossas vidas com aquelas que encontramos na literatura. Aprofundamos nossos sentimentos de reações humanas e nossas autorrespostas, comparando e contrastando não apenas as visões de vários autores, mas também nossas próprias visões concebidas e pensadas. Ao lermos, tornamo-nos seres mais conscientes de nós mesmos e emocionalmente inteligentes.

Mas a influência da literatura vai além do emocional e cultural. Ela moldou paisagens políticas, impulsionou revoluções e deu origem a movimentos filosóficos. Pense nos ensaios de Thomas Paine, nos sermões de Padre Antônio Vieira, nos manifestos literários (românticos, modernistas...), no romance-manifesto de realismo cru de Carolina Maria de Jesus ou nos escritos de Simone de Beauvoir. Essas obras acenderam mentes, influenciaram políticas e alteraram o curso da história.

Na sala de aula, a literatura serve como uma ferramenta educacional, promovendo empatia, pensamento crítico e criatividade. Ela abre mentes para diferentes perspectivas, incentiva a reflexão e constrói uma base para a aprendizagem ao longo da vida.

Por tudo isso, a literatura é parte integrante de nossa vida, uma fonte constante de luz, ideias e pensamentos. Ela nos desafia a compreender mais sobre nós mesmos, aprofundar nossos interesses e expandir nossas capacidades. A literatura moldou a civilização, alterou a história e nos mostrou o poder das palavras. É uma forma de entretenimento e uma forma de arte que desempenha um papel fundamental na sociedade. 


Jason Lima
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