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sexta-feira, 15 de março de 2024

O "MILAGRE ECONÔMICO" E A FARSA DO REI DESPIDO

Durante os anos da ditadura militar, o poder do ministro da Fazenda era quase absoluto, um instrumento na engrenagem do regime. Delfim Netto, que ocupou o cargo nos governos de Costa e Silva e Médici, exerceu influência decisiva em um período marcado por medidas econômicas draconianas, decretos-lei autoritários e uma imprensa oficial que dizia o que era para ser publicado.

Delfim Netto envolveu-se, ao logos dos anos seguintes, em vários escândalos de corrupção e em ações distantes de serem ilibadas. Um dos episódios mais lembrados envolvendo o ex-ministro foi o Escândalo Coroa-Brastel, que veio à tona em 1985. Delfim Netto, juntamente com o empresário Assis Paim Cunha e o ministro Ernane Galvêas, foi acusado de desviar recursos governamentais da Caixa Econômica Federal para benefício pessoal. As ramificações desse escândalo lançaram uma sombra duradoura sobre a carreira de Delfim, evidenciando práticas questionáveis em seu período como ministro.

Em outro momento, no chamado caso Panama Papers, divulgado em 2016 pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), trouxe à luz contas em empresas offshore no exterior atribuídas a Delfim Netto, criadas pela firma panamenha Mossack Fonseca. Essa revelação lançou mais dúvidas sobre a transparência financeira do ex-ministro, ampliando o rol de questionamentos éticos.

Delfim Netto

Já em 2016, a delação premiada da Operação Lava Jato trouxe Delfim Netto de volta aos holofotes, desta vez envolvido em suspeitas de recebimento de propinas nas obras da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, no Pará. Quatro delatores corroboraram alegações de corrupção, indicando um padrão de conluio que envolveu grandes empreiteiras. A busca e apreensão realizada em março de 2018, no âmbito da Lava Jato, acentuou as suspeitas contra Delfim Netto, que era alvo de investigação por supostamente receber quinze milhões de reais em propinas relacionadas à construção de Belo Monte.

Voltando ao cenário de poder concentrado durante a Ditadura, a resistência ao governo militar encontrava poucos canais para se manifestar. A fortaleza do regime, paradoxalmente, começou a ruir de dentro para fora. Um episódio emblemático desse jogo de interesses foi a criação, em 1966, do Banco Central, um órgão autônomo destinado a garantir a estabilidade monetária e fortalecer o sistema financeiro. Contudo, a independência proposta rapidamente se viu ameaçada pelas tramas políticas de Delfim Netto.

Na transição entre os governos de Castelo Branco e Costa e Silva, Delfim, futuro signatário do AI-5, conspirou contra a indicação do presidente do Banco Central, tramando suspeitas de ações ilícitas pela diretoria do BC. A intriga culminou numa CPI que afastou os diretores do órgão, consolidando o controle sobre uma peça-chave da economia.

Durante o chamado "Milagre Econômico" entre 1969 e 1973, um período de crescimento econômico exponencial sob a ditadura militar, dados oficiais propagavam uma baixa inflação, mas a verdade oculta começou a se desvelar. O ministro da Economia do governo Geisel, Mário Henrique Simonsen, denunciou a farsa dos índices inflacionários durante o governo Médici.

A prática de congelar preços, adotada por Delfim, maquiava a realidade econômica. Na teoria, os índices indicavam estabilidade, mas na prática os mercados operavam com valores até três vezes superiores. O "Rei", representando a ilusão do Milagre Econômico, estava nu. A analogia com o conto A Nova Roupa do Rei, de Hans Christian Andersen, publicado em 1837, é visual, pois, como no conto, na ditadura ninguém tinha ousado antes denunciar a farsa, temendo a repressão. 

Na história dinamarquesa, havia um imperador extremamente vaidoso e preocupado com sua aparência. Dois vigaristas, sabendo disso, fingiram ser tecelões habilidosos e prometeram ao monarca uma roupa magnífica. Eles afirmaram que essa roupa seria tão especial que apenas pessoas inteligentes e dignas poderiam vê-la. Além disso, ela seria invisível para tolos ou filhos bastardos.

O imperador, curioso e ansioso para exibir sua suposta superioridade, contratou os vigaristas. Eles fingiram tecer o tecido, mas na verdade, não havia nada lá. O imperador, com medo de parecer ignorante, enviou seus ministros e cortesãos para ver a roupa. Todos, com receio de admitir que não viam nada, elogiaram a suposta beleza do tecido.

Finalmente, o imperador decidiu usar a roupa nova em um grande desfile público. Quando ele saiu às ruas, todos elogiaram sua vestimenta, pois ninguém queria ser considerado tolo. Até que uma criança inocente exclamou: “O rei está nu!” A verdade se espalhou, e o imperador ficou envergonhado.

O rei está nu

A farsa do rei despido mostra a fragilidade do discurso oficial e a importância da denúncia, um pouco mais simples  - embora com ressalvas - numa democracia. No conto, o rei, orgulhoso, foi enganado por charlatães. No Brasil, o povo, desinformado, foi enganado por um governo de ditatorialmente mentiroso e manipulador.

Jason Lima


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domingo, 10 de março de 2024

O DOUTOR BENIGNUS E O INÍCIO DA FICÇÃO CIENTÍFICA NO BRASIL

A ficção científica frequentemente é vista como uma fronteira distante e pouco explorada na literatura brasileira. No entanto, há um rico universo de ideias futurísticas e especulativas que influenciaram a visão dos escritores do final do século XIX e início do século XX. Nesse contexto, surge a obra O Doutor Benignus (1875), de Augusto Emílio Zaluar (1826-1882), que busca o desconhecido e reflete as transformações sociais, culturais e científicas da época.

Augusto Emílio Zaluar

A obra de Zaluar surge no cenário literário brasileiro durante a geração de 1870, uma época de efervescência intelectual e mudanças marcantes no país. O autor explora as influências europeias, particularmente as ideias de Charles Darwin sobre a evolução, para construir uma narrativa para além das fronteiras do conhecido. A partir daí, a literatura de ficção científica começa a ganhar terreno, desafiando as convenções e proporcionando aos leitores uma visão especulativa do Brasil e do mundo.

A obra O Doutor Benignus andou entre o reconhecimento e o apagamento. A narrativa, muitas vezes esquecida na história da literatura brasileira, enfrentou desafios estéticos que a colocaram à margem do cânone literário. Contudo, o texto ainda carrega passagens românticas que capturam a essência da fauna, flora e geografia brasileiras, mantendo um valor estético que merece reconhecimento. A crítica contemporânea revela uma narrativa científica e uma obra que produz uma interpretação singular do darwinismo e da origem do homem no Brasil do século XIX.

A conexão entre a teoria da evolução de Darwin e a concepção do homem em O Doutor Benignus oferece um olhar sobre a mentalidade da época. Dr. Benignus, o protagonista, é um cientista antiquado e benevolente, imerso na investigação da natureza em busca de respostas sobre a vida humana. A crença do personagem na evolução, aperfeiçoamento e progresso reflete os temas centrais do século XIX, revelando como a obra dialoga com as transformações sociais e culturais da época. O papel da seleção natural, tanto na natureza quanto na sociedade, conecta o enredo com os princípios fundamentais do darwinismo.


Há no texto de Augusto Emílio Zaluar representações complexas do homem e da moralidade. A obra associa ideias darwinistas à moral, relacionando a ciência do homem e da natureza com a ciência de Deus. A descrição do Brasil como um território rico e envolvente contrasta com as críticas de Machado de Assis, seu contemporâneo, que questionava a ênfase excessiva na descrição das características naturais e humanas na literatura brasileira. Dr. Benignus é um naturalista dedicado ao estudo da astronomia e biologia, personificando o contexto do movimento naturalista da época. 

A expedição liderada por Dr. Benignus torna-se uma metáfora da exploração científica e cultural. Ao percorrer mais de três mil quilômetros, a jornada internacional composta por membros de diferentes nacionalidades mostra um empreendimento diversificado em busca de conhecimento científico. A expedição é, ao mesmo tempo, uma exploração física da natureza brasileira e uma incursão nas origens do homem, no resgate de personagens desaparecidos e na interação com povos indígenas. O texto destaca a diversidade de conhecimentos e habilidades dos membros da expedição, proporcionando uma visão abrangente da busca por compreensão e exploração da natureza brasileira.

Em um país que muitas vezes subestima o potencial da ficção científica, O Doutor Benignus explora o desconhecido, repensa as relações entre ciência e literatura e reconhece a importância da ficção científica como uma expressão legítima da busca humana por entendimento da realidade. O Doutor Benignus entrou, a despeito do seu esquecimento inicial, para a história da literatura brasileira como a primeira obra de ficção científica escrita no Brasil.


Jason Lima


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segunda-feira, 4 de março de 2024

A MAIOR OBRA JÁ PUBLICADA

Em 2023, o professor espanhol de filosofia Jesús Millán Muñoz (1957) - cujo pseudônimo literário é J. M. M. Caminero - apresentou ao mundo uma obra monumental intitulada Cuadernos de la Mancha (romance filosófico e pictórico, segundo o autor) ou Cuadernos o Soliloquios. Esse projeto gigantesco em espanhol abrange uma rica variedade de gêneros, incluindo literatura, ensaio, filosofia, pintura, fotografia, videoarte e documentação. 

Jesús Millán Muñoz

A obra é composta por 50 volumes, totalizando cerca de 50.000 páginas e impressionantes 22 milhões de palavras. Esta dimensão destaca a grandiosidade dessa criação. Cuadernos se destaca como a mais imponente em termos de quantidade de palavras escritas por um único autor. Além dos escritos, o autor incorpora artigos jornalísticos, tuítes (aforismos), quadrinhos e fragmentos do Facebook.

Dentro dessa obra, destaca-se a Epopeia Filosófica, uma composição de cerca de 65.000 versos, divididos em 32 partes. Há ainda aproximadamente 350 conversas filosóficas gravadas em áudio ou vídeo, totalizando cerca de cem horas de gravação. A obra contém também uma coleção impressionante de oitenta mil desenhos, pinturas e páginas de livros de artista, muitas das quais estão em coleções públicas e privadas, como La Biblia del Monasterio de Silos e Códice del Nuevo Testamento de Victorina, que figuram entre os maiores do mundo em termos de tamanho. Uma outra parte abrange algumas centenas de fotos documentais e artísticas, bem como gravações de videoarte.

Para compreender a complexidade dessa obra, é fundamental, portanto, abordá-la como hipertextual, pluriduscursiva e multiautoral, uma tessitura que conecta palavras, imagens, ideias e experiências, proporcionando aos leitores um comando sobre a viagem textual a que se destina. 

Abaixo coloco, em tradução livre feita por mim, um artigo - entre centenas produzidos pelo professor (e também chargista) Jesús Millán Muñoz - que fala sobre a produção intelectual e a sua catalogação. Um pouco do pensamento do homem por trás dos Cuadernos de la Mancha.


Produzir ou Catalogar

Jesús Millán Muñoz

Todo autor, seja qual for a disciplina, enfrenta o dilema que, resumidamente, é: ou você produz ou cataloga. Dirão que o ideal é fazer ambas as coisas.

Mas a realidade é mais complexa, seja em matemática, filosofia, teologia, fotografia, design, literatura, artes plásticas, é necessário ter pelo menos as seguintes perspectivas ou horizontes, em ordem: ler e observar; pensar e analisar; produzir no gênero ou no conhecimento específico; divulgar ou publicar; catalogar ou preservar ou numerar.

Se adicionarmos a isso que todo ser humano tem necessidades biológicas, de se alimentar, dormir e descansar, além de outras realidades sociais, geralmente desenvolver um trabalho remunerado, que muitas vezes não coincide totalmente com a produção ou o conhecimento ao qual se dedica ou a arte, sem esquecer que a família exige tempo e dedicação, e mais circunstâncias sociais, além de cuidar minimamente de si mesmo, e tudo o que a vida traz consigo.

Portanto, é impossível, no campo da produção, sem entrar em outros campos, que uma pessoa possa manter com harmonia suficiente todas as áreas da produção cultural, seja um conhecimento científico, filosófico, teológico, artístico, literário… se quisermos preservar todo esse material.

Se a sociedade, porque penso que também é dever da sociedade, quer preservar, digamos, a vasta produção de um autor ou autora, ou em um ramo do conhecimento, tem que buscar sistemas de coleta, preservação, estudo, análise, indexação, catalogação de todo esse material que as pessoas produzem. Isso vai além dos livros editados com ISBN; inclui uma infinidade de folhas, notas, esboços, ideias, sugestões, parágrafos, etc., que podem ser essenciais para o avanço dessa ciência ou arte.

Não sei se é verdade, mas li há algum tempo que os papéis ou rascunhos de Einstein, que ele deixou em cadernos e notas soltas, eram examinados e estudados por estudantes de pós-graduação, para tentar recuperar algumas ideias ou sugestões, para analisar o desenvolvimento de algumas de suas equações ou formulações. Se minha memória não me falha, considera-se que Einstein, sozinho ou com outros autores, assinou e publicou 271 artigos científicos. Sabemos que alguns artigos mudaram a concepção do mundo, e os resultados de uns deles ainda aplicamos, não apenas na teoria, mas também na prática. Muitos dos dispositivos que usamos todos os dias, como celulares, por exemplo, não funcionariam sem algumas das derivações de algumas de suas equações ou teorias ou concepções.

O conceito de biblioteca para preservar livros, livros publicados com a legalidade vigente de cada momento, é claramente um conceito ultrapassado. É necessário, mas já existe a necessidade, em muitos campos, do conceito de Arquivo e Centros Documentais, em diferentes áreas de conhecimento, ciências, artes, literatura, que complementam a Biblioteca. Ou, mais ainda, dentro da Biblioteca, que já preserva, digamos, uma infinidade de publicações, em sentido amplo, não apenas livros em papel e material em papel, mas também áudios, vídeos, jogos, etc. Já se preservam todos os tipos de informações ou documentos que entram nessa categoria geral de documentos de todo tipo.

Biblioteca Nacional de España, em Madrid

Hoje, já é uma realidade, embora incipiente, que as bibliotecas começam a conservar uma infinidade de materiais, arquivos de autores em diferentes ramos, arquivos coletados com algum critério por uma pessoa, de algum aspecto da realidade. Assim, por exemplo, a BNE está coletando, conservando e arquivando centenas ou milhares de vinhetas de diferentes cartunistas da segunda metade do século vinte. Assim, dizem que as Universidades Americanas convidam seus alunos, que tiveram uma trajetória importante em um ramo, que - se desejarem - deixem papéis, documentos, cartas, fotografias, livros, manuscritos e outros materiais, formando o conceito de “legados ou subarquivos”, os quais se inserem na estrutura geral dessas bibliotecas e dessas universidades.

Às vezes, chega à minha consciência a lembrança de que em todas as cidades, com mais de uma quantidade de habitantes nos tempos de Roma, existia pelo menos uma biblioteca pública, além das privadas. Em algumas cidades, bibliotecas com milhares ou dezenas de milhares de manuscritos. Não me refiro apenas à famosa de Alexandria, mas a todas que estavam espalhadas pela República ou pelo Império. Até mesmo em algumas termas públicas também. E quase tudo se perdeu. Acredito que as bibliotecas, que conservam tudo, os Arquivos Documentais Culturais e os Centros Documentais Culturais, estão tentando fazer com que a produção cultural não se perca, que a letra pequena - isso que denominamos, cartas, manuscritos, notas, fotografias, etc. - também não se perca.

Já é tempo de todas as bibliotecas locais, municipais, provinciais e regionais do nosso país, independentemente de serem gerais ou especializadas, refletirem sobre a conservação e anexação de arquivos e centros documentais, assim como as grandes bibliotecas nacionais ou estaduais já estão fazendo. Essas bibliotecas devem começar a preservar “caixas e metros lineares” de autores, que podem não ser de primeira linha, mas que têm sido influenciados pelo sol de sua localidade e província por dez ou cinquenta anos. É hora de valorizar esses autores e preservar seu legado para as futuras gerações. Talvez, não sejam os grandes papas da cultura nacional de suas especialidades, mas são dignos que suas obras e suas “letras pequenas” sejam conservadas em seus lugares de residência e de nascimento. será que eu começarei a ver essa realidade?

Original disponível em: https://diariodigital.org/producir-o-catalogar/


Jason Lima


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domingo, 3 de março de 2024

ARENA LITERÁRIA: RIVALIDADES ENTRE AUTORES - O CASO CAPOTE-VIDAL

A literatura, apesar de ser uma forma de expressão artística, não está imune às complexidades das relações humanas, e a rivalidade entre autores é um fenômeno expressivo desse universo criativo. O embate entre escritores, muitas vezes público, encontra suas origens em uma complexidade de fatores que vai além do simples desejo de reconhecimento. 



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Um dos motores primordiais das rivalidades literárias é a competição incessante por atenção, prêmios e reconhecimento. Em um campo onde o destaque é muitas vezes escasso, autores podem se encontrar disputando o mesmo espaço de visibilidade, especialmente quando seus estilos ou temas são comparáveis.

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O papel do ego também não pode ser subestimado. Autores frequentemente investem uma parte significativa de si em suas obras, e o orgulho associado a essas criações pode torná-los sensíveis a críticas e ressentidos quando a atenção se volta para outros. A conquista de um autor pode despertar a inveja do outro, especialmente quando o sucesso alcançado é almejado por ambos. A incapacidade de separar o êxito de um colega do próprio potencial pode desencadear hostilidades e rivalidades.

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Além disso, a diversidade de visões de mundo e abordagens criativas entre os autores é vasta. Conflitos podem surgir quando há choques em estilo, gênero literário ou abordagens aos temas. A concorrência pela originalidade pode se tornar uma fonte de tensão.

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Questões práticas, como disputas editoriais, royalties ou críticas negativas, podem adicionalmente desencadear tensões. O âmbito profissional muitas vezes se entrelaça com o pessoal, e as discordâncias sobre contratos ou revisões de obras podem se transformar em rivalidades duradouras.

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Ademais, a intensidade e paixão frequentemente associadas aos escritores podem contribuir para choques e rivalidades. Personalidades fortes podem colidir, especialmente quando há divergências fundamentais na abordagem à escrita ou na interpretação de questões literárias.

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O embate entre dois gigantes literários, Truman Capote (1924-1984) e Gore Vidal (1925-2012), vão além das páginas de seus livros, tornando-se em uma saga de rivalidade intensa e desavenças públicas. 

Ambos inegavelmente brilhantes, Capote e Vidal construíram carreiras que se relacionavam e também se chocavam de maneira espetacular. Suas trajetórias paralelas, marcadas por sucessos literários precoces, como Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo), de Capote, e Myra Breckinridge, de Vidal, pavimentaram o caminho para uma rivalidade que ultrapassou a simples competição por leitores e críticos.

Truman Capote (1924-1984)

A tensão entre os dois autores atingiu seu ápice em 1975, quando Vidal processou Capote por difamação. O episódio, desencadeado por uma narrativa comprometedora de Capote sobre Vidal em um jantar com os Kennedys, expôs as fissuras dessa relação tumultuada. 

A rivalidade não se restringiu às palavras escritas, estendendo-se a confrontos públicos que envolviam insultos e provocações. Esses embates públicos aguçaram a curiosidade do público e afetaram a percepção das obras desses autores.

A desavença entre Capote e Vidal não foi apenas uma exibição de egos literários, mas também teve implicações práticas. A atenção dedicada a suas desavenças e os recursos despendidos em processos judiciais podem ter desviado suas mentes criativas da escrita, impactando a qualidade e o foco de seus trabalhos. A reputação pública desses autores também foi moldada por essa guerra verbal, influenciando a maneira como eram percebidos pelos leitores e pela crítica.

Gore Vidal (1925-2012)

A rivalidade entre Capote e Vidal criou alianças e inimizades dentro do cenário literário. Outros escritores e figuras públicas escolheram lados, solidificando a divisão entre os apoiadores de Capote e de Vidal. Essa dinâmica afetou as oportunidades de publicação e colaboração e influenciou a forma como seus legados literários foram construídos.

A eterna desavença entre Truman Capote e Gore Vidal, além de proporcionar um espetáculo público memorável, traz à lume uma boa reflexão sobre a complexidade das relações humanas com seus egos, invejas, distrações e prioridades.


Jason Lima


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O CICLO INFINDÁVEL DA INFLUÊNCIA DE DRUMMOND

A literatura é marcada por um jogo de influências que se unem ao longo do tempo. Muitos autores, ao iniciarem sua escrita, são guiados e inspirados por aqueles que os precederam. Esse é um caminho de aprendizado, uma exploração das palavras e uma busca por uma voz própria. Na literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade é um poeta cuja obra supera gerações. Sua influência é tão vasta que se torna um ponto de partida para inúmeros escritores. Um desses discípulos da poesia drummondiana foi o também excepcional poeta e escritor maranhense Ferreira Gullar.

Carlos Drummond de Andrade

Ferreira Gullar absorveu a técnica poética de Drummond e a vida tão poeticamente diária que caracteriza os textos drummondianos. Talvez um exemplo claro dessa absorção poética seja o poema "Não há vagas", do poeta maranhense.

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Veja a seguir a crônica de Ferreira Gullar em que ele mostra quão influente foi em sua vida Drummond.

DRUMMOND, UMA PARTE DE MIM

Ferreira Gullar

Como se sabe, nossa vida não é só nossa, uma vez que, além daquela parte que individualmente vivemos, há partes que outros viveram, como dizia um amigo que gostava de beber: “uma parte de minha vida eu vivo, outra parte me contam”. Claro, o dele era um caso especial, de amnésia alcoólica mas eu mesmo, que não costumo tomar porres, de vez em quando ouço de alguém uma parte de minha vida que não me lembro de ter vivido.

E assim também vivo a vida dos outros, ou seja, sem que este outro saiba, que entrou na minha vida e até mudou a minha vida. Foi, por exemplo, o caso de Carlos Drummond de Andrade que nunca tinha me visto mais gordo quando, em 1949, li Poesia até agora, livro que reuniu todos os seus livros anteriores.

Imagine o leitor que eu, nascido e criado em São Luís do Maranhão, mal ouvira falar em poesia moderna. Até bem pouco tempo, minha leitura era Bilac, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, sem falar em Camões, Gonçalves Dias e Castro Alves, entre outros. Poesia para mim, portanto, falava de anjos, estrelas, regatos e flores. Abro então o livro de Drummond e leio: “Lua diurética”. Levei um susto. Mas isto é poesia? – perguntei-me. “Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão”. Fechei o livro desapontado mas, em seguida, reconsiderei e decidi informar-me sobre a nova poesia.

Fui para a Biblioteca Pública e lá descobri O empalhador de passarinhos, de Mário de Andrade e Cinzas do purgatório, de Otto Maria Carpeaux. Lendo-os, compreendi o que era a tal poesia moderna e voltei a Drummond já menos preconceituoso. Foram os primeiros passos para compreender o grande poeta que estava naqueles poemas, em que se misturavam ironia, irreverência e contida emoção.

A poesia de Drummond, de certo modo, mudou minha vida, porque me revelou uma nova poesia, que não era mais a dos anjos e das estrelas, mas a da vida cotidiana. A poesia que estava na sopa, tomada em algum restaurante sórdido, por alguém com dor de corno. Aprendi que o poeta moderno reconhecia-se um homem comum, igual aos demais e que encontrava a poesia em situações que qualquer outra pessoa poderia viver.

Tornei-me leitor assíduo de Drummond, lia e relia seus poemas no meu pequeno quarto naquela casa da rua Celso de Magalhães, nº 9, em São Luís. Lia também Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário de Andrade. Mas foram os poemas de Sentimento do mundo e A rosa do povo, que me marcaram profundamente e me revelaram uma nova maneira de ver a vida e falar dela.

Transferi-me depois para o Rio mas não o procurei, nem a ele nem a nenhum poeta famoso. Um dia, na livraria Agir, lhe fui apresentado por José Condé. Conversava com outros escritores e mal tomou conhecimento de mim. Achei natural, pois já sabia que era tímido e pouco expansivo. Eu não era muito diferente. Impressionaram-me os seus olhos: duas pequenas lentes azuis que pareciam boiar soltas entre as pálpebras. Outra vez, topei com ele ao entrar no elevador do Correio da Manhã, na rua Gomes Freire. Ele saía apressado e mal me viu. A última vez que o encontrei foi no enterro de Vinicius de Moraes, muitos anos depois; criticava acidamente a medicina que não soubera curar com presteza o herpes que lhe havia tomado parte do rosto. Certo dia, um jornal noticiou que eu pretendia candidatar-me à Academia Brasileira de Letras. Alguém ligou para ele e, ao referir-se à notícia, ouviu dele o seguinte comentário: “Duvido. Se bem conheço Gullar, isto não passa de fofoca”. Mal sabia que, neste particular, eu lhe seguia o exemplo.

A sua morte me deixou revoltado. Antes de tomar um avião que me levaria a Brasília, passei em seu velório no cemitério São João Batista. Quando os jornalistas me indagaram a respeito, respondi indignado, como se me houvessem agredido brutalmente. Eu estava em estado de choque, o Brasil havia perdido o seu grande poeta. 

Ferreira Gullar


***

 Jason Lima


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sábado, 2 de março de 2024

UMA REVOLUÇÃO NARRATIVA NO JORNALISMO

O New Journalism, ou Novo Jornalismo, ou ainda Jornalismo Literário, surgiu nos anos 1960 como um movimento que revolucionou a maneira como as histórias eram contadas no jornalismo. Essa abordagem inovadora combinava técnicas literárias com a objetividade das notícias, resultando em uma narrativa mais pessoal, envolvente e subjetiva. 

Embora o termo New Journalism tenha sido codificado por Tom Wolfe em 1973, suas raízes podem ser rastreadas até Truman Capote em 1956. Capote propôs uma abordagem mais imaginativa e lírica da reportagem, permitindo que jornalistas se inserissem na narrativa. Essa fusão entre jornalismo e técnicas literárias criou as bases para um novo modo de contar histórias.

Truman Capote


O Jornalismo Literário surgiu no contexto da contracultura nos Estados Unidos, trazendo consigo um discurso crítico e interventivo na mídia. O movimento desafiou as normas da grande imprensa e buscou inspiração no jornalismo do século XIX e início do século XX. A abordagem do Novo Jornalismo representou uma ruptura com a narrativa jornalística tradicional, aproximando-se de uma escrita mais literária.

O New Journalism introduziu uma série de técnicas narrativas que transformaram a maneira como as histórias eram apresentadas. A descrição detalhada do ambiente, a construção cena a cena, diálogos autênticos, o uso da terceira pessoa e a contextualização social tornaram-se marcas registradas desse estilo. 

Uma das contribuições mais significativas do Novo Jornalismo foi sua capacidade de transmitir a humanidade e a intimidade dos personagens. Ao empregar técnicas literárias, os jornalistas conseguiam gerar compreensão, empatia e identificação com os fatos narrados. Isso aproximava o leitor da notícia e ampliava a compreensão do público sobre os eventos e personagens envolvidos.

Apesar de sua influência, o Jornalismo Literário não escapou de críticas. A natureza subjetiva do estilo e questionamentos sobre sua classificação como um gênero distinto foram pontos de debate. O movimento ganhou popularidade nas décadas de 1960 e 1970, mas experimentou um declínio nos anos 1980.

A evolução do New Journalism deu origem ao The New New Journalism, um movimento literário que continua a tradição do jornalismo narrativo. Essa nova geração foca a não ficção baseada em reportagens detalhadas e narrativas conduzidas por histórias longas. Diferentemente das narrativas extravagantes de Tom Wolfe, o New New Journalism explora experiências cotidianas, buscando a corrente ficcional que flui sob a realidade. O foco se desloca, pois, para experiências cotidianas, explorando a ficção entrelaçada na realidade. Houve uma inovação das técnicas de imersão, como a fez Ted Conover, que trabalhou como guarda prisional e viveu entre os coiotes na fronteira do México para escrever os livros Newjack: Guarding Sing Sing e Coyotes: A Journey Across Borders with America's Mexican Migrants, respectivamente. 

Portanto, o New Journalism representou uma ruptura significativa na forma de se fazer jornalismo, incorporando elementos literários para contar histórias com maior profundidade e impacto. Apesar das críticas e do declínio em sua popularidade, o movimento influenciou profundamente o jornalismo contemporâneo, inspirando novas gerações de jornalistas a explorar as possibilidades da narrativa na construção de reportagens envolventes e humanizadas. O seu legado reside na abertura de caminhos para uma maior experimentação e inovação na prática jornalística, reconhecendo o poder da narrativa para conectar o público com os fatos e personagens de forma mais profunda e significativa.

Eduardo Bueno, no livro Textos contraculturais, crônicas anacrônicas e outras viagens, lançado pela L&PM Editores, traz um bom texto sobre a sua perspectiva do New Journalism. A seguir, coloco-o para apreciação.


O velho new journalism

Os perfis de Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer, pais fundadores do estilo literário que concedeu aos textos de não ficção as técnicas antes aplicadas apenas na ficção.

Eduardo Bueno

Quando nasceu o new journalism? Pois o new journalism pode muito bem ter nascido em 16 de novembro de 1959, no instante em que o escritor (e eventualmente jornalista) Truman Capote abriu o New York Times, à hora do desjejum (no caso dele, em torno de uma da tarde), em seu elegante apartamento em Brooklyn Heights, e deparou com uma pequena notícia, perdida em meio à página 39, cujo título dizia: “Fazendeiro rico e sua família são barbaramente assassinados”. Acontecera em Holcomb, uma cidadezinha fincada nos confins varridos pelos ventos do Kansas, no dia anterior. O lead: “Um bem-sucedido plantador de trigo, sua mulher e os dois filhos foram assassinados com tiros à queima-roupa, depois de terem sido amarrados e amordaçados”.

O parágrafo, lacônico, espartano, quase indiferente, vincou profundamente Capote – na época, com 35 anos, já o autor consagrado de Outras vozes, outros lugares e Bonequinha de luxo, figura fulgurante do jet set. Seis anos, mais de duzentos depoimentos e quatro mil páginas datilografadas depois, ele estava pronto para lançar, com soberba e empáfia, A sangue frio, o livro que desafiadoramente batizaria como “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mas o new journalism pode ter nascido também em 20 de abril de 1963, quando Tom Wolfe, então repórter do New York Herald Tribune, enviou, depois de passar a noite inteira datilografando-o loucamente, aquilo que ele próprio chamou de “um simples memorando”, destinado ao diretor da revista Esquire, e cuja primeira frase – “lá vem (Vruuum! Vruuum!) essa caranga aerodinâmica envenenada (Rahghh!) fosforescente (Thphhhhh!) fazendo a curva (Brummmmmmmmmmmm!)” – é considerada, por assim dizer, o “faça-se a luz” do new journalism. Mais tarde, o artigo virou livro, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, e o “novo jornalismo” estava transformado em evidência inarredável.

Mas também é justo afirmar que o new journalism se materializou pela primeira vez em setembro de 1957, quando Norman Mailer publicou, nas páginas do Village Voice – jornal que ajudara a fundar em 1955 –, um longo, sombrio, sinuoso ensaio, The White Negro, sobre a rebelião dos jovens marginais norte-americanos (inspirada pela geração beat). Era intelectualizado demais, reflexivo demais – mas pelo menos conspurcava e desavergonhadamente arranhava, no tema e no estilo, o verniz acadêmico do gênero (“o ensaio”). Mailer saíra às ruas e entrevistara os garotos que rebatizou de “brancos negros”, de “humanistas radicais”, os quais, julgava ele à época, poderiam liderar “a revolução”. O tema era “novo”, o estilo era audacioso, mas seria “jornalismo”?

Os anos passaram – o novo jornalismo tornou-se velho (cronológica, não estilisticamente) –, Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer consagraram-se como autores tão grandiosos quanto os próprios egos e, no fim das contas, ficou mais ou menos estabelecido que quem inventara o tal new journalism fora mesmo Tom Wolfe com sua “baby aerodinâmica cristalizada como um floco cor de tangerina”. Todos concordaram – menos Tom Wolfe, é claro. Para ele, o “novo jornalismo” era tão velho quanto a prosa de Daniel Defoe, ou a de Balzac, Dickens e Mark Twain. Se alguém redescobrira o estilo, as honras então cabiam a Gay Talese e a seu artigo sobre o boxeador Joe Louis, publicado pela Esquire no outono de 1962. O ego de Wolfe é monumental, mas sua disposição de permanecer gauche e eternamente do contra é ainda maior.

Tom Wolfe


O que vem a ser new journalism? Pois bem: trata-se, pura e simplesmente, da aplicação das técnicas ficcionais a textos de não ficção. Seu objetivo, na definição do próprio Wolfe – avalizada pelos companheiros/concorrentes –, é descrever a realidade tão detalhada e fielmente quanto possível, conferindo a tal descrição um tratamento até então destinado exclusivamente ao romance ou ao conto. Isso, e mais: descobriu-se que um artigo jornalístico podia – deveria, na verdade – recorrer a todos os artifícios literários (diálogos, monólogos interiores, teorizações ensaísticas), simultaneamente e dentro de um espaço breve, capturando o leitor, emocional e intelectualmente. Nada mal. Mas bem difícil de concretizar.

Onde nasceu o new journalism? A sangue frio foi publicado em capítulos pela revista New Yorker, antes de virar livro. Antes de virar livro, The Kandy-Kolored... foi publicado em capítulos pela revista Esquire. O mesmo se passou com The White Negro, que, antes de ser incluído numa coletânea de ensaios de Mailer, foi publicado pelo semanário The Village Voice. Ou seja, o new journalism nasceu no seio do jornalismo – porém em revistas ou em jornais alternativos. Um tanto distante da grande imprensa, portanto.

E por que nasceu o novo jornalismo? Porque a literatura americana da virada dos anos 60 se revelou incapaz de acompanhar as vertiginosas mudanças culturais e comportamentais da nação. E a nação queria um novo texto, um novo estilo, um novo... jornalismo. Saul Bellow, John Updike, Philip Roth tremeram na base com a chegada dos “novos bárbaros”, que de imediato lhes roubaram a cena.

Respondidas as perguntas básicas e elementares do velho jornalismo – “quando, onde e por quê?” – é hora de saber “quem” lançou os alicerces do estilo que mudou o jeito de contar a história, e “como” isso foi feito.

O sangue quente de Capote

Truman Capote foi o Marcel Proust da era pós-macarthista, o Flaubert dos loucos anos pop, um artífice da palavra, condenado a viver na época em que a palavra estava sendo maculada, humilhada e ofendida, virada pelo avesso, travestida pelo avanço desmedido da publicidade, pela voracidade da mídia, pela própria futilidade dos discursos vazios da política e da comezinha vida cotidiana. Truman Capote foi um estilista meticuloso que nasceu atrasado mas se dispôs a registrar, com requinte e minúcia, a crônica das décadas que Tom Wolfe chamou de “púrpuras”: os anos 60 e 70. Foi um jet setter que amou e odiou o jet set, embora soubesse – ou talvez por isso mesmo – que jamais poderia viver sem jantares suntuosos, festas de arromba, cruzeiros a bordo de iates, villas à beira-mar. Truman Capote mordeu a mão que o alimentava e escreveu uma crônica doentiamente raivosa sobre o jet set. Truman Capote nunca foi exatamente um jornalista, mas mudaria para sempre a história do jornalismo ao redigir A sangue frio, seu “romance de não ficção”.

Ele estava submerso numa crise profissional quando abriu o New York Times naquela histórica manhã de 16 de novembro de 1959 e deparou com a notícia da morte da família Clutter, no longínquo, impensável, quase mitológico Kansas – “tão remoto quanto a lua”. Depois de convencer William Shawn, o diretor da New Yorker, de que valeria a pena enviá-lo para Holcomb – o vilarejo onde o crime ocorrera – e também de dizer ao homem que “simplesmente” não encontrava um fim para o artigo de quarenta páginas que estava escrevendo sobre Moscou, Capote embarcou num trem rumo ao Meio-Oeste. Sua viagem resultaria, seis anos mais tarde, num dos mais profundos e perfeitos documentos da América dos anos 60. Muito mais do que isso: Capote foi capaz de dissecar até os limites impostos pela literatura, pela sanidade e pela própria realidade, os meandros da vileza humana e os desatinos do destino.

O domínio emocional de Truman Capote sobre o material verdadeiramente avassalador que ele foi capaz de colher em Holcomb (mais de duzentos depoimentos, duas cartas por semana durante cinco anos de correspondência ininterrupta com os dois assassinos, entrevistas com policiais, vizinhos, psiquiatras, agentes penitenciários, parentes de matadores e mortos), seu distanciamento engajado, sua precisão descritiva, sua acuidade psicológica, seu estilo jornalisticamente irretocável e literariamente refinado, o ritmo de sua prosa, a pulsação a um só tempo frenética e contida da história, suas reflexões sobre a gratuidade de um crime brutal, o peso devastador da mão do destino tal como Capote capturou-o – dando-lhe a forma na trajetória convergente dos assassinados e dos assassinos numa noite sem estrelas nas lonjuras desoladas do Kansas –, tudo isso fez de A sangue frio um clássico eterno. 

Quando o livro enfim foi publicado, em janeiro de 1966 – poucas semanas depois do enforcamento dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, na penitenciária estadual do Kansas –, a máquina da mídia (revistas, TV, jornais e rádio) tornou-se uma banda gigante a ressoar uma só melodia: Truman Capote, Truman Capote. Inimigos e desafetos saíram à caça de supostas incorreções – ou “licenças poéticas” – num livro que Capote anunciara como “rigorosamente documental”. Mais: num livro que batizara acintosamente de “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mesmo que houvesse deslizes factuais – e não havia: os candidatos a detratores do livro só conseguiram descobrir que o cavalo da filha de Clutter não tinha sido vendido “a um forasteiro”, mas a um fazendeiro da região –, A sangue frio já seria um dos mais admiráveis relatos da tragédia americana. Ao se revelar irretocavelmente exato depois de submetido a tantos repórteres transformados em detectores de mentiras, tornou-se um livro alquímico, capaz de transfigurar a realidade e desnudá-la em toda a sua – para sempre sua – inexorabilidade insondável e brutalidade gratuita.

Tom Wolfe no ônibus dos insensatos

Tom Wolfe é o Andy Warhol das letras. Ele incorporou as latas de sopa Campbell, as cintilâncias do neon, o tilintar do dinheiro fácil, o colorido faiscante do imaginário pop – Marilyns Monroes borradas, James Deans silhuetados, a pélvis balançante de Elvis – ao vocabulário contemporâneo e ao mundo fugaz (a partir dele apreendido e capturado mesmo em sua futilidade fugidia) do jornalismo diário – ou melhor, do “novo jornalismo” diário. 

Tom Wolfe inaugurou uma nova época e fez luzir em tons mais hipnóticos o sol nas bancas de revistas. Tom Wolfe não teve preguiça para nos mostrar quem lê tanta notícia. Ou pelo menos por que as lê. Tom Wolfe é o Frank Lloyd Wright da arquitetura verbal. Seus projetos foram sempre mais ousados, mais surpreendentes – e mais utilitários – do que os dos concorrentes. Tom Wolfe é um ladrão de casaca, sacando ideias mais rapidamente do que os presentes e usurpando da realidade os temas e os tons que, na mão de jornalistas comuns, se tornariam comuns e tediosos como eles próprios e, nas mãos de Wolfe, transformaram-se em histórias tão exemplarmente elucidativas como se fossem parábolas bíblicas. Tom Wolfe é o pai fundador de uma nova religião – cínica e excludente como o próprio coração da América.

Tom Wolfe transformou a América numa imensa, inesgotável pauta para seu “novo jornalismo”. Ao descobrir, no verão de 1967, que o país estava sendo percorrido pela mais alucinada das caravanas, pelos argonautas do delírio, por ciganos lisérgicos reunidos sob o manto protetor do escritor Ken Kesey, Tom Wolfe decidiu seguir-lhes a trilha e devastar-lhes a utopia. O resultado materializou-se naquele que muitos consideram o melhor livro de Wolfe antes da comédia humana nova-iorquina que é A fogueira das vaidades. O teste do ácido do refresco elétrico é o mais implacável retrato da era hippie, o mais sarcástico e o mais corrosivo, ainda que muitas de suas páginas sejam perpassadas por uma sutil complacência (talvez um disfarce para a autopiedade de Wolfe, extensiva à humanidade).

O estilo caleidoscópico, vertiginoso, relampejante de Tom Wolfe adaptou-se com perfeição à demencial odisseia liderada por Ken Kesey e seu ônibus dos insensatos. O teste do ácido do refresco elétrico foi lançado no Brasil em fins de 1993. Passou despercebido. Vendeu pouco, foi quase ignorado pelos jornais e precisa ser garimpado nas livrarias por leitores dispostos a transpor-lhe as fronteiras. Trata-se de um livro quase operístico, despretensiosamente épico, burlesco, redigido em pequenos estilhaços de prosa sempre incontida e com o texto tropeçando numa vertente de adjetivos que, de forma incompreensível, Wolfe consegue manter não apenas a seu serviço, mas a serviço da clareza e do prazer do leitor.

A saga de Ken Kesey prescindia de um cronista tão admirável. Era alucinante por si só. Kesey, ele mesmo um grande escritor – autor de Sometimes a Great Notion e do clássico Um estranho no ninho –, era um doidão convicto e ativista. Foi preso, fugiu para o México e voltou para os Estados Unidos a tempo de desfrutar do boom do psicodelismo. Desfrutar, não: deflagrá-lo. Kesey pintou um velho ônibus escolar de 1939 com as cores mais berrantes que o espectro poderia lhe oferecer, arrebanhou o bando mais demencial que pôde juntar, convidou Neal Cassady (o lendário Dean Moriarty de On the Road) para dirigir aquela banheira sobre rodas e o grupo de rock Grateful Dead para fazer a trilha sonora ao vivo. Kesey sentia-se engajado numa guerra santa: embeber a América em LSD. And take no prisioners.

Batizado Further (“Adiante” ou “Em frente” em tradução livre), o ex-ônibus escolar passou a conduzir outra espécie de professores e alunos: foi levado a rodar pelas estradas da Califórnia, no verão de 1964, parando em cidadezinhas, montando seu circo de som e luz – longos, loucos concertos gratuitos do Dead – para que os sacerdotes Kesey e Cassady e seus coroinhas do ácido pudessem distribuir LSD para quem quisesse. E para quem não quisesse também.

Tom Wolfe perdeu boa parte da viagem. Recuperou-a com entrevistas, cartas, consultas a filmes e fitas. Conquistou a simpatia de Kesey – algo virtualmente impensável. Pegou umas caronas no ônibus antes que ele fosse definitivamente banido, junto com o próprio LSD (até então legal), pela administração Reagan – na época esse sujeito era governador da Califórnia. Com o material que tinha nas mãos, Wolfe delineou um painel dolorosamente melancólico da “nova sociedade” que a garotada de Kesey julgava estar forjando. O ônibus nos é apresentado como palco de uma tragicomédia que repete o que o “mundo exterior” tinha de pior. Um microcosmo megalomaníaco e competitivo da América, embebido em ácido e cercado pelo coturno reluzente dos tiras por todos os lados.

Quando o ônibus de Ken Kesey se revelou apenas uma bad trip, Tom Wolfe já estava longe, diagnosticando, com o mesmo rigor cubista, alguma outra doença da América.

Norman Mailer espiona a CIA

Norman Mailer é o Cassius Clay da literatura americana, sempre decidido a vencer por nocaute e inclinado a bater sem piedade, mas com técnica e elegância. Ele nunca quis ser o Mike Tyson, cara! As frases de Mailer distribuem uma sequência avassaladora de jabs nos ângulos mais impertinentes do texto e uns quatro ou cinco diretos definitivos partem na busca incessante do plot exato e do ritmo correto da prosa. Mailer pega no fígado da literatura molenga. Norman Mailer é o Ernest Hemingway da era do napalm e do isopor. Sua escrita é máscula, tabagista, confessional, egocêntrica, competitiva, agressiva, neurótica, devassa, inconformista e parece estar, às vezes, exausta e incuravelmente neurótica. De qualquer forma, sempre dá um jeito de deixar o hospital sem ter recebido alta e voltar às ruas para circular por onde os anjos temem ser vistos. Norman Mailer é um garanhão: cercas não podem contê-lo. Rédeas e selas tampouco.

Norman Mailer


Não é só o texto de Mailer que se apresenta de maneira descaradamente heterossexual, narcisista e competitiva. O próprio homem é assim. Por isso, ele entrou cedo na perseguição incessante do “tema perfeito”, da pauta exata na hora e na busca do tom inatacável – os elementos que perpassam e definem a eterna competição entre os jornalistas norte-americanos dispostos a definir o espírito da época e a cara medonha do país. Quem terá ido mais longe do que ele no cumprimento dessa tarefa?

Norman Mailer narrou a corrida à Lua em pinceladas rápidas e cínicas, sem deixar o encantamento de lado (quase duas décadas antes de Tom Wolfe compor Os eleitos). Tornou a brutalidade do boxe um espetáculo de requinte gótico. Biografou Marilyn Monroe com a devoção exigida pelo grande sonho molhado da América. Revisitou o Vietnã com sua câmera detalhista e cruel. Acompanhou a efervescência política da década de 60 com o olhar cético e meticuloso do caçador comprometido apenas com a queda da presa. Penetrou na mente de um assassino com o mesmo e espantoso rigor de Truman Capote (ainda que o tenha feito duas décadas depois), em A canção do carrasco. Desafiou John Kennedy. Ficou milionário, obeso, famoso, intratável.

Em 1994, antes de contar o “evangelho segundo Jesus Cristo” [seu último livro publicado em vida, em 1997 – depois viria o póstumo O castelo na floresta, sobre a infância de Hitler, lançado só em 2007], Norman Mailer apontou sua carabina verbal de cano cerrado, acostumada a abater muitos elefantes, em direção à mastodôntica CIA, sua tromba enxerida, seus tentáculos e sua viscosidade pegajosa. Pela alça de mira de Mailer vislumbramos O fantasma da prostituta – Um romance da CIA. Trata-se de uma água-forte, impressa em tintas ácidas, feita para macular o papel e as reputações. É um livro tipicamente Mailer: espaçoso, loquaz, irado, imprudente, vesicatório. O velho Norman segue suas normas e nos transporta para a época da Guerra Fria – a Baía dos Porcos, as contrarrevoluções exportadas para a América Latina, África e Ásia, a corrida armamentista, o poder militar instalado no coração da Casa Branca, a inescrupulosidade e hipocrisia da democracia americana – só para nos lembrar que a besta sobrevive e que daqueles anos para cá nada mudou tanto assim. Ou talvez ele o tenha feito de forma tão eloquente, vitoriosa e épica (são mais de 1.300 páginas) apenas para deixar claro que ele próprio também não mudou tanto assim: continua sendo o grande, o arrogante, o inigualável, o único Norman Mailer.

10 de abril de 1994


 Jason Lima

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