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sexta-feira, 8 de março de 2024

LAWRENCE FERLINGHETTI: O PADRINHO DA GERAÇÃO BEAT

Lawrence Ferlinghetti (1919-2021), poeta, pintor e ativista social, foi uma figura central no movimento beat nos Estados Unidos. Em 1953, ele cofundou (com Peter D. Martin) a City Lights Booksellers & Publishers em São Francisco, que rapidamente se tornou um ponto de encontro essencial para escritores, artistas e intelectuais. Mais do que uma livraria, a City Lights tornou-se um centro da contracultura, abraçando a literatura independente e desafiando as convenções literárias da época. Ferlinghetti viu a livraria como um refúgio para vozes marginalizadas, criando um ambiente em que a liberdade criativa florescia.

A City Lights nasceu de um desejo de Lawrence Ferlinghetti de criar um espaço para promover a literatura independente, especialmente a poesia. Inicialmente estabelecida como uma livraria, rapidamente se transformou em uma editora independente, com o objetivo claro de dar voz aos escritores que desafiavam os padrões tradicionais. Lawrence, ao fundar a City Lights, estava lançando as bases da geração beat. 

Lawrence Ferlinghetti e a City Lights

Um dos momentos mais marcantes da carreira de Ferlinghetti foi sua decisão corajosa de publicar Howl (O uivo) de Allen Ginsberg. Esse poema provocativo, que abordava temas como sexualidade e liberdade de expressão, levou Ferlinghetti a um julgamento histórico da Primeira Emenda. Sua absolvição solidificou a importância da liberdade criativa e estabeleceu a City Lights como um bastião da expressão artística sem restrições.

Ferlinghetti era um poeta prolífico, conhecido por sua coleção de poemas A Coney Island of the Mind (Um Parque de Diversões da Cabeça), publicada em 1958. Sua poesia, embora influenciada pelo movimento Beat, tinha uma identidade única. Explorando temas como vida urbana, política e espiritualidade, ele optava por uma linguagem acessível e uma abordagem direta. Além das palavras, Ferlinghetti expressava-se visualmente por meio de sua habilidade como pintor, criando uma fusão de elementos visuais e literários.

Lawrence acreditava na democratização da cultura e na acessibilidade da arte a todos. Ele desafiou a ideia de que a poesia deveria ser elitista, defendendo a importância de tornar a literatura disponível ao público em geral. Seu legado, que se estende além das páginas de seus escritos, é evidente na influência duradoura que teve na cena literária. Além de seu papel como editor e poeta, sua dedicação à justiça social e à liberdade artística inspirou gerações de artistas e escritores. Sua contribuição para a liberdade de expressão, seu papel como catalisador da contracultura e seu compromisso com a acessibilidade da arte são testemunhos de sua ideia visionária. 

Jason Lima


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sexta-feira, 1 de março de 2024

OS NOVE POETAS LÍRICOS DA GRÉCIA ANTIGA E A POESIA MÉLICA

No auge do Período Arcaico da Grécia, a poesia mélica surgiu, ligando-se aos desenvolvimentos sociais na polis e ao florescer cultural que acompanhava a expansão grega para a Ásia Ocidental e as ilhas do Egeu. 

 A palavra “mélica” em grego está relacionada à música e ao canto, e a poesia mélica era frequentemente acompanhada de música, daí o nome. Muitas vezes, essa poesia é também conhecida como poesia lírica, pois os poetas frequentemente usavam a lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições.

A expressividade emocional e a musicalidade marcante caracterizavam essa poesia, encontrando destaque entre os nove poetas líricos da Grécia Arcaica. Nomes como Safo e Píndaro destacavam-se nesse gênero. Estes artistas habilidosos faziam uso da lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições, resultando na designação do termo "lírica."

A poesia grega antiga era, ao mesmo tempo, uma forma literária e uma experiência coletiva destinada à apresentação pública. Acompanhada por música e dança, ela desempenhava um papel integral na vida social e cultural dos gregos antigos. Festivais religiosos, banquetes e competições eram palcos nos quais a poesia ganhava vida, envolvendo a comunidade em uma experiência emocional compartilhada.

A expressão poética grega era também um meio pragmático de interação social e discussão política. Os poetas abordavam questões de justiça, honra e a natureza do universo, fornecendo uma plataforma para criticar ou elogiar indivíduos e cidades. A poesia tornou-se uma voz influente na esfera pública, moldando opiniões políticas e sociais.

Além disso, a arte poética atuava como uma ferramenta educacional essencial na Grécia antiga, transmitindo valores e modelos de comportamento por meio de mitos. A paideia poética orientava os gregos, explorando e questionando significados mitológicos. Esses mitos eram entrelaçados na trama da sociedade, influenciando a visão de mundo e as escolhas éticas dos indivíduos. A poesia mélica estabelecia, pois, uma estreita relação com a rica mitologia grega, frequentemente explorando temas míticos em suas composições. Por exemplo, a poeta Safo tornou-se conhecida por suas representações envolventes da deusa Afrodite em suas obras, mergulhando na riqueza narrativa do panteão grego.

A formação do cânone poético, realizada pelos filólogos de Alexandria, teve um impacto duradouro no gosto literário e na transmissão cultural subsequente. A seleção criteriosa dos nove poetas líricos como representantes exemplares da poesia grega influenciou a leitura e interpretação das obras antigas em épocas posteriores. Essa catalogação proporcionou uma base para a preservação e apreciação contínua desses escritores. Os nove poetas são estes:


1. Alcman:

Poeta lírico coral da Grécia Antiga proveniente de Esparta, Alcman destaca-se como o representante inaugural do cânone alexandrino dos Nove Poetas Líricos. Ativo possivelmente no final do século VII a.C., Alcman deixou um legado de seis livros de poesia coral, a maior parte agora perdida, preservada apenas em citações de outros autores antigos e em fragmentos de papiros descobertos no Egito. Sua obra, escrita no dialeto dórico local com influências homéricas, é principalmente composta por hinos, caracterizando-se por estrofes longas formadas por versos em diferentes metros.

Quanto à sua biografia, as datas precisas de Alcman são incertas, mas provavelmente ele esteve ativo no final do século VII a.C. A origem dele é contestada, com algumas fontes sugerindo Sardes, na Lídia, e outras reivindicando Messoa, na Lacônia. Algumas tradições relatam que Alcman foi trazido como escravo para a família de Agesidas em Esparta, onde sua habilidade excepcional levou à sua emancipação. Acredita-se que ele tenha falecido devido a uma infestação de piolhos, embora essa informação possa ter sido confundida com o filósofo Alcmeão de Croton.

Em seu conjunto, a poesia de Alcman traz tópicos variados, desde a exaltação dos deuses até a natureza e os rituais festivos, destacando-se por uma linguagem visual rica e uma tonalidade leve e agradável. 

Alcman


2. Alceu:

Alceu de Mitilene (c. 625/620 a.C. - c. 580 a.C.) foi um poeta lírico da ilha grega de Lesbos, creditado por inventar a estrofe alcaica (quatro versos, sendo os dois primeiros hendecassílabo). Nasceu na classe aristocrática de Mitilene, onde esteve envolvido em disputas políticas. Ele viveu durante um período de lutas pelo poder, marcado por três tiranos sucessivos. Após o governo de Pittacus, o líder político dominante, Alceu e sua facção foram autorizados a retornar a Mitilene.

Durante seu exílio, Alceu possivelmente viajou extensivamente, incluindo uma visita ao Egito. Ele escreveu versos celebrando o retorno de seu irmão Antimenidas, um mercenário na Babilônia. O poeta era contemporâneo e compatriota de Safo, e ambos eram membros da escola lírica de Lesbos. Embora fosse sugerido que Alceu e Safo fossem amantes, isso permanece como tema de especulação.

Os trabalhos poéticos de Alceu foram compilados em dez livros, mas hoje existem apenas em forma fragmentária. Ele era conhecido por sua versatilidade em temas, abordando desde canções políticas e de amor até hinos. Os estudiosos o comparam frequentemente a Safo, destacando a variedade de seus assuntos e a simplicidade de seus metros. Poetas romanos como Horácio se inspiraram em Alceu para criar suas próprias composições líricas.

Alceu


3. Anacreon:

 Anacreon foi um poeta lírico grego, nascido por volta de 575 a.C. ou 570 a.C., em Teos, na Jônia (Turquia moderna). Reconhecido por suas canções de bebedeira e poemas eróticos, Anacreon foi incluído pelos gregos posteriores na lista canônica dos Nove Poetas Líricos. Escrevendo exclusivamente no antigo dialeto jônico, suas composições eram destinadas a serem cantadas ou recitadas ao som da lira.

A vida de Anacreon é envolta em alguma incerteza cronológica, mas ele provavelmente viveu no século VI a.C. Mudou-se para Samos, onde educou Polícrates, futuro tirano da ilha, antes de ser convidado para Atenas por Hiparco, que ascendia ao poder por volta de 528/7 a.C. Não se sabe ao certo quando Anacreon deixou Atenas, mas evidências sugerem sua presença até depois do assassinato de Hiparco em 514 a.C.

Apesar de sua reputação como autor de hinos, Anacreon também compôs líricas bacanais e amorosas. Contudo, sua representação como um poeta bêbado e luxurioso foi estabelecida na época helenística. Seus escritos influenciaram a tragédia ateniense do século V a.C., e seu impacto persistiu na literatura posterior, com autores como Horácio fazendo referências frequentes a ele.

Anacreon


4. Baquílides:

Baquílides (518 a.C. a 451 a.C.) foi um poeta lírico grego que mais tarde foi inserido na lista canônica dos Nove Poetas Líricos, que incluía seu tio Simônides. Ele é elogiado por sua habilidade narrativa, imagens vívidas e toques habilidosos que dão vida às descrições.

Baquílides frequentemente foi comparado desfavoravelmente com seu contemporâneo Píndaro. Embora compartilhem repertórios semelhantes, Baquílides é considerado mais simples e menos filosófico. Essa abordagem mais suave o tornou apreciado por leitores que encontravam prazer em sua poesia sem exigir muito esforço.

Sua carreira coincidiu com o surgimento de estilos dramáticos na poesia, representados por obras de Ésquilo ou Sófocles, sendo considerado um dos últimos poetas de grande importância dentro da tradição mais antiga da poesia lírica.

Os poemas de Baquílides são conhecidos por sua clareza e simplicidade, tornando-os uma introdução ideal ao estudo da poesia lírica grega em geral e aos versos de Píndaro em particular.

Quanto à sua vida, pouco se sabe com certeza devido às fontes compiladas muito depois de sua morte. Ele nasceu em Ioulis, na ilha de Ceos, e, segundo algumas tradições, foi banido por um tempo de sua terra natal. Sua fama cresceu gradualmente, e ele contava com patronos em várias regiões do Mediterrâneo. Suas composições eram encomendadas por aristocratas ambiciosos, e ele competiu com Píndaro por essas encomendas. Baquílides obteve sucesso notável com o patrocínio de Hieron de Siracusa. Sua obra foi colecionada no final do século III a.C. pelo estudioso Aristófanes de Bizâncio.

A maioria dos poemas sobrevive apenas em fragmentos, mas em 1896, uma descoberta de papiros no Egito trouxe à luz parte do trabalho de Baquílides, proporcionando uma visão mais completa de sua arte. 

Baquílides


5. Píndaro:

Píndaro (518 a.C. - 438 a.C.) foi um poeta lírico grego da antiga cidade de Tebas. Entre os nove poetas líricos canônicos da Grécia Antiga, sua obra é a mais bem preservada. Ele é elogiado por sua magnificência inspirada, pela beleza de seus pensamentos, pela riqueza exuberante de sua linguagem e pelo fluxo eloquente de sua retórica. Quintiliano afirmou que, entre os nove poetas líricos, Píndaro é o maior.

Sua poesia, porém, pode parecer difícil e peculiar. O comediógrafo ateniense Eupolis chegou a comentar que suas obras "já foram reduzidas ao silêncio pela falta de interesse da multidão em aprender elegância". No entanto, a descoberta de poemas de seu rival Bacílides em 1896 revelou que muitas das idiossincrasias de Píndaro eram típicas de gêneros arcaicos em vez de exclusivas do poeta.

Píndaro foi o primeiro poeta grego a refletir sobre a natureza da poesia e o papel do poeta. Sua poesia ilustra as crenças e valores da Grécia Arcaica no início do período Clássico. Ele expressa uma fé apaixonada no que os homens podem realizar pela graça dos deuses. 

Píndaro nasceu por volta de 518 a.C. em Cinoscefalas, uma vila na Beócia, perto de Tebas. Desde jovem, estudou poesia lírica em Atenas.

Sua carreira coincidiu com as Guerras Greco-Pérsicas, e ele celebrou vitórias gregas contra os invasores persas em suas odes. Píndaro usava suas odes para promover seus interesses e os de seus amigos, enaltecendo a nobreza de suas linhagens e suas vitórias atléticas. Ele viajou por toda a Grécia para atender a várias encomendas e competir com outros poetas.

Sua associação com Sicília, especialmente com o rico Hierão, causou desconforto em sua cidade natal, Tebas. Ele também recebeu críticas por elogiar Atenas em suas odes, o que levou a uma multa imposta por Tebas. 

Píndaro viveu até cerca de 80 anos, morrendo por volta de 438 a.C. Ele faleceu durante um festival em Argos, e suas cinzas foram levadas de volta a Tebas por suas filhas. Postumamente, recebeu homenagens, e sua casa em Tebas foi poupada por Alexandre, o Grande, quando ele destruiu a cidade em 335 a.C., devido aos elogios nas odes a seu ancestral.

Os valores e crenças de Píndaro são inferidos de sua poesia. Ele exaltava a poesia coral, justificando-a como uma tradição essencial. Seus deuses eram retratados tradicionalmente, sem diminuição de dignidade, e ele evitava degradá-los moralmente. Heróis míticos, sendo descendentes de uniões divinas, eram intermediários entre deuses e homens, e Píndaro os apresentava como simpáticos às ambições humanas. O poeta enfatizava que, ao homenagear tais homens, estava honrando os próprios deuses.

Píndaro, como poeta, acreditava que sua inspiração vinha das Musas, e sua habilidade era moldar essa inspiração com sabedoria e habilidade. Suas obras mostram inovação no uso de gêneros líricos, mas ele não criou novos gêneros. Ele compôs principalmente em um dialeto literário que misturava o dórico com elementos eólicos e épicos, às vezes incorporando palavras beócias.

Píndaro


6. Ibico:

Ibico foi um poeta lírico da Grécia Antiga, cidadão de Rhegium em Magna Grécia, provavelmente ativo em Samos durante o reinado do tirano Polícrates. Nascido em Rhegium, ele teria enlouquecido por amores juvenis e, curiosamente, é creditado como o inventor da "sambyke", uma cítara triangular. Sua vida é marcada por um destino trágico; capturado por bandidos em um local isolado, profetizou que as gruas que voavam acima seriam seus vingadores. Após seu assassinato, as gruas foram avistadas na cidade, revelando a verdade e originando o proverbial "as gruas de Ibico".

As narrativas sobre Ibico muitas vezes se misturam ao mito. O relato da sua morte, registrado por fontes como Plutarco, Antípatro de Sidon e mais tarde imortalizado por Friedrich Schiller em "As Gruas de Ibycus", pode ter raízes na combinação do nome do poeta com a palavra grega para a ave, "íbyx". Outro provérbio associado a Ibico destaca sua recusa nobre (ou tola) em se tornar tirano de Rhegium, optando pela carreira poética.

Ibico desempenhou um papel crucial na evolução da poesia lírica grega, atuando como mediador entre estilos orientais e ocidentais. Seu trabalho, preservado em sete livros na dialeto dórico, revela uma fusão intrincada de estilos corais e solistas. Ele abordou temas mitológicos, muitas vezes com variações originais, e estruturou seus versos em tríades, uma técnica que influenciou poetas posteriores.

Apesar de sua vida envolta em mistérios, Ibico é mais conhecido por suas composições líricas que exploram o amor e a natureza. Seus versos, ainda que fragmentados, capturam a intensidade emocional e a paixão.

Ibico


7. Safo:

Safo foi uma poeta grega nascida em Eresos ou Mitilene, na ilha de Lesbos, por volta de 630 a.C. e faleceu aproximadamente em 570 a.C. Ela é reconhecida por sua poesia lírica, destinada a ser cantada com acompanhamento musical. Na antiguidade, Safo era amplamente considerada uma das maiores poetas líricas, recebendo epítetos como "Décima Musa" e "A Poeta". A maioria de seus poemas se perdeu ao longo do tempo, restando apenas fragmentos, sendo "Ode a Afrodite" o único poema completo conhecido. A poesia de Safo era admirada na antiguidade, influenciando outros escritores. Seu estilo poético era conhecido por sua clareza, imagens vívidas e proximidade emocional.

Sobre sua vida, pouco se sabe com certeza. Ela era de uma família abastada de Lesbos, com três irmãos, Charaxos, Larichos e Eurygios. Acredita-se que tenha escrito em torno de 10.000 versos, destacando-se na poesia de amor, mas também abordando temas familiares e religiosos. Exilada para a Sicília em 600 a.C., sua morte é lendária, dizendo-se que pulou dos penhascos de Leucadia devido a um amor não correspondido pelo barqueiro Phaon.

Apesar de sua poesia ter sido amplamente admirada, muitos de seus escritos foram perdidos ao longo dos séculos, contribuindo para a mitologia e mistério em torno de sua figura. Sua influência perdura, e Safo permanece uma figura significativa na história da literatura e na representação da expressão artística feminina.

Safo


8. Simônides:

Simônides de Ceos (cerca de 556-468 a.C.) nasceu em Ioulis na ilha de Ceos. Muito considerado pelos estudiosos helenísticos, ele desempenhou um papel ativo em eventos importantes e interagiu com personalidades influentes de sua época.

Na era do Iluminismo, Lessing o comparou ao "Voltaire grego". Sua fama, influenciada por relatos coloridos de sua vida, o retratava como sábio e avarento. Simônides foi creditado com a invenção de um sistema mnemônico e contribuições para o alfabeto grego.

Como poeta, seu reconhecimento baseava-se na capacidade de apresentar situações humanas com simplicidade tocante. Quintiliano o elogiou pelo poder de evocar piedade, superando outros escritores do gênero. Ele foi especialmente associado a epitáfios, como os dos guerreiros caídos na Batalha de Termópilas.

Embora fragmentos de sua poesia tenham sobrevivido, arqueólogos em Oxyrhynchus, no Egito, continuam a descobrir novos fragmentos. Detalhes de sua vida são incertos, com relatos conflitantes sobre suas datas de nascimento e morte. Ele foi associado a Ceos, Atenas, Tessália, e passou seus últimos anos na Sicília, notadamente fazendo amizade com Hieron de Siracusa.

O impacto de Simônides durante as Guerras Persas foi significativo. Ele compôs versos comemorativos para vários estados gregos, incluindo epitáfios, epigramas dedicatórias e poemas sobre batalhas como Termópilas, Artemísio, Salamina e Plateia. Sua rivalidade com Ésquilo e seu papel na comemoração da vitória em Maratona aumentaram sua proeminência.

Simônides 


9. Estesícoro:

Estesícoro (aproximadamente 630 a.C. - 555 a.C.) ganhou destaque por contar histórias épicas em metros líricos e teve tradições antigas associadas à sua vida. Estesícoro é mais conhecido por sua oposição ao tirano Fálaris.

Apesar de ser considerado um dos nove poetas líricos importantes pelos estudiosos de Alexandria, poucos fragmentos de sua poesia sobrevivem, e ele não despertou grande interesse entre os antigos comentaristas. Descobertas recentes, como o Papiro de Lille, proporcionaram uma melhor compreensão de seu trabalho, confirmando seu papel como uma ponte entre a narrativa épica de Homero e a narrativa lírica de poetas como Píndaro.

Estesícoro nasceu em Metauros, na Calábria, por volta de 630 a.C., e morreu em Catânia, na Sicília, em 555 a.C. Ele era um poeta lírico que escrevia em dialeto dórico e produziu 26 livros de poesia. Uma tradição conta que Estesícoro ficou cego por escrever contra Helena, recuperando a visão ao compor um elogio a ela, chamado de Palinode, após um sonho.

Suas obras incluíam temas épicos, como a "Saque de Troia", "Retornos" (sobre o retorno dos guerreiros gregos de Troia) e "Geryoneis" (sobre o roubo do gado de Gerião por Héracles). Estesícoro também teve influência na representação mitológica na arte do século VI a.C. e no desenvolvimento da poesia dramática em Atenas.

Estesícoro

 Jason Lima

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quarta-feira, 28 de fevereiro de 2024

MARIA EUGÊNIA VAZ FERREIRA: PRIMEIRA POETA INCONFUNDÍVEL URUGUAIA

Maria Eugenia Vaz Ferreira (1875-1924), uma das primeiras grandes poetas uruguaias a ter seus textos publicados, foi uma figura central da generación del 900 em seu país, um período de efervescência literária que moldou a cultura e a essência artística local. Ao lado de Delmira Agustini e Juana de Ibarbourou, ela é considerada uma das principais poetas do Uruguai.


Embora não tenha publicado em vida, sua obra veio a público por meio de seu irmão, Carlos Vaz Ferreira, que compilou e publicou La isla de los cánticos após a morte da autora. Sua poesia intensa e reflexiva centra-se na metafísica, na morte, na solidão e na busca pelo sentido da existência, frequentemente apresentados em um contexto onírico.

Em 1903, Maria Eugenia Vaz Ferreira selecionou cinquenta e um poemas para sua coleção Fuego y Mármol, mas o livro nunca chegou a ser publicado, talvez devido à aversão da autora a certos aspectos da publicidade. Foi somente em 1924, quando sua saúde estava debilitada, que ela escolheu quarenta poemas para La isla de los cánticos. A tragédia recaiu sobre a poeta, e ela faleceu antes que o manuscrito final pudesse ser preparado.

A publicação póstuma de La isla de los cánticos em 1925, conforme a visão de Carlos Vaz Ferreira, marcou o início da preservação do legado literário de Maria Eugenia. A obra permaneceu praticamente desconhecida até 1959, um ano após a morte de Carlos Vaz, quando Emilio Oribe, poeta e filósofo uruguaio, recuperou manuscritos inéditos e publicou La otra isla de los cánticos, adicionando setenta e um poemas não presentes no primeiro livro.

Em 1976, Rubinstein Moreira publicou Aproximación a María Eugenia Vaz Ferreira, uma obra que propõe uma biografia e análises de seus textos.

Hugo J. Verani, em 1986, desempenhou um papel crucial na reabilitação da poesia de Vaz Ferreira ao publicar uma edição anotada de suas coletâneas. Essa edição incluiu 87 poemas previamente não publicados, muitos dos quais Verani rastreou em jornais uruguaios do final do século XIX e início do século XX, além de fragmentos poéticos e composições destinadas a familiares e amigos.

Verani destacou a importância de Maria Eugênia Vaz Ferreira como a primeira mulher uruguaia com uma voz lírica inconfundível. Ele reconhece sua contribuição pioneira ao tematizar as angústias femininas e introduzir o amor como tema literário, prenunciando o lirismo sensual de outras poetisas notáveis, como Delmira Agustini e Juana de Ibarbourou.

O ambiente literário da época, marcado por supressões e preconceitos, pode ter contribuído para os desafios enfrentados por Maria Eugênia. Delmira Agustini, amiga próxima, expressou indignação em relação à demora na publicação dos manuscritos, atribuindo-a a críticas e desaprovação infundadas. A atmosfera de repressão pode ter contribuído para os colapsos mentais de Vaz Ferreira, levando à especulação sobre quem ou o que teria infligido as "derrotas diárias das decepções".

Uma perspectiva intrigante envolve a relação entre Maria Eugênia Vaz Ferreira e seu irmão, Carlos Vaz Ferreira, o qual sustentava que a verdadeira realização feminina residia na maternidade e no casamento. A independência e a sensualidade expressas na poesia de sua irmã poderiam ter sido vistas como desafios a essa filosofia. A não publicação ativa da poesia de Maria Eugênia durante a vida de Carlos sugere a possibilidade de um conflito de visões.


A crítica literária, historicamente negligente em relação a Maria Eugênia Vaz Ferreira, começou a reconhecer sua importância décadas após sua morte. Em 2007, a Modern Language Association of America publicou uma antologia de modernismo hispano-americano em tradução para o inglês, incluindo três poemas de Vaz Ferreira. Essa iniciativa, embora com traduções imperfeitas, contribuiu para apresentar a poesia da autora a um público mais amplo.

A falta de datas em seus poemas complicou a ordenação cronológica de sua obra, mas uma abordagem temática proposta por Arturo Sergio Visca revela quatro séries principais: poemas de amor, angústia, transição e aceitação metafísica.

Portanto, diante do que vimos, Maria Eugênia Vaz Ferreira, uma precursora na expressão literária feminina, merece sem dúvidas uma apreciação mais condizente com a sua importância. Infelizmente, não temos edições em português de sua obra.


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segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

J. M. PEREIRA DA SILVA: UM ROMÂNTICO NA ACADEMIA

 João Manuel Pereira da Silva (1817-1898), fundador da cadeira 34 da academia Brasileira de Letras, cujo patrono é Sousa Caldas, foi escritor, crítico biógrafo, poeta, tradutor e historiador na chegada do Romantismo ao Brasil, surgindo como um precursor e visionário na criação da narrativa de ficção no século XIX. O autor foi um exemplo nato do espírito romântico que cobriu o cenário literário brasileiro dos anos de 1800. Seu nacionalismo literário, proclamado no artigo na publicação Niterói, revista brasiliense de 1836, fundada por Gonçalves de Magalhães, Pereira da Silva, Pôrto Alegre e Sales Tôrres Homem (publicação que, juntamente a Suspiros poéticos e saudades, de Gonçalves de Magalhães, inaugura o Romantismo brasileiro), ganha vida nas criações ficcionais publicadas no ano seguinte.

O Gabinete de Leitura, periódico editado no Rio de Janeiro, foi o veículo pelo qual Silva disseminou histórias que visavam entreter e forjar uma identidade literária nacional. Com 35 números em 9 meses, o jornal desempenhou um papel vital na moldagem da prosa de ficção brasileira.

O conjunto de obras de Pereira da Silva, especialmente destacado por seis narrativas no revela uma habilidade distintiva de assimilar os modelos do Romantismo europeu enquanto almeja produzir uma literatura nacional. A localização das histórias no espaço e no tempo, particularmente na Província do Rio de Janeiro, demonstra a busca pela abrasileiramento da ficção, um esforço consciente para enraizar as narrativas no solo pátrio.

Os enredos mostram um emaranhado de elementos românticos, desde paixões intensas, peripécias amorosas (tão caras aos romances da época) até finais trágicos. O amor impossível, o ciúme, o pecado, o sofrimento e a tragédia tornam-se fios condutores de um panorama característico do romantismo. Mas também cabem críticas sociais e ironias, antecipando olhares ficcionais alencarinos e machadianos.

O estilo de Silva é um testemunho do romantismo, com narradores ora em primeira pessoa, ora externos e oniscientes. Sua habilidade de se expressar com subjetividade, sentimentalismo e imagens vívidas empresta uma qualidade distintiva às suas obras. O autor assume não apenas o papel de contador de histórias, mas também como um participante ativo no mundo que cria.

João Manuel Pereira da Silva, ao publicar suas narrativas em um momento crucial na história literária brasileira, contemporizou com o Romantismo europeu e contribuiu para a formação de uma literatura nacional. Além disso, seu papel na historiografia nacional foi consolidador. segundo Alfredo Bosi, em sua História Concisa da Literatura Brasileira, "Pereira da Silva (1817-98) compilou o Parnaso Brasileiro (1842) e foi cronista encomiástico no Plutarco Brasileiro (1847), obras que contribuíram para balizar o meufanismo romântico".

Na página da Academia Brasileira de Letras, há o seguinte relato em relação à escassa documentação sobre sua biografia:

Pereira da Silva, um dos fundadores da Academia, quando contava já oitenta anos, foi um acadêmico que ficou sem elogio nesse ilustre cenáculo. Tendo falecido dois anos após a fundação, foi sucedido pelo Barão do Rio Branco, que tomou posse por meio de carta, deixando por isso de estudar a figura e a obra de seu antecessor. Os sucessores do Barão não estavam obrigados a esse estudo, e assim permaneceu sem exame profundo tudo quanto fez aquele acadêmico, polígrafo e historiador com muitos volumes publicados.

Abaixo segue uma lista com suas obras:

  • Uma paixão de artista, 1838.
  • O aniversário de D. Manuel em 1828, 1839.
  • Religião, amor e pátria, 1839.
  • Jerônimo Corte-Real, 1840.
  • Aspásia, (s.d.).
  • Parnaso brasileiro, 2 vols., 1843-48.
  • Plutarco brasileiro, 2 vols., 1847.
  • Varões ilustres do Brasil durante os tempos coloniais, 1858.
  • Obras literárias e políticas, 2 vols., 1862.
  • História da fundação do Império, 7 vols., 1864-68.
  • Segundo período do Reinado de D. Pedro I no Brasil, 1871.
  • História do Brasil de 1831 a 1840, 1879.
  • Nacionalidade da língua e literatura de Portugal e do Brasil, 1884.
  • Felinto Elísio e sua época, 1891.
  • Memórias do meu tempo, 1897.

Jason Lima
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ADA GOBETTI: LITERATURA E ANTIFASCISMO

 Ada Prospero Gobetti, nascida em 23 de julho de 1902 em Turim, Piemonte, Itália, foi escritora, intelectual, educadora e política. Vivenciou as duas Grandes Guerras Mundiais, engajando-se, principalmente, durante o segundo conflito, no qual desempenhou um papel importante na Resistenza italiana.

Sua obra, de uma densidade intelectual grandiosa, abrange livros didáticos, análises literárias e obras infantojuvenis, como o bastante divulgado na Europa Storia del Gallo Sebastiano. Ada contribuiu para diversas revistas ao longo de sua vida e deixou um legado literário substancial, notadamente com seu livro Diario Partigiano (1956), uma obra fundamental para compreender a Resistenza italiana.

A correspondência entre Ada e seu primeiro marido, Piero Gobetti (1901-1926), intitulada Nella tua Breve Esistenza. Lettere 1918-1926, revela uma história de amor e documenta o desenvolvimento intelectual e humano de Ada. Desde o início do século XX, suas cartas abordam questões como a liberdade feminina e o antipatriarcalismo.

O contexto histórico de perseguições pelo regime fascista surge fortemente na vida de Ada quando, em 1926, seu marido é espancado por defensores de Mussolini e falece em Paris dias depois. Ela, agora viúva e mãe, retorna à Itália e mergulha na Resistenza, contribuindo ativamente com o movimento antifascista. Ela escreveu panfletos, participou de guerrilhas e assumiu papéis de comando e organização.

Ada foi reconhecida após a guerra pela República Italiana, recebendo a Medalha de Prata de mérito militar e uma patente condizente com sua atuação na Resistenza. Sua dedicação à resistência não foi apenas militar; ela defendeu ideais democráticos, direitos das mulheres e educação democrática pelo resto de sua vida.

Com o fim da Segunda Guerra Mundial, Ada Gobetti continuou a luta por uma sociedade mais justa, envolvendo-se em movimentos políticos e defendendo os direitos das mulheres. Sua vida de resistência, intrinsecamente ligada à história italiana do século XX, é um testemunho de coragem, intelecto e dedicação à liberdade.

Ada Gobetti faleceu em 14 de março de 1968 em Turim.

No dia 10 de março de 1980, o Ministério da Defesa da República da Itália emitiu um documento concedendo à escritora a Medalha de Prata de Valor Militar, destacando sua participação na Resistenza com as seguintes palavras:

Combatente partidária, ela foi uma das primeiras mulheres que, em 8 de setembro de 1943, organizou a luta armada contra o inimigo. Ciente do perigo que corria, transformou sua casa em um ponto de encontro e centro vital de atividade clandestina para todos os partidários da região.
Enviada à França em uma missão delicada para o comando aliado, não hesitou em enfrentar uma travessia traiçoeira dos Alpes a uma altitude de mais de três mil metros, que durou mais de três dias.
Ela teve sucesso, com sua habilidade única de escalar os Alpes e desconsideração pelo perigo, em fugir da perseguição do inimigo e levar em segurança os documentos que lhe foram confiados.
Um exemplo brilhante de dedicação suprema e entusiasmo fervoroso pelos ideais de liberdade e pátria.
Vale do Alto Susa, 18-21 de fevereiro de 1945.

Para a maioria dos italianos, a palavra Resistenza se refere especificamente à luta pela libertação da Itália da ocupação alemã, um período de vinte meses que começou em setembro de 1943 e terminou em abril de 1945. Para Ada Gobetti, Resistenza é a armada durante a guerra e qualquer ação contra a obstrução da liberdade, a limitação dos direitos humanos ou a restrição do conhecimento imposta por um poder político.

A experiência da Resistenza é narrada no Diário Partigiano (1956). 

Ada Gobetti nasceu e se formou no coração da antiga Turim. Ela habitava na via XX Settembre, frequentou a escola Pacchiotti e o Liceu Balbo, graduando-se em junho de 1925 na Faculdade de Letras e Filosofia com uma tese sobre o pragmatismo anglo-saxão. No mesmo prédio vivia Piero Gobetti, com quem ela se casaria em 11 de janeiro de 1923. Seu amor tornou-se uma parceria humana e política. Ada compartilhou com Piero o entusiasmo pelas lutas operárias e sociais em Turim em 1918-1920, escreveu para Energie Nove, a primeira revista de Gobetti e colaborou com outras publicações. 

Ada retomou a atividade de professora, primeiro como substituta de filosofia no Liceu Científico de Turim, depois, a partir de 1928, como titular de cátedra de Língua e Literatura Inglesa na escola média de Bra, em Savigliano, e de 1936 a 1956 no Ginnasio Balbo de Turim. Graças ao apoio de Benedetto Croce, ela traduziu várias obras, incluindo a História da Europa de Fischer, Civitas Dei de Lionel Curtius e Tom Jones de Fielding. Em 1943, pela editora Laterza (Casa Editrice Giuseppe Laterza & Figli), uma das maiores editoras da Itália, fundada em 1901, publicou um livro sobre Alexander Pope.

Em junho de 1937, Ada se casou com o amigo Ettore Marchesini, que permaneceria ao seu lado até o final. A partir da entrada da Itália na guerra em junho de 1940, ela se empenhou mais vigorosamente na atividade antifascista clandestina: aderiu à Giustizia e Libertà; foi uma das fundadoras do Partito d'Azione; participou diretamente da luta armada, inclusive em missões perigosas, como quando no inverno de 1944-1945 atravessou o Passo dell'Orso e o Colle Sommelier com uma coluna de partidários para entrar em contato com os aliados e os movimentos femininos da França libertada; foi uma das promotoras dos Gruppi di difesa della donna.

O ativismo partidário se estende ao ativismo político: após a Libertação, foi nomeada vice-prefeita da Junta Municipal de Turim; foi eleita para o Conselho Nacional da ANPI e da UDI, tornando-se presidente; em 1945, em Paris, participou da fundação da Federação Democrática Internacional Feminina; em julho de 1947, foi a Londres para um encontro internacional da Liga dos Direitos Humanos (onde um acidente de carro causou uma concussão cerebral que ela conseguiu superar após uma longa convalescença); em outubro de 1954, liderou uma delegação de mães em Roma para protestar contra o uso da guerra atômica na Coreia; em 1956 participou da Conferência de Bandung. 

Ada encontrou na escrita uma forma de expressão autêntica e profunda: publicou mais de trinta livros, traduziu, colaborou em revistas e jornais, deu palestras na Rádio e na televisão. Ela também empenhou-se na atividade editorial, publicando os escritos de Piero e sua correspondência com Giuseppe Antonio Borgese.

Ada Gobetti foi uma mulher de coragem e dedicação cujas ações e histórias humanitárias e antifascistas merecem grandes homenagens. É extremamente lamentável que não tenhamos edições de suas obras em português.


Jason Lima
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BORGES E PINOCHET: UM APERTO DE MÃO E UM ADEUS AO NOBEL

 Em 1976, o escritor argentino Jorge Luis Borges (1899-1986), considerado por muitos o maior autor portenho, viajou para receber um Prêmio Honoris Causa da Universidade do Chile. Essa visita, que inicialmente parecia uma honra literária rotineira, acabou por gerar repercussões esperadas e marcantes em sua vida.

Antes da viagem, Borges já havia sido condecorado com a Ordem de Bernardo O'Higgins pela embaixada chilena em Buenos Aires. A visita ao regime militar de Augusto Pinochet, porém, tomou um rumo controverso. Em seu discurso de agradecimento, Borges surpreendeu ao expressar apoio ao governo militar chileno. Suas palavras de elogio à ordem e estabilidade percebidas no Chile, comparadas a outros lugares do continente que ele via como anárquicos ou comunistas, foram amplamente divulgadas.

Gabriel García Márquez assim fala sobre isso em uma crônica de 1980:

"O certo é que a 22 de setembro daquele ano [1976] - um mês antes da votação [do Prêmio Nobel] - Borges fizera algo que nada tinha a ver com sua literatura magistral: visitou, em audiência solene, o general augusto Pinochet.

- Não sou digno da honra de ser recebido pelo senhor, presidente - disse em seu infeliz discurso."

Essa posição teve um preço em suas aspirações ao Prêmio Nobel de Literatura. A Academia Sueca, apesar do notável legado literário de Borges, excluiu o autor devido à sua polêmica visita ao território chileno. María Kodama, viúva de Borges, relembra uma chamada de Estocolmo alertando sobre consequências negativas iminentes. A Academia Sueca, temendo associar-se a Borges após sua visita ao regime militar, telefonou ao argentino e sinalizou que isso poderia impactar negativamente em sua candidatura ao Nobel. No entanto, Borges, fiel a seus princípios éticos, recusou-se a reconsiderar sua decisão, falando, ao telefone: "Olha, senhor, agradeço a gentileza de vocês, mas depois do que você acabou de me dizer, meu dever é ir ao Chile. Há duas coisas que um homem não deve permitir: subornar ou ser subornado".

Borges, conhecido por seu ceticismo político, enfrentou críticas por sua postura. Mesmo após a polêmica visita, permaneceu crítico em relação a questões políticas, lamentando os desaparecidos e manifestando desinteresse pela Guerra das Malvinas. 

Em outro episódio, o autor de O Aleph rotulou o então presidente argentino Perón como bandido e fez a mais insultuosa das afirmações, sugerindo que o líder argentino era casado com uma prostituta - uma referência direta a Evita. Essas palavras duras, lançadas em 1976, ano politicamente fatídico para o argentino, o colocaram em rota de colisão com os peronistas. Ele havia elogiado Pinochet como um combatente contra a anarquia e o comunismo e brindou Jorge Rafael Videla, general argentino e ditador de seu país entre 1976 e 1981, chamando-o de soldado-cavalheiro. Em uma reviravolta irônica, Borges, antes membro do Partido Conservador, alegou ignorância sobre os crimes de Pinochet e Videla, se denominando uma "pessoa apolítica". 

A recusa do Prêmio Nobel, anunciada por Arthur Lundqvist, membro do comitê do Nobel, teve várias explicações. Volodia Teittelboim, colaborador próximo de Luis Corvalan, secretário-geral do Partido Comunista Chileno, afirmou que Borges nunca receberia o Nobel devido à sua polêmica visita ao Chile em 1976. Outra biógrafa, Maria Esther Vázquez, sugeriu uma rivalidade literária com Lundqvist em 1964 como possível motivo.

Em 1976, Saul Bellow foi o laureado pela Academia Sueca pelo "entendimento humano e sutil análise da cultura contemporânea que são combinados em sua obra". Borges brincou que era uma tradição escandinava nomeá-lo, mas premiar outros. O escritor faleceu em 1986 sem ser laureado com o Nobel.

García Márquez, por sua vez, alinhado com a esquerda, criticou Pinochet e enalteceu Castro. Em 1982, ganhou o Nobel de Literatura "pelos seus romances e contos, em que o fantástico e o real se combinam num mundo densamente composto pela imaginação, refletindo a vida e os conflitos de um continente". O autor de Cem Anos de Solidão foi bem recebido pelo establishment intelectual-literário de esquerda, em contraste a Borges.


Jason Lima
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ALMACHIO DINIZ: CEM LIVROS SEM LEMBRANÇAS

  No Brasil, muitos nomes proeminentes das letras enfrentam um destino antitético: o prestígio que possuíam em sua época muitas vezes desvanece com o tempo, relegando-os ao esquecimento na consciência coletiva contemporânea. Almachio Diniz Gonçalves, personagem literário que contribuiu para diversos campos, além da Literatura, como Direito e Educação, é um ilustre desconhecido atualmente.

Nascido em Salvador em 7 de maio de 1880, Almachio Diniz foi um prolífico escritor que nos legou mais de 100 obras. Ele influenciou a intelectualidade brasileira do início do século XX e movimentou uma disputa pela imortalidade na Academia Brasileira de Letras, que marcou a instituição.

Filho de Adolfo Diniz Gonçalves e Maria Rosa Guimarães Diniz Gonçalves, Almachio trilhou sua formação em Direito, tornando-se professor na Faculdade Livre de Direito da Bahia. Com especialização em filosofia jurídica, sucedeu o renomado professor Leovigildo Filgueiras, consolidando sua presença no meio acadêmico.

Candidatou-se à Academia Brasileira de Letras, enfrentando Afrânio Peixoto para a Cadeira 7, cujo patrono é Castro Alves, baiano como Almachio, e cuja vaga havia sido deixada pela morte de Euclides da Cunha. Essa disputa revelou rivalidades literárias e complexas dinâmicas sociais da época. A busca por reconhecimento na ABL não foi exitosa e ele perdeu a disputa com Afrânio Peixoto, que foi eleito como imortal no dia em 7 de maio de 1910.

Em 1915, tornou-se catedrático da Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, dedicando-se ao ensino do Direito Civil. Simultaneamente, participou da fundação da Faculdade Teixeira de Freitas, em Niterói, ampliando sua influência no cenário educacional.

Em 1917, tornou-se membro-fundador da Academia de Letras da Bahia, ocupando a Cadeira 37, cujo patrono é o poeta e jornalista João Batista de Castro Rebelo Júnior (1853-1912).

Eleito em 1935 para a Academia Carioca de Letras, onde ocupou a Cadeira 3, cujo patrono é o historiador e político Monsenhor Pizarro e Araújo, Almachio torna-se um dos escritores de enorme influência nos redutos literários.

Em 1935, tornou-se advogado da Aliança Nacional Libertadora (ANL), liderada por Luís Carlos Prestes. Nesse papel, enfrentou os desafios políticos da era Vargas, impetrando um mandado de segurança contra o fechamento das sedes da ANL, embora sem sucesso diante do Supremo Tribunal Federal.

Em 2 de maio de 1937, Almachio Diniz Gonçalves faleceu.

Uma obra sua mereceu atenção da Igreja. O livro A carne de Jesus (1910) descreve um relacionamento amoroso entre Jesus e Maria Madalena e de um sensual encontro entre Cristo e Cláudia, esposa de Pôncio Pilatos. Por essa obra Almachio foi excomungado em 1913. Drummond, no poema "Livraria Alves", lançado no seu livro Boitempo, assim fala de Almachio:


Primeira livraria, Rua da Bahia.
A Carne de Jesus, por Almáquio Diniz
(não leiam! obra excomungada pela Igreja)
rutila no aquário da vitrina.
Terror visual na tarde de domingo.
Volto para o colégio. O título sacrílego
relampeja na consciência.
Livraria, lugar de danação,
lugar de descoberta.
Um dia, quando? Vou entrar naquela casa,
vou comprar
um livro mais terrível que o de Almáquio
e nele me perder - e me encontrar.



A trajetória de Almachio, apesar de marcante em sua época, não resistiu ao tempo. Sua obra, rica em conhecimento e reflexões, tornou-se esquecida, com muitos brasileiros contemporâneos desconhecendo quase que totalmente suas contribuições. A falta de visibilidade contemporânea para figuras como Almachio destaca a necessidade de revisitar o patrimônio literário e intelectual do Brasil. A dinâmica cultural muitas vezes prioriza o novo em detrimento do antigo e o cânone em lugar do que está periférico, levando ao apagamento gradual de nomes que, em sua época, foram relevantes e influentes. Esse fenômeno, o qual pode ser visto como uma espécie de amnésia cultural, cria um hiato na compreensão das raízes intelectuais do país.

Portanto, resgatar e celebrar a obra de figuras como Almachio Diniz Gonçalves é um ato de justiça histórica e uma oportunidade para enriquecer o entendimento contemporâneo sobre a diversidade e a profundidade da produção intelectual brasileira. A revalorização desses legados contribui para a construção de uma narrativa cultural mais completa e inclusiva, reconhecendo a riqueza do pensamento que moldou o Brasil em diferentes períodos.


Jason Lima
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MARIA DE LOURDES TEIXEIRA: PREMIADA E ESQUECIDA

 A exclusão de mulheres do cânone literário está ligada historicamente a estruturas sociais e culturais basilares e formadoras de um povo, que confinam a mulher a uma vida doméstica, privada e lhe negam o conhecimento e a proeminência social. Na cena literária, por muito tempo pairou (e ainda paira) sobre a literatura escrita por mulheres um julgamento de imperfeição, futilidade e irrelevância. As mulheres eram (e ainda são por muitos) frequentemente compreendidas como autoras de segunda categoria. Prêmios de grande visibilidade, em geral, têm baixíssima taxa de autoras. Veja, como exemplo, que até hoje, desde a sua criação em 1901, 85,8% dos laureados com o Prêmio Nobel de Literatura são homens: apenas 17 mulheres ganharam o Prêmio (14,2% de 120 laureados no total). É verdade que vemos hoje uma (ainda vagarosa) mudança que nos deixa esperançosos de uma maior visibilidade e equidade social. É um processo lento. E Maria de Lourdes Teixeira é um exemplo desse fenômeno excludente das letras no Brasil.

Nascida em São Pedro-SP, em 23 de março de 1907, foi uma escritora premiada, com uma trajetória literária significativa, mas, ao mesmo tempo, em um processo de lamentável esquecimento e apagamento de suas obras no cânone literário brasileiro.


MIGALHAS DE AMOR

O gosto de teus beijos
Em minha boca permanece
O calor de teu corpo
Ainda me aquece

Preciso de tuas carícias
Envolver-me no teu regaço
Amparar-me no teu regaço

Pois só assim terei a ilusão
Que contigo ainda estou
E que uma migalha desse
Amor restou

Devolva-me, devolva-me, por favor
O resto desse amor!


A autora foi romancista, jornalista, tradutora, crítica literária, ensaísta, memorialista, biógrafa e poeta. Desde a adolescência, manifestou sua paixão pela literatura com a publicação de contos. Em seu primeiro casamento, com Ermelindo Scavone, enfrentou proibições de sua produção artística, ficando por anos afastada do cenário literário após o primeiro matrimônio. O segundo casamento, com José Geraldo Vieira, marcou uma nova fase, incentivando seu retorno à literatura, explorando críticas, romances e artigos.

Entre 1961 e 1970, Maria de Lourdes conquistou o Prêmio Jabuti duas vezes, alcançando reconhecimento internacional. Tornou-se correspondente em Paris para o jornal O Estado de São Paulo, participando de missões culturais e sendo convidada a discutir literatura em diversos países. Recebeu prêmios internacionais, como o da Comissão Internacional de Psicologia Geral da Polícia Criminal de Paris.

Em 25 de junho de 1969, Maria de Lourdes foi eleita para a Academia Paulista de Letras, ocupando a cadeira 12 e tornando-se a primeira mulher indicada na instituição. Sua morte em 1989 não encerrou seu legado, deixando uma rica produção literária que abrange novelas, contos, romances, biografias, artigos e crítica literária. Destacam-se em sua carreira as obras premiadas Rua Augusta (1963) e O Pátio das Donzelas (1969). Seu último trabalho, A Carruagem Alada, um livro de memórias, foi lançado postumamente em 1986.

Quando será o tempo em que as escolas, a imprensa e o meio acadêmico resgatarão Maria de Lourdes Teixeira e lhe darão a visibilidade merecida?


Jason Lima
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