Mostrando postagens com marcador linguagem. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador linguagem. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 8 de março de 2024

O LIVRO E SUA RELAÇÃO ETIMOLÓGICA COM AS ÁRVORES

A palavra livro é originada do termo latino liber, que inicialmente significava a "parte interior da casca de árvore". Essa palavra passou por adaptações semânticas ao longo dos séculos.

No latim, liber não tardou em ampliar seu significado, vindo a denotar, além da casca interna das árvores, "livro, papel e pergaminho". Um processo metonímico em que a matéria passou a designar o objeto, assim como ocorre quando se chamavam prata ou cobre as moedas utilizadas comercialmente.

A origem de liber é o indo-europeu *lewb, que significava "tirar uma camada" ou "descascar". Essa raiz linguística relaciona o ato de descascar e a prática inicial de usar a casca interna das árvores como suporte para a escrita. Antes da fabricação formal do papel, o liber era empregado como suporte de escrita.


A denominação "folha" para cada papel do livro revela um elo linguístico interessante a partir de uma metáfora. E isso se torna ainda mais interessante quando observamos que em inglês, a palavra leaf (folha) deriva da mesma base etimológica que "livro" (liber).

O termo inglês book (livro, em português) tem suas origens no inglês antigo boc, que significa "livro, escrita, documento escrito". Essa palavra é geralmente associada ao proto-germânico *bōk(ō)-, originado de *bokiz, que significa "faia" (nome comum dado às árvores do gênero Fagus e Nothofagus).

A ideia é a de tábuas de faia nas quais runas (cada uma das 24 letras do mais antigo alfabeto germânico) eram inscritas, indicando uma prática ancestral de escrita em material derivado de árvores.

Assim, as palavras livro (em português), livre (em francês), libro (em espanhol e em italiano), book (em inglês) e Buch (em alemão) têm suas origens em árvores em que eram feitas inscrições.


Jason Lima


NÓS PRECISAMOS DO SEU APOIO!

Este blog foi pensado para podermos divulgar a língua portuguesa e as literaturas a todas as pessoas interessadas pelo tema. Por isso, contamos com doações para mantê-lo funcionando e garantir que continuemos a oferecer matérias de qualidade.
Queremos que o nosso conteúdo seja acessível para todos, e suas doações nos ajudam a manter este espaço sem a necessidade de assinaturas ou taxas.
Qualquer valor é um contributo imensurável e inestimável!
Obrigado!

Pix: 84 98165-7144
Jason Lima



Siga-nos no Instagram:


#literatura #libro #biblioteca #linguaportuguesa #emmaislinguagem #book #profjasonlima 





sexta-feira, 1 de março de 2024

OS NÚMEROS E OS PÃES OU MUITO MAIS QUE ISSO

Não, não estou aqui tentando colocar conceitos matemáticos abaixo. Nunca ousaria me meter numa área sobre a qual não tenho domínio. A questão é meramente linguística.

Havia no latim o verbo plicare, com significado de dobrar, enroscar, trançar. Ele deu origem a vários vocábulos portugueses. Temos esse verbo plicar na nossa língua, com o sentido de dobrar, fazer pregas em roupas.

Plica, além de significar dobra e prega, é usado como sinônimo de acento agudo de uma palavra (´) e nomeia o sinal (‘), utilizado para indicar, na fonética, a sílaba tônica – ao se antepor a ela – (/abaka’xi/); e para designar “linha” em matemática quando posto no alto à direita da letra (b’ = bê linha).

De plicare, também surgiu o nosso verbo chegar. Isso se deve à expressão plicare velam, “dobrar, enrolar a vela”, algo comum quando o barco chegava ao porto.

Várias outras palavras portuguesas surgiram do verbo latino plicare. Vejamos algumas: aconchego, amplexo, aplicar, aplicativo, complexo, complicar, cúmplice, dúplex, empregar, empreitar, espreitar, explicar, explicitar, implicar, implícito, perplexidade, réplica, simples, suplicar, tríplex, triplo.

Daí então temos também as palavras duplicar, triplicar... e multiplicar. O prefixo multi- origina-se de multus e significa muito, abundante, numeroso, em grande quantidade. Logo, multiplicar expressa, em sua origem, “aumentar, tornar várias vezes maior em número”.


Ora, então como podemos “multiplicar” por 1 ou por 0, se não haverá, como resultado, um “aumento em número”?

O resultado da multiplicação por um é o próprio número, e o resultado da multiplicação por zero é sempre zero. Não há, pois, literalmente uma multiplicação, pois não há aumento.

Por outro lado, podemos ainda pensar que o resultado da multiplicação sempre é um novo número, mesmo sendo o mesmo. Isto é, 2x1 = 2, mas este dois é outro número e não mais o primeiro, porque o primeiro 2 é um fator; o segundo 2, um produto.

Claro está que os significados das palavras se modificam com o tempo. Não podemos pensar hoje multiplicar apenas como algo a realizar um “aumento em número”. Embora a palavra originalmente significasse “dobrar várias vezes”, ao longo do tempo, o significado se expandiu para se referir a qualquer operação matemática que envolva a combinação de quantidades para obter um resultado menor, igual ou maior que o proposto inicialmente.

Como ilustração, estes são os significados de multiplicar elencados pelo Dicionário Houaiss:


1 aumentar a quantidade de (seres, objetos etc.);

1.1 render grande quantidade; fazer nascer; produzir muito;

1.2 produzir de novo; copiar, reproduzir;

1.3 produzir seres da mesma espécie; aumentar a prole; proliferar;

2 tornar(-se) difundido; espalhar-se, propagar-se;

3 insistir em, tornar mais frequente; repetir com persistência;

4 desenvolver várias atividades;

5 fazer a operação da multiplicação; repetir um número tantas vezes quantas forem as unidades de outro.

 

Observe que todos os sentidos mostrados pelo dicionário implicam a ideia de acréscimo e variedade. O prefixo multi- dá a tônica da palavra.

Vejamos o significado original de alguns derivados de plicare:

  • aplicar: dobrar para (justapor);
  • complicar: dobrar junto, embaraçar;
  • explicar: dobrar para fora (desdobrar);
  • implicar: dobrar junto, dentro, unir;
  • suplicar: dobrar para baixo (ajoelhar-se).

Mas uma outra pergunta surge: se, segundo o Evangelho de Marcos (6:30-56), Jesus conseguiu saciar a fome de quase cinco mil homens com apenas cinco pães e dois peixes, ele fez foi uma multiplicação ou uma divisão dos alimentos?

O milagre é bem conhecido como o “milagre da multiplicação dos pães e dos peixes”. Se ele tivesse multiplicado, haveria então milhares de peixes. Contudo, o texto bíblico diz assim: “E, tomando ele os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, e abençoou, e partiu os pães, e deu-os aos seus discípulos para que os pusessem diante deles. E repartiu os dois peixes por todos”. Houve uma repartida, ou seja, uma divisão.

Obviamente, o termo multiplicação no contexto bíblico não significa que Jesus criou mais pães e peixes do nada, mas que ele abençoou e partiu os que tinha, de modo que eles se tornaram suficientes para todos. Portanto, não se trata de uma multiplicação matemática, mas de uma partilha generosa. Jesus não diminuiu a quantidade de comida, mas a aumentou pela sua graça.

E por que multiplicação se confunde com divisão em análises assim? A divisão afeta a nossa avaliação quantitativa do objeto. Ao aumentar o número de partes, podemos ter a impressão de que o objeto também aumentou, pois há mais elementos para contar, medir ou comparar. Essa impressão pode ser reforçada pelo efeito de contraste, ou seja, pela comparação entre o estado anterior e o posterior à divisão.

Por exemplo, ao dividir um pão em pedaços, podemos pensar que temos mais pão do que antes, pois podemos ver mais superfície de pão exposta, ou porque podemos distribuir os pedaços para mais pessoas. No entanto, essa impressão é ilusória, pois a divisão não altera a quantidade real do objeto, apenas a sua forma e a sua apresentação. A divisão é uma operação reversível, ou seja, podemos recompor o objeto original a partir das partes divididas, sem perder ou ganhar nada. A quantidade real do objeto é determinada pela sua massa, volume ou peso, que são invariantes sob a divisão. Portanto, a divisão implica apenas uma reorganização, não uma multiplicação, o que é um exemplo de falácia linguístico-cognitiva, pois se baseia em uma confusão entre os níveis de forma e de conteúdo, entre o significante e o significado, entre a aparência e a essência.

No texto bíblico, a essa relação entre divisão e multiplicação adere-se o fator gracioso, milagroso: ao mesmo tempo em que houve a divisão dos alimentos, houve a multiplicação da saciedade.

 

***

Os algarismos romanos são um sistema numérico que se originou na Roma Antiga e foi utilizado por várias civilizações europeias durante séculos. Este sistema é composto por sete símbolos: I, V, X, L, C, D e M, que representam os números 1, 5, 10, 50, 100, 500 e 1000, respectivamente.

Sua origem vem do século VIII a.C., quando os romanos adotaram o sistema numérico dos etruscos, um povo que habitava a região da Toscana, na Itália. O sistema etrusco era baseado em caracteres que representavam as letras do alfabeto, mas os romanos simplificaram o sistema e desenvolveram seus próprios símbolos numéricos.

Os primeiros algarismos romanos eram simples traços, que representavam o número 1. Com o tempo, esses traços foram combinados e modificados para formar os outros símbolos. Por exemplo, o número 5 era representado por um traço horizontal e um traço diagonal que se cruzavam, formando um V. Já o número 10 era representado por dois traços cruzados em forma de X.

Essa notação foi amplamente utilizada durante o Império Romano, tanto para fins comerciais quanto para a numeração de páginas em livros e documentos. Ela também era frequentemente usada em inscrições em monumentos e edifícios públicos.

Com o colapso do Império Romano, o uso dos algarismos romanos caiu em desuso, mas não totalmente, na Europa Ocidental, sendo substituído pelo sistema de numeração indo-arábico, utilizado atualmente.

 

***

Os números são entidades abstratas que representam quantidades e ordem. Eles não possuem existência física e não podem ser percebidos pelos sentidos. Quando pensamos em números, não podemos realmente visualizá-los como fazemos com objetos tangíveis. Em vez disso, usamos representações simbólicas, como os algarismos (1, 2, 3…) para expressar números. Esses símbolos são convenções que usamos para lidar com a abstração numérica.

A dificuldade de imaginar números sem pensar em objetos relacionados a eles reside na distinção entre símbolos e conteúdo. Quando pensamos em “dois carros”, a imagem dos carros aparece em nossa mente, mas a ideia de “dois” é abstrata e não pode ser representada visualmente da mesma forma. Isso sugere que, na verdade, não imaginamos o número em si, mas sim os objetos que ele representa. O número “dois” é um conceito abstrato que usamos para contar ou quantificar os carros, mas não é uma imagem mental tangível.


Alguns estudiosos argumentam que os números são categorias a priori da mente humana, ou seja, estruturas inatas que usamos para organizar nossa experiência. Essa visão sugere que os números são conceitos fundamentais que não podem ser imaginados, mas apenas concebidos por meio do pensamento abstrato.

Dessa forma, essa impossibilidade imagética tem implicações filosóficas significativas. Ela levanta questões sobre a natureza da abstração, a relação entre linguagem e pensamento e como nossa mente lida com conceitos puramente conceituais.

 

***

A palavra ímpar é formada pela combinação do prefixo latino in-, que indica negação ou negatividade, com a palavra par, que também vem do latim e significa “igual”, “contraparte” ou “dupla”.

Na matemática, um número ímpar é aquele que não pode ser dividido igualmente por 2, ou seja, não possui uma contraparte que o torne igual a um número par. Essa definição matemática reflete a origem da palavra, pois o prefixo in- nega a ideia de igualdade, e par denota a igualdade ou paridade. Portanto, quando falamos sobre números “ímpares”, estamos, de certa forma, fazendo uma referência à sua natureza não igual em relação aos números pares.

Os conceitos de números pares e ímpares são fundamentais na matemática e têm uma origem muito antiga. Eles surgiram na matemática elementar e provavelmente foram reconhecidos desde o início do desenvolvimento matemático. Os matemáticos gregos antigos, como Euclides, no século III a.C., estudaram essas propriedades em detalhes em suas obras. A distinção entre números pares e ímpares é inerente ao sistema numérico e à própria natureza dos números naturais. Esses conceitos têm, pois, uma origem muito antiga, provavelmente tão antiga quanto a própria matemática.

 Jason Lima

***

NÓS PRECISAMOS DO SEU APOIO!

Nosso blog foi pensado para podermos divulgar a língua portuguesa e as literaturas a todas as pessoas interessadas pelo tema. Por isso, contamos com doações para mantê-lo funcionando e garantir que continuemos a oferecer matérias de qualidade.
Queremos que o nosso conteúdo seja acessível para todos, e suas doações nos ajudam a manter este espaço sem a necessidade de assinaturas ou taxas.
Qualquer valor é um contributo imensurável e inestimável!
Obrigado!

Pix: 84 98165-7144
Jason Lima



Siga-nos no Instagram:


#portugues #linguaportuguesa #emmaislinguagem #bibliasagrada #profjasonlima 

domingo, 25 de fevereiro de 2024

A FOTO DO FÓSFORO DE LÚCIFER

A primeira tentativa de registrar imagens permanentes ocorreu por volta de 1826, quando o inventor francês Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833) conseguiu fixar uma imagem usando uma placa de estanho coberta com betume. Esse processo, conhecido como heliografia, exigia um longo tempo de exposição, chegando a várias horas, e resultava em imagens de baixa resolução.

O avanço decisivo ocorreu em 1839, quando o também francês Louis Daguerre (1787-1851) desenvolveu o processo conhecido como daguerreotipia. Esse método envolvia a exposição de uma placa de cobre revestida com prata ao vapor de iodo, criando uma imagem nítida após um curto período de exposição. O daguerreótipo foi o primeiro processo fotográfico comercializado e ganhou popularidade rapidamente.


Enquanto isso, na Inglaterra, o cientista e matemático William Henry Fox Talbot (1800-1877) desenvolvia outro processo fotográfico, chamado calotipia ou talbotipia. Esse método utilizava papel tratado quimicamente para criar negativos, que podiam ser usados para produzir múltiplas cópias de uma mesma imagem. Esse método foi fundamental para a disseminação da fotografia, permitindo a reprodução de imagens em grande escala.

A fotografia logo se tornou uma nova forma de arte e uma poderosa ferramenta para documentar a história. Fotógrafos pioneiros, como Mathew Brady (1822-1896), registraram imagens icônicas durante a Guerra Civil Americana, revelando ao mundo os horrores do conflito.

Outros, como Eadweard Muybridge (1830-1904), inventor do zoopraxiscópio, exploraram o uso da fotografia para capturar o movimento, abrindo caminho para o desenvolvimento do cinema. Essa palavra é uma junção de três elementos gregos: zoo – que significa “animal”; praxis – que denota “ação, atividade”; e scópio – com significado de “observar” ou “olhar”. O dispositivo foi projetado para estudar o movimento de animais e seres humanos, permitindo que Muybridge capturasse sequências fotográficas de seus movimentos e, em seguida, as exibisse em sucessão rápida. Isso resultou em uma ilusão de movimento, semelhante ao que hoje conhecemos como animação. Com o zoopraxiscópio, Muybridge realizou importantes experimentos que influenciaram profundamente o desenvolvimento da fotografia e do cinema. Suas sequências fotográficas de cavalos em movimento, por exemplo, tiveram um impacto significativo na compreensão da cinética animal e na evolução das técnicas cinematográficas.


Ao longo dos anos, a fotografia continuou a evoluir, com a introdução de novos processos, como o colódio úmido, o gelatino-brometo e, finalmente, a fotografia em película. Essas inovações tornaram a invenção mais acessível e possibilitaram a expansão do jornalismo fotográfico, da fotografia documental e artística.

No final século XX, a fotografia digital surgiu como uma grande e vantajosa revolução tecnológica, substituindo o uso de filme por sensores eletrônicos que capturavam imagens. Isso permitiu o armazenamento, edição e compartilhamento de fotografias de maneira mais rápida e conveniente. Com a popularização dos smartphones e das redes sociais, a fotografia se tornou uma parte intrínseca da cultura contemporânea. Hoje, milhões de fotos são tiradas e compartilhadas diariamente em todo o mundo, registrando momentos significativos e banais da vida cotidiana.

Quanto à origem da palavra, uma ideia une três vocábulos aparentemente distantes: fotografia, fósforo e Lúcifer.

A palavra fotografia tem origem no grego phos (luz) e graphein (marcar, desenhar, registrar). Literalmente, significa “marcar ou registrar com luz”, é a captura de imagens por meio da exposição à luz.

Já o vocábulo fósforo deriva do grego phosphoros, que se referia à Estrela da Manhã, geralmente identificada como o planeta Vênus em sua aparição matutina. O termo é composto por phos (luz) e phoros (portador). Portanto, fósforo significa “portador de luz” ou “aquilo que traz a luz”. Essa palavra também foi associada a materiais químicos que emitem luz quando esfregados ou expostos a uma chama. A palavra semáforo carrega também esse significado de portador de algo: ela tem origem no grego sema (sinal, marca) e phoros (portador), ou seja, é aquilo que porta o sinal (de trânsito).


A palavra Lúcifer, por sua vez, tem origem no latim lucifer, que também significa “aquele que traz/porta a luz”. É formada por lux (luz) e ferre (portar, trazer). Originalmente, “Lúcifer” era o nome dado pelos romanos à Estrela da Manhã, Vênus. Então Fósforo e Lúcifer significam a mesma coisa, mas em línguas diferentes. No contexto bíblico, o nome Lúcifer, por uma tradução feita por São Jerônimo no séc. IV, foi associado a uma figura celestial que caiu em desgraça, citada em Isaías 14:12-15, sendo posteriormente interpretada como uma referência ao Diabo. A palavra em hebraico é helel ben-shachar e significa Estrela da Manhã. Jerônimo traduziu como Lúcifer e depois as pessoas começaram a fazer essa associação com o Diabo.

Será, então, que Augusto dos Anjos, em seu poema Versos íntimos, quando nos diz “Toma um fósforo. Acende teu cigarro! / O beijo, amigo, é a véspera do escarro, / A mão que afaga é a mesma que apedreja”., já sabia que fósforo e Lúcifer têm relação semântica? E que a todo instante recebemos do mundo tanto luzes quanto diabos? E que, então, não haveria mais forma de nos livrarmos dessa sina, senão nos convertermos a algoz de nossos algozes? Por isso, então, ele nos aconselha: “Se alguém causa inda pena a tua chaga, / Apedreja essa mão vil que te afaga, / Escarra nessa boca que te beija!”? Parece que Manuel Bandeira, anos depois, entendeu assim ao afirmar, em seu poema Pneumotórax, que “A única coisa a fazer é tocar um tango argentino”.


Os verbos levar e portar, presentes nas palavras Lúcifer e fósforo, originam-se de duas bases latinas e uma grega: ferre (fer-) e o particípio latus (lat-, que em português ficou lad- ou laç-); e phoros. Dessas bases, surgiram vários vocábulos em português, como auferir, circunferência, conferir, preferir; colação, delação, dilatar. 


***

Nós precisamos do seu apoio!
Nosso blog foi pensado para podermos divulgar a língua portuguesa e as literaturas a todas as pessoas interessadas pelo tema.
Por isso, contamos com doações para mantê-lo funcionando e para garantir que continuemos a oferecer conteúdo de qualidade.
Queremos que tudo aqui seja acessível a todos um projeto de cultura democrática, e suas doações nos ajudam a manter este espaço sem a necessidade de assinaturas ou taxas.
Qualquer valor é um contributo imensurável e inestimável!
Obrigado!

Jason Lima

Pix: 84 98165-7144



#portugues #gramatica #literatura #etimologia #literatura #profjasonlima 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

A GATA É UM GATO... E VICE-VERSA?

As desinências nominais em língua portuguesa são tradicionalmente definidas como morfemas flexionais que designam, mostram, revelam duas categorias para um nome (substantivo, adjetivo, pronome, artigo ou numeral): o gênero (masculino e feminino) ou o número (singular e plural).

A desinência se distingue do afixo (prefixo e sufixo) por ser este um elemento que promove uma nova palavra, enquanto aquela não permite a criação de uma nova palavra, mas apenas sua variação.

Assim, gato e gata são a mesma palavra com gêneros diferentes. Já gato e gatinho são considerados palavras diferentes.


Dessa forma, a expressão bastante difundida “concordo em gênero, número e grau” é, estruturalmente, ilógica, uma vez que a flexão (de gênero e de número) está ligada à concordância; o grau, por sua vez, liga-se à estilística e à semântica. Também é inapropriado dizer que uma palavra pode variar em gênero, número e grau, pois, como dito, variação ocorre na flexão; na derivação ocorre formação.

Porém, há algumas controvérsias. Se levarmos em conta que a desinência não promove o surgimento de uma nova palavra mas sua variação, afirmaremos, então, não haver mudança semanticamente significativa ao substituirmos uma desinência masculina por uma feminina.

Ao observarmos mais atentamente o par de substantivos gato/gata, notamos uma diferença que vai além do gênero. Ao mesmo tempo em que há a designação da espécie macho e da espécie fêmea de um tipo de felino, a forma gato também expressa o grupo total (machos e fêmeas) dessa espécie do gênero Felis; não é o caso de gata, que só representa o animal feminino.

Devido a isso, alguns autores sugerem não haver desinência de gênero em substantivos, apenas em adjetivos, numerais, pronomes, artigos. O que haveria nos substantivos, para esses autores, seria a mudança da vogal temática ou até mesmo a inserção de um sufixo.

Observe, como exemplo, a canção História de uma gata, de Chico Buarque:


Me alimentaram
Me acariciaram
Me aliciaram
Me acostumaram

O meu mundo era o apartamento
Detefon, almofada e trato
Todo dia filé-mignon
Ou mesmo um bom filé de gato

Me diziam, todo momento
Fique em casa, não tome vento
Mas é duro ficar na sua
Quando à luz da Lua
Tantos gatos pela rua
Toda a noite vão cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás

De manhã eu voltei pra casa
Fui barrada na portaria
Sem filé e sem almofada
Por causa da cantoria

Mas agora o meu dia a dia
É no meio da gataria
Pela rua virando lata
Eu sou mais eu, mais gata
Numa louca serenata
Que de noite sai cantando assim

Nós, gatos, já nascemos pobres
Porém, já nascemos livres
Senhor, senhora ou senhorio
Felino, não reconhecerás




A canção conta a história de uma gata criada em um apartamento confortável e com uma vida cheia de mimos e tratos, mas que se sentia solitária e entediada.

Um dia ela se encantou pelos gatos que cantavam na rua, felizes, e resolveu se juntar a eles. Por causa disso, foi expulsa de casa e perdeu as regalias que tinha. Contudo ela não se arrependeu, pois descobriu a alegria de ser uma gata livre.

Observe que na canção há oposições iniciais entre gata X gatos; apartamento X rua; prisão X liberdade. A gata (gênero feminino) é assim chamada quando individualizada. Contudo, quando passa a pertencer ao grupo dos felinos da rua, passa a se nomear gato (mas no plural) por pertencer a um agrupamento de felinos, ou seja, uma representação do total desses seres. O grupo é usado em sua forma masculina (gatos).

O professor José Pereira da Silva, no artigo A inexistência da flexão de gênero nos substantivos da língua portuguesa, defende que em gato/gata há um sufixo e não uma desinência. Esta se encontra em adjetivos, por exemplo, pois serve para manter a concordância: gato bonito / gata bonita. É o adjetivo que concorda com o substantivo, não o oposto.

Além disso, em substantivos uniformes, não há alternância de vogais. Quem continua a concordar é o adjetivo (e o artigo nestes casos): o atleta rápido / a atleta rápida.

Outro fator que torna inconsistente a afirmação de ser a desinência a responsável por indicar o gênero do substantivo é a existência de pares que se opõem pelo acréscimo de um sufixo tradicional (conde/condessa) ou por um morfema subtrativo (vilão/vilã).

Vemos, portanto, que, no campo da morfologia, várias são as divergências. Há muito o que se analisar e pesquisar.


Jason Lima
Se você gostou e deseja contribuir com as pesquisas deste blog, faça-nos uma doação.
Qualquer valor é um contributo imensurável e inestimável!
Pix: 84 98165-7144


Siga-nos no Instagram:



#portugues #gramatica #literatura #morfologia #literatura #profjasonlima