segunda-feira, 4 de março de 2024

A MAIOR OBRA JÁ PUBLICADA

Em 2023, o professor espanhol de filosofia Jesús Millán Muñoz (1957) - cujo pseudônimo literário é J. M. M. Caminero - apresentou ao mundo uma obra monumental intitulada Cuadernos de la Mancha (romance filosófico e pictórico, segundo o autor) ou Cuadernos o Soliloquios. Esse projeto gigantesco em espanhol abrange uma rica variedade de gêneros, incluindo literatura, ensaio, filosofia, pintura, fotografia, videoarte e documentação. 

Jesús Millán Muñoz

A obra é composta por 50 volumes, totalizando cerca de 50.000 páginas e impressionantes 22 milhões de palavras. Esta dimensão destaca a grandiosidade dessa criação. Cuadernos se destaca como a mais imponente em termos de quantidade de palavras escritas por um único autor. Além dos escritos, o autor incorpora artigos jornalísticos, tuítes (aforismos), quadrinhos e fragmentos do Facebook.

Dentro dessa obra, destaca-se a Epopeia Filosófica, uma composição de cerca de 65.000 versos, divididos em 32 partes. Há ainda aproximadamente 350 conversas filosóficas gravadas em áudio ou vídeo, totalizando cerca de cem horas de gravação. A obra contém também uma coleção impressionante de oitenta mil desenhos, pinturas e páginas de livros de artista, muitas das quais estão em coleções públicas e privadas, como La Biblia del Monasterio de Silos e Códice del Nuevo Testamento de Victorina, que figuram entre os maiores do mundo em termos de tamanho. Uma outra parte abrange algumas centenas de fotos documentais e artísticas, bem como gravações de videoarte.

Para compreender a complexidade dessa obra, é fundamental, portanto, abordá-la como hipertextual, pluriduscursiva e multiautoral, uma tessitura que conecta palavras, imagens, ideias e experiências, proporcionando aos leitores um comando sobre a viagem textual a que se destina. 

Abaixo coloco, em tradução livre feita por mim, um artigo - entre centenas produzidos pelo professor (e também chargista) Jesús Millán Muñoz - que fala sobre a produção intelectual e a sua catalogação. Um pouco do pensamento do homem por trás dos Cuadernos de la Mancha.


Produzir ou Catalogar

Jesús Millán Muñoz

Todo autor, seja qual for a disciplina, enfrenta o dilema que, resumidamente, é: ou você produz ou cataloga. Dirão que o ideal é fazer ambas as coisas.

Mas a realidade é mais complexa, seja em matemática, filosofia, teologia, fotografia, design, literatura, artes plásticas, é necessário ter pelo menos as seguintes perspectivas ou horizontes, em ordem: ler e observar; pensar e analisar; produzir no gênero ou no conhecimento específico; divulgar ou publicar; catalogar ou preservar ou numerar.

Se adicionarmos a isso que todo ser humano tem necessidades biológicas, de se alimentar, dormir e descansar, além de outras realidades sociais, geralmente desenvolver um trabalho remunerado, que muitas vezes não coincide totalmente com a produção ou o conhecimento ao qual se dedica ou a arte, sem esquecer que a família exige tempo e dedicação, e mais circunstâncias sociais, além de cuidar minimamente de si mesmo, e tudo o que a vida traz consigo.

Portanto, é impossível, no campo da produção, sem entrar em outros campos, que uma pessoa possa manter com harmonia suficiente todas as áreas da produção cultural, seja um conhecimento científico, filosófico, teológico, artístico, literário… se quisermos preservar todo esse material.

Se a sociedade, porque penso que também é dever da sociedade, quer preservar, digamos, a vasta produção de um autor ou autora, ou em um ramo do conhecimento, tem que buscar sistemas de coleta, preservação, estudo, análise, indexação, catalogação de todo esse material que as pessoas produzem. Isso vai além dos livros editados com ISBN; inclui uma infinidade de folhas, notas, esboços, ideias, sugestões, parágrafos, etc., que podem ser essenciais para o avanço dessa ciência ou arte.

Não sei se é verdade, mas li há algum tempo que os papéis ou rascunhos de Einstein, que ele deixou em cadernos e notas soltas, eram examinados e estudados por estudantes de pós-graduação, para tentar recuperar algumas ideias ou sugestões, para analisar o desenvolvimento de algumas de suas equações ou formulações. Se minha memória não me falha, considera-se que Einstein, sozinho ou com outros autores, assinou e publicou 271 artigos científicos. Sabemos que alguns artigos mudaram a concepção do mundo, e os resultados de uns deles ainda aplicamos, não apenas na teoria, mas também na prática. Muitos dos dispositivos que usamos todos os dias, como celulares, por exemplo, não funcionariam sem algumas das derivações de algumas de suas equações ou teorias ou concepções.

O conceito de biblioteca para preservar livros, livros publicados com a legalidade vigente de cada momento, é claramente um conceito ultrapassado. É necessário, mas já existe a necessidade, em muitos campos, do conceito de Arquivo e Centros Documentais, em diferentes áreas de conhecimento, ciências, artes, literatura, que complementam a Biblioteca. Ou, mais ainda, dentro da Biblioteca, que já preserva, digamos, uma infinidade de publicações, em sentido amplo, não apenas livros em papel e material em papel, mas também áudios, vídeos, jogos, etc. Já se preservam todos os tipos de informações ou documentos que entram nessa categoria geral de documentos de todo tipo.

Biblioteca Nacional de España, em Madrid

Hoje, já é uma realidade, embora incipiente, que as bibliotecas começam a conservar uma infinidade de materiais, arquivos de autores em diferentes ramos, arquivos coletados com algum critério por uma pessoa, de algum aspecto da realidade. Assim, por exemplo, a BNE está coletando, conservando e arquivando centenas ou milhares de vinhetas de diferentes cartunistas da segunda metade do século vinte. Assim, dizem que as Universidades Americanas convidam seus alunos, que tiveram uma trajetória importante em um ramo, que - se desejarem - deixem papéis, documentos, cartas, fotografias, livros, manuscritos e outros materiais, formando o conceito de “legados ou subarquivos”, os quais se inserem na estrutura geral dessas bibliotecas e dessas universidades.

Às vezes, chega à minha consciência a lembrança de que em todas as cidades, com mais de uma quantidade de habitantes nos tempos de Roma, existia pelo menos uma biblioteca pública, além das privadas. Em algumas cidades, bibliotecas com milhares ou dezenas de milhares de manuscritos. Não me refiro apenas à famosa de Alexandria, mas a todas que estavam espalhadas pela República ou pelo Império. Até mesmo em algumas termas públicas também. E quase tudo se perdeu. Acredito que as bibliotecas, que conservam tudo, os Arquivos Documentais Culturais e os Centros Documentais Culturais, estão tentando fazer com que a produção cultural não se perca, que a letra pequena - isso que denominamos, cartas, manuscritos, notas, fotografias, etc. - também não se perca.

Já é tempo de todas as bibliotecas locais, municipais, provinciais e regionais do nosso país, independentemente de serem gerais ou especializadas, refletirem sobre a conservação e anexação de arquivos e centros documentais, assim como as grandes bibliotecas nacionais ou estaduais já estão fazendo. Essas bibliotecas devem começar a preservar “caixas e metros lineares” de autores, que podem não ser de primeira linha, mas que têm sido influenciados pelo sol de sua localidade e província por dez ou cinquenta anos. É hora de valorizar esses autores e preservar seu legado para as futuras gerações. Talvez, não sejam os grandes papas da cultura nacional de suas especialidades, mas são dignos que suas obras e suas “letras pequenas” sejam conservadas em seus lugares de residência e de nascimento. será que eu começarei a ver essa realidade?

Original disponível em: https://diariodigital.org/producir-o-catalogar/


Jason Lima


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domingo, 3 de março de 2024

ARENA LITERÁRIA: RIVALIDADES ENTRE AUTORES - O CASO CAPOTE-VIDAL

A literatura, apesar de ser uma forma de expressão artística, não está imune às complexidades das relações humanas, e a rivalidade entre autores é um fenômeno expressivo desse universo criativo. O embate entre escritores, muitas vezes público, encontra suas origens em uma complexidade de fatores que vai além do simples desejo de reconhecimento. 



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Um dos motores primordiais das rivalidades literárias é a competição incessante por atenção, prêmios e reconhecimento. Em um campo onde o destaque é muitas vezes escasso, autores podem se encontrar disputando o mesmo espaço de visibilidade, especialmente quando seus estilos ou temas são comparáveis.

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O papel do ego também não pode ser subestimado. Autores frequentemente investem uma parte significativa de si em suas obras, e o orgulho associado a essas criações pode torná-los sensíveis a críticas e ressentidos quando a atenção se volta para outros. A conquista de um autor pode despertar a inveja do outro, especialmente quando o sucesso alcançado é almejado por ambos. A incapacidade de separar o êxito de um colega do próprio potencial pode desencadear hostilidades e rivalidades.

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Além disso, a diversidade de visões de mundo e abordagens criativas entre os autores é vasta. Conflitos podem surgir quando há choques em estilo, gênero literário ou abordagens aos temas. A concorrência pela originalidade pode se tornar uma fonte de tensão.

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Questões práticas, como disputas editoriais, royalties ou críticas negativas, podem adicionalmente desencadear tensões. O âmbito profissional muitas vezes se entrelaça com o pessoal, e as discordâncias sobre contratos ou revisões de obras podem se transformar em rivalidades duradouras.

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Ademais, a intensidade e paixão frequentemente associadas aos escritores podem contribuir para choques e rivalidades. Personalidades fortes podem colidir, especialmente quando há divergências fundamentais na abordagem à escrita ou na interpretação de questões literárias.

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O embate entre dois gigantes literários, Truman Capote (1924-1984) e Gore Vidal (1925-2012), vão além das páginas de seus livros, tornando-se em uma saga de rivalidade intensa e desavenças públicas. 

Ambos inegavelmente brilhantes, Capote e Vidal construíram carreiras que se relacionavam e também se chocavam de maneira espetacular. Suas trajetórias paralelas, marcadas por sucessos literários precoces, como Breakfast at Tiffany's (Bonequinha de Luxo), de Capote, e Myra Breckinridge, de Vidal, pavimentaram o caminho para uma rivalidade que ultrapassou a simples competição por leitores e críticos.

Truman Capote (1924-1984)

A tensão entre os dois autores atingiu seu ápice em 1975, quando Vidal processou Capote por difamação. O episódio, desencadeado por uma narrativa comprometedora de Capote sobre Vidal em um jantar com os Kennedys, expôs as fissuras dessa relação tumultuada. 

A rivalidade não se restringiu às palavras escritas, estendendo-se a confrontos públicos que envolviam insultos e provocações. Esses embates públicos aguçaram a curiosidade do público e afetaram a percepção das obras desses autores.

A desavença entre Capote e Vidal não foi apenas uma exibição de egos literários, mas também teve implicações práticas. A atenção dedicada a suas desavenças e os recursos despendidos em processos judiciais podem ter desviado suas mentes criativas da escrita, impactando a qualidade e o foco de seus trabalhos. A reputação pública desses autores também foi moldada por essa guerra verbal, influenciando a maneira como eram percebidos pelos leitores e pela crítica.

Gore Vidal (1925-2012)

A rivalidade entre Capote e Vidal criou alianças e inimizades dentro do cenário literário. Outros escritores e figuras públicas escolheram lados, solidificando a divisão entre os apoiadores de Capote e de Vidal. Essa dinâmica afetou as oportunidades de publicação e colaboração e influenciou a forma como seus legados literários foram construídos.

A eterna desavença entre Truman Capote e Gore Vidal, além de proporcionar um espetáculo público memorável, traz à lume uma boa reflexão sobre a complexidade das relações humanas com seus egos, invejas, distrações e prioridades.


Jason Lima


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O CICLO INFINDÁVEL DA INFLUÊNCIA DE DRUMMOND

A literatura é marcada por um jogo de influências que se unem ao longo do tempo. Muitos autores, ao iniciarem sua escrita, são guiados e inspirados por aqueles que os precederam. Esse é um caminho de aprendizado, uma exploração das palavras e uma busca por uma voz própria. Na literatura brasileira, Carlos Drummond de Andrade é um poeta cuja obra supera gerações. Sua influência é tão vasta que se torna um ponto de partida para inúmeros escritores. Um desses discípulos da poesia drummondiana foi o também excepcional poeta e escritor maranhense Ferreira Gullar.

Carlos Drummond de Andrade

Ferreira Gullar absorveu a técnica poética de Drummond e a vida tão poeticamente diária que caracteriza os textos drummondianos. Talvez um exemplo claro dessa absorção poética seja o poema "Não há vagas", do poeta maranhense.

O preço do feijão
não cabe no poema. O preço
do arroz
não cabe no poema.
Não cabem no poema o gás
a luz o telefone
a sonegação
do leite
da carne
do açúcar
do pão

O funcionário público
não cabe no poema
com seu salário de fome
sua vida fechada
em arquivos.
Como não cabe no poema
o operário
que esmerila seu dia de aço
e carvão
nas oficinas escuras

– porque o poema, senhores,
está fechado:
“não há vagas”

Só cabe no poema
o homem sem estômago
a mulher de nuvens
a fruta sem preço

O poema, senhores,
não fede
nem cheira

Veja a seguir a crônica de Ferreira Gullar em que ele mostra quão influente foi em sua vida Drummond.

DRUMMOND, UMA PARTE DE MIM

Ferreira Gullar

Como se sabe, nossa vida não é só nossa, uma vez que, além daquela parte que individualmente vivemos, há partes que outros viveram, como dizia um amigo que gostava de beber: “uma parte de minha vida eu vivo, outra parte me contam”. Claro, o dele era um caso especial, de amnésia alcoólica mas eu mesmo, que não costumo tomar porres, de vez em quando ouço de alguém uma parte de minha vida que não me lembro de ter vivido.

E assim também vivo a vida dos outros, ou seja, sem que este outro saiba, que entrou na minha vida e até mudou a minha vida. Foi, por exemplo, o caso de Carlos Drummond de Andrade que nunca tinha me visto mais gordo quando, em 1949, li Poesia até agora, livro que reuniu todos os seus livros anteriores.

Imagine o leitor que eu, nascido e criado em São Luís do Maranhão, mal ouvira falar em poesia moderna. Até bem pouco tempo, minha leitura era Bilac, Raimundo Correia, Vicente de Carvalho, sem falar em Camões, Gonçalves Dias e Castro Alves, entre outros. Poesia para mim, portanto, falava de anjos, estrelas, regatos e flores. Abro então o livro de Drummond e leio: “Lua diurética”. Levei um susto. Mas isto é poesia? – perguntei-me. “Ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão”. Fechei o livro desapontado mas, em seguida, reconsiderei e decidi informar-me sobre a nova poesia.

Fui para a Biblioteca Pública e lá descobri O empalhador de passarinhos, de Mário de Andrade e Cinzas do purgatório, de Otto Maria Carpeaux. Lendo-os, compreendi o que era a tal poesia moderna e voltei a Drummond já menos preconceituoso. Foram os primeiros passos para compreender o grande poeta que estava naqueles poemas, em que se misturavam ironia, irreverência e contida emoção.

A poesia de Drummond, de certo modo, mudou minha vida, porque me revelou uma nova poesia, que não era mais a dos anjos e das estrelas, mas a da vida cotidiana. A poesia que estava na sopa, tomada em algum restaurante sórdido, por alguém com dor de corno. Aprendi que o poeta moderno reconhecia-se um homem comum, igual aos demais e que encontrava a poesia em situações que qualquer outra pessoa poderia viver.

Tornei-me leitor assíduo de Drummond, lia e relia seus poemas no meu pequeno quarto naquela casa da rua Celso de Magalhães, nº 9, em São Luís. Lia também Bandeira, Murilo Mendes, Jorge de Lima, Mário de Andrade. Mas foram os poemas de Sentimento do mundo e A rosa do povo, que me marcaram profundamente e me revelaram uma nova maneira de ver a vida e falar dela.

Transferi-me depois para o Rio mas não o procurei, nem a ele nem a nenhum poeta famoso. Um dia, na livraria Agir, lhe fui apresentado por José Condé. Conversava com outros escritores e mal tomou conhecimento de mim. Achei natural, pois já sabia que era tímido e pouco expansivo. Eu não era muito diferente. Impressionaram-me os seus olhos: duas pequenas lentes azuis que pareciam boiar soltas entre as pálpebras. Outra vez, topei com ele ao entrar no elevador do Correio da Manhã, na rua Gomes Freire. Ele saía apressado e mal me viu. A última vez que o encontrei foi no enterro de Vinicius de Moraes, muitos anos depois; criticava acidamente a medicina que não soubera curar com presteza o herpes que lhe havia tomado parte do rosto. Certo dia, um jornal noticiou que eu pretendia candidatar-me à Academia Brasileira de Letras. Alguém ligou para ele e, ao referir-se à notícia, ouviu dele o seguinte comentário: “Duvido. Se bem conheço Gullar, isto não passa de fofoca”. Mal sabia que, neste particular, eu lhe seguia o exemplo.

A sua morte me deixou revoltado. Antes de tomar um avião que me levaria a Brasília, passei em seu velório no cemitério São João Batista. Quando os jornalistas me indagaram a respeito, respondi indignado, como se me houvessem agredido brutalmente. Eu estava em estado de choque, o Brasil havia perdido o seu grande poeta. 

Ferreira Gullar


***

 Jason Lima


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sábado, 2 de março de 2024

UMA REVOLUÇÃO NARRATIVA NO JORNALISMO

O New Journalism, ou Novo Jornalismo, ou ainda Jornalismo Literário, surgiu nos anos 1960 como um movimento que revolucionou a maneira como as histórias eram contadas no jornalismo. Essa abordagem inovadora combinava técnicas literárias com a objetividade das notícias, resultando em uma narrativa mais pessoal, envolvente e subjetiva. 

Embora o termo New Journalism tenha sido codificado por Tom Wolfe em 1973, suas raízes podem ser rastreadas até Truman Capote em 1956. Capote propôs uma abordagem mais imaginativa e lírica da reportagem, permitindo que jornalistas se inserissem na narrativa. Essa fusão entre jornalismo e técnicas literárias criou as bases para um novo modo de contar histórias.

Truman Capote


O Jornalismo Literário surgiu no contexto da contracultura nos Estados Unidos, trazendo consigo um discurso crítico e interventivo na mídia. O movimento desafiou as normas da grande imprensa e buscou inspiração no jornalismo do século XIX e início do século XX. A abordagem do Novo Jornalismo representou uma ruptura com a narrativa jornalística tradicional, aproximando-se de uma escrita mais literária.

O New Journalism introduziu uma série de técnicas narrativas que transformaram a maneira como as histórias eram apresentadas. A descrição detalhada do ambiente, a construção cena a cena, diálogos autênticos, o uso da terceira pessoa e a contextualização social tornaram-se marcas registradas desse estilo. 

Uma das contribuições mais significativas do Novo Jornalismo foi sua capacidade de transmitir a humanidade e a intimidade dos personagens. Ao empregar técnicas literárias, os jornalistas conseguiam gerar compreensão, empatia e identificação com os fatos narrados. Isso aproximava o leitor da notícia e ampliava a compreensão do público sobre os eventos e personagens envolvidos.

Apesar de sua influência, o Jornalismo Literário não escapou de críticas. A natureza subjetiva do estilo e questionamentos sobre sua classificação como um gênero distinto foram pontos de debate. O movimento ganhou popularidade nas décadas de 1960 e 1970, mas experimentou um declínio nos anos 1980.

A evolução do New Journalism deu origem ao The New New Journalism, um movimento literário que continua a tradição do jornalismo narrativo. Essa nova geração foca a não ficção baseada em reportagens detalhadas e narrativas conduzidas por histórias longas. Diferentemente das narrativas extravagantes de Tom Wolfe, o New New Journalism explora experiências cotidianas, buscando a corrente ficcional que flui sob a realidade. O foco se desloca, pois, para experiências cotidianas, explorando a ficção entrelaçada na realidade. Houve uma inovação das técnicas de imersão, como a fez Ted Conover, que trabalhou como guarda prisional e viveu entre os coiotes na fronteira do México para escrever os livros Newjack: Guarding Sing Sing e Coyotes: A Journey Across Borders with America's Mexican Migrants, respectivamente. 

Portanto, o New Journalism representou uma ruptura significativa na forma de se fazer jornalismo, incorporando elementos literários para contar histórias com maior profundidade e impacto. Apesar das críticas e do declínio em sua popularidade, o movimento influenciou profundamente o jornalismo contemporâneo, inspirando novas gerações de jornalistas a explorar as possibilidades da narrativa na construção de reportagens envolventes e humanizadas. O seu legado reside na abertura de caminhos para uma maior experimentação e inovação na prática jornalística, reconhecendo o poder da narrativa para conectar o público com os fatos e personagens de forma mais profunda e significativa.

Eduardo Bueno, no livro Textos contraculturais, crônicas anacrônicas e outras viagens, lançado pela L&PM Editores, traz um bom texto sobre a sua perspectiva do New Journalism. A seguir, coloco-o para apreciação.


O velho new journalism

Os perfis de Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer, pais fundadores do estilo literário que concedeu aos textos de não ficção as técnicas antes aplicadas apenas na ficção.

Eduardo Bueno

Quando nasceu o new journalism? Pois o new journalism pode muito bem ter nascido em 16 de novembro de 1959, no instante em que o escritor (e eventualmente jornalista) Truman Capote abriu o New York Times, à hora do desjejum (no caso dele, em torno de uma da tarde), em seu elegante apartamento em Brooklyn Heights, e deparou com uma pequena notícia, perdida em meio à página 39, cujo título dizia: “Fazendeiro rico e sua família são barbaramente assassinados”. Acontecera em Holcomb, uma cidadezinha fincada nos confins varridos pelos ventos do Kansas, no dia anterior. O lead: “Um bem-sucedido plantador de trigo, sua mulher e os dois filhos foram assassinados com tiros à queima-roupa, depois de terem sido amarrados e amordaçados”.

O parágrafo, lacônico, espartano, quase indiferente, vincou profundamente Capote – na época, com 35 anos, já o autor consagrado de Outras vozes, outros lugares e Bonequinha de luxo, figura fulgurante do jet set. Seis anos, mais de duzentos depoimentos e quatro mil páginas datilografadas depois, ele estava pronto para lançar, com soberba e empáfia, A sangue frio, o livro que desafiadoramente batizaria como “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mas o new journalism pode ter nascido também em 20 de abril de 1963, quando Tom Wolfe, então repórter do New York Herald Tribune, enviou, depois de passar a noite inteira datilografando-o loucamente, aquilo que ele próprio chamou de “um simples memorando”, destinado ao diretor da revista Esquire, e cuja primeira frase – “lá vem (Vruuum! Vruuum!) essa caranga aerodinâmica envenenada (Rahghh!) fosforescente (Thphhhhh!) fazendo a curva (Brummmmmmmmmmmm!)” – é considerada, por assim dizer, o “faça-se a luz” do new journalism. Mais tarde, o artigo virou livro, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, e o “novo jornalismo” estava transformado em evidência inarredável.

Mas também é justo afirmar que o new journalism se materializou pela primeira vez em setembro de 1957, quando Norman Mailer publicou, nas páginas do Village Voice – jornal que ajudara a fundar em 1955 –, um longo, sombrio, sinuoso ensaio, The White Negro, sobre a rebelião dos jovens marginais norte-americanos (inspirada pela geração beat). Era intelectualizado demais, reflexivo demais – mas pelo menos conspurcava e desavergonhadamente arranhava, no tema e no estilo, o verniz acadêmico do gênero (“o ensaio”). Mailer saíra às ruas e entrevistara os garotos que rebatizou de “brancos negros”, de “humanistas radicais”, os quais, julgava ele à época, poderiam liderar “a revolução”. O tema era “novo”, o estilo era audacioso, mas seria “jornalismo”?

Os anos passaram – o novo jornalismo tornou-se velho (cronológica, não estilisticamente) –, Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer consagraram-se como autores tão grandiosos quanto os próprios egos e, no fim das contas, ficou mais ou menos estabelecido que quem inventara o tal new journalism fora mesmo Tom Wolfe com sua “baby aerodinâmica cristalizada como um floco cor de tangerina”. Todos concordaram – menos Tom Wolfe, é claro. Para ele, o “novo jornalismo” era tão velho quanto a prosa de Daniel Defoe, ou a de Balzac, Dickens e Mark Twain. Se alguém redescobrira o estilo, as honras então cabiam a Gay Talese e a seu artigo sobre o boxeador Joe Louis, publicado pela Esquire no outono de 1962. O ego de Wolfe é monumental, mas sua disposição de permanecer gauche e eternamente do contra é ainda maior.

Tom Wolfe


O que vem a ser new journalism? Pois bem: trata-se, pura e simplesmente, da aplicação das técnicas ficcionais a textos de não ficção. Seu objetivo, na definição do próprio Wolfe – avalizada pelos companheiros/concorrentes –, é descrever a realidade tão detalhada e fielmente quanto possível, conferindo a tal descrição um tratamento até então destinado exclusivamente ao romance ou ao conto. Isso, e mais: descobriu-se que um artigo jornalístico podia – deveria, na verdade – recorrer a todos os artifícios literários (diálogos, monólogos interiores, teorizações ensaísticas), simultaneamente e dentro de um espaço breve, capturando o leitor, emocional e intelectualmente. Nada mal. Mas bem difícil de concretizar.

Onde nasceu o new journalism? A sangue frio foi publicado em capítulos pela revista New Yorker, antes de virar livro. Antes de virar livro, The Kandy-Kolored... foi publicado em capítulos pela revista Esquire. O mesmo se passou com The White Negro, que, antes de ser incluído numa coletânea de ensaios de Mailer, foi publicado pelo semanário The Village Voice. Ou seja, o new journalism nasceu no seio do jornalismo – porém em revistas ou em jornais alternativos. Um tanto distante da grande imprensa, portanto.

E por que nasceu o novo jornalismo? Porque a literatura americana da virada dos anos 60 se revelou incapaz de acompanhar as vertiginosas mudanças culturais e comportamentais da nação. E a nação queria um novo texto, um novo estilo, um novo... jornalismo. Saul Bellow, John Updike, Philip Roth tremeram na base com a chegada dos “novos bárbaros”, que de imediato lhes roubaram a cena.

Respondidas as perguntas básicas e elementares do velho jornalismo – “quando, onde e por quê?” – é hora de saber “quem” lançou os alicerces do estilo que mudou o jeito de contar a história, e “como” isso foi feito.

O sangue quente de Capote

Truman Capote foi o Marcel Proust da era pós-macarthista, o Flaubert dos loucos anos pop, um artífice da palavra, condenado a viver na época em que a palavra estava sendo maculada, humilhada e ofendida, virada pelo avesso, travestida pelo avanço desmedido da publicidade, pela voracidade da mídia, pela própria futilidade dos discursos vazios da política e da comezinha vida cotidiana. Truman Capote foi um estilista meticuloso que nasceu atrasado mas se dispôs a registrar, com requinte e minúcia, a crônica das décadas que Tom Wolfe chamou de “púrpuras”: os anos 60 e 70. Foi um jet setter que amou e odiou o jet set, embora soubesse – ou talvez por isso mesmo – que jamais poderia viver sem jantares suntuosos, festas de arromba, cruzeiros a bordo de iates, villas à beira-mar. Truman Capote mordeu a mão que o alimentava e escreveu uma crônica doentiamente raivosa sobre o jet set. Truman Capote nunca foi exatamente um jornalista, mas mudaria para sempre a história do jornalismo ao redigir A sangue frio, seu “romance de não ficção”.

Ele estava submerso numa crise profissional quando abriu o New York Times naquela histórica manhã de 16 de novembro de 1959 e deparou com a notícia da morte da família Clutter, no longínquo, impensável, quase mitológico Kansas – “tão remoto quanto a lua”. Depois de convencer William Shawn, o diretor da New Yorker, de que valeria a pena enviá-lo para Holcomb – o vilarejo onde o crime ocorrera – e também de dizer ao homem que “simplesmente” não encontrava um fim para o artigo de quarenta páginas que estava escrevendo sobre Moscou, Capote embarcou num trem rumo ao Meio-Oeste. Sua viagem resultaria, seis anos mais tarde, num dos mais profundos e perfeitos documentos da América dos anos 60. Muito mais do que isso: Capote foi capaz de dissecar até os limites impostos pela literatura, pela sanidade e pela própria realidade, os meandros da vileza humana e os desatinos do destino.

O domínio emocional de Truman Capote sobre o material verdadeiramente avassalador que ele foi capaz de colher em Holcomb (mais de duzentos depoimentos, duas cartas por semana durante cinco anos de correspondência ininterrupta com os dois assassinos, entrevistas com policiais, vizinhos, psiquiatras, agentes penitenciários, parentes de matadores e mortos), seu distanciamento engajado, sua precisão descritiva, sua acuidade psicológica, seu estilo jornalisticamente irretocável e literariamente refinado, o ritmo de sua prosa, a pulsação a um só tempo frenética e contida da história, suas reflexões sobre a gratuidade de um crime brutal, o peso devastador da mão do destino tal como Capote capturou-o – dando-lhe a forma na trajetória convergente dos assassinados e dos assassinos numa noite sem estrelas nas lonjuras desoladas do Kansas –, tudo isso fez de A sangue frio um clássico eterno. 

Quando o livro enfim foi publicado, em janeiro de 1966 – poucas semanas depois do enforcamento dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, na penitenciária estadual do Kansas –, a máquina da mídia (revistas, TV, jornais e rádio) tornou-se uma banda gigante a ressoar uma só melodia: Truman Capote, Truman Capote. Inimigos e desafetos saíram à caça de supostas incorreções – ou “licenças poéticas” – num livro que Capote anunciara como “rigorosamente documental”. Mais: num livro que batizara acintosamente de “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mesmo que houvesse deslizes factuais – e não havia: os candidatos a detratores do livro só conseguiram descobrir que o cavalo da filha de Clutter não tinha sido vendido “a um forasteiro”, mas a um fazendeiro da região –, A sangue frio já seria um dos mais admiráveis relatos da tragédia americana. Ao se revelar irretocavelmente exato depois de submetido a tantos repórteres transformados em detectores de mentiras, tornou-se um livro alquímico, capaz de transfigurar a realidade e desnudá-la em toda a sua – para sempre sua – inexorabilidade insondável e brutalidade gratuita.

Tom Wolfe no ônibus dos insensatos

Tom Wolfe é o Andy Warhol das letras. Ele incorporou as latas de sopa Campbell, as cintilâncias do neon, o tilintar do dinheiro fácil, o colorido faiscante do imaginário pop – Marilyns Monroes borradas, James Deans silhuetados, a pélvis balançante de Elvis – ao vocabulário contemporâneo e ao mundo fugaz (a partir dele apreendido e capturado mesmo em sua futilidade fugidia) do jornalismo diário – ou melhor, do “novo jornalismo” diário. 

Tom Wolfe inaugurou uma nova época e fez luzir em tons mais hipnóticos o sol nas bancas de revistas. Tom Wolfe não teve preguiça para nos mostrar quem lê tanta notícia. Ou pelo menos por que as lê. Tom Wolfe é o Frank Lloyd Wright da arquitetura verbal. Seus projetos foram sempre mais ousados, mais surpreendentes – e mais utilitários – do que os dos concorrentes. Tom Wolfe é um ladrão de casaca, sacando ideias mais rapidamente do que os presentes e usurpando da realidade os temas e os tons que, na mão de jornalistas comuns, se tornariam comuns e tediosos como eles próprios e, nas mãos de Wolfe, transformaram-se em histórias tão exemplarmente elucidativas como se fossem parábolas bíblicas. Tom Wolfe é o pai fundador de uma nova religião – cínica e excludente como o próprio coração da América.

Tom Wolfe transformou a América numa imensa, inesgotável pauta para seu “novo jornalismo”. Ao descobrir, no verão de 1967, que o país estava sendo percorrido pela mais alucinada das caravanas, pelos argonautas do delírio, por ciganos lisérgicos reunidos sob o manto protetor do escritor Ken Kesey, Tom Wolfe decidiu seguir-lhes a trilha e devastar-lhes a utopia. O resultado materializou-se naquele que muitos consideram o melhor livro de Wolfe antes da comédia humana nova-iorquina que é A fogueira das vaidades. O teste do ácido do refresco elétrico é o mais implacável retrato da era hippie, o mais sarcástico e o mais corrosivo, ainda que muitas de suas páginas sejam perpassadas por uma sutil complacência (talvez um disfarce para a autopiedade de Wolfe, extensiva à humanidade).

O estilo caleidoscópico, vertiginoso, relampejante de Tom Wolfe adaptou-se com perfeição à demencial odisseia liderada por Ken Kesey e seu ônibus dos insensatos. O teste do ácido do refresco elétrico foi lançado no Brasil em fins de 1993. Passou despercebido. Vendeu pouco, foi quase ignorado pelos jornais e precisa ser garimpado nas livrarias por leitores dispostos a transpor-lhe as fronteiras. Trata-se de um livro quase operístico, despretensiosamente épico, burlesco, redigido em pequenos estilhaços de prosa sempre incontida e com o texto tropeçando numa vertente de adjetivos que, de forma incompreensível, Wolfe consegue manter não apenas a seu serviço, mas a serviço da clareza e do prazer do leitor.

A saga de Ken Kesey prescindia de um cronista tão admirável. Era alucinante por si só. Kesey, ele mesmo um grande escritor – autor de Sometimes a Great Notion e do clássico Um estranho no ninho –, era um doidão convicto e ativista. Foi preso, fugiu para o México e voltou para os Estados Unidos a tempo de desfrutar do boom do psicodelismo. Desfrutar, não: deflagrá-lo. Kesey pintou um velho ônibus escolar de 1939 com as cores mais berrantes que o espectro poderia lhe oferecer, arrebanhou o bando mais demencial que pôde juntar, convidou Neal Cassady (o lendário Dean Moriarty de On the Road) para dirigir aquela banheira sobre rodas e o grupo de rock Grateful Dead para fazer a trilha sonora ao vivo. Kesey sentia-se engajado numa guerra santa: embeber a América em LSD. And take no prisioners.

Batizado Further (“Adiante” ou “Em frente” em tradução livre), o ex-ônibus escolar passou a conduzir outra espécie de professores e alunos: foi levado a rodar pelas estradas da Califórnia, no verão de 1964, parando em cidadezinhas, montando seu circo de som e luz – longos, loucos concertos gratuitos do Dead – para que os sacerdotes Kesey e Cassady e seus coroinhas do ácido pudessem distribuir LSD para quem quisesse. E para quem não quisesse também.

Tom Wolfe perdeu boa parte da viagem. Recuperou-a com entrevistas, cartas, consultas a filmes e fitas. Conquistou a simpatia de Kesey – algo virtualmente impensável. Pegou umas caronas no ônibus antes que ele fosse definitivamente banido, junto com o próprio LSD (até então legal), pela administração Reagan – na época esse sujeito era governador da Califórnia. Com o material que tinha nas mãos, Wolfe delineou um painel dolorosamente melancólico da “nova sociedade” que a garotada de Kesey julgava estar forjando. O ônibus nos é apresentado como palco de uma tragicomédia que repete o que o “mundo exterior” tinha de pior. Um microcosmo megalomaníaco e competitivo da América, embebido em ácido e cercado pelo coturno reluzente dos tiras por todos os lados.

Quando o ônibus de Ken Kesey se revelou apenas uma bad trip, Tom Wolfe já estava longe, diagnosticando, com o mesmo rigor cubista, alguma outra doença da América.

Norman Mailer espiona a CIA

Norman Mailer é o Cassius Clay da literatura americana, sempre decidido a vencer por nocaute e inclinado a bater sem piedade, mas com técnica e elegância. Ele nunca quis ser o Mike Tyson, cara! As frases de Mailer distribuem uma sequência avassaladora de jabs nos ângulos mais impertinentes do texto e uns quatro ou cinco diretos definitivos partem na busca incessante do plot exato e do ritmo correto da prosa. Mailer pega no fígado da literatura molenga. Norman Mailer é o Ernest Hemingway da era do napalm e do isopor. Sua escrita é máscula, tabagista, confessional, egocêntrica, competitiva, agressiva, neurótica, devassa, inconformista e parece estar, às vezes, exausta e incuravelmente neurótica. De qualquer forma, sempre dá um jeito de deixar o hospital sem ter recebido alta e voltar às ruas para circular por onde os anjos temem ser vistos. Norman Mailer é um garanhão: cercas não podem contê-lo. Rédeas e selas tampouco.

Norman Mailer


Não é só o texto de Mailer que se apresenta de maneira descaradamente heterossexual, narcisista e competitiva. O próprio homem é assim. Por isso, ele entrou cedo na perseguição incessante do “tema perfeito”, da pauta exata na hora e na busca do tom inatacável – os elementos que perpassam e definem a eterna competição entre os jornalistas norte-americanos dispostos a definir o espírito da época e a cara medonha do país. Quem terá ido mais longe do que ele no cumprimento dessa tarefa?

Norman Mailer narrou a corrida à Lua em pinceladas rápidas e cínicas, sem deixar o encantamento de lado (quase duas décadas antes de Tom Wolfe compor Os eleitos). Tornou a brutalidade do boxe um espetáculo de requinte gótico. Biografou Marilyn Monroe com a devoção exigida pelo grande sonho molhado da América. Revisitou o Vietnã com sua câmera detalhista e cruel. Acompanhou a efervescência política da década de 60 com o olhar cético e meticuloso do caçador comprometido apenas com a queda da presa. Penetrou na mente de um assassino com o mesmo e espantoso rigor de Truman Capote (ainda que o tenha feito duas décadas depois), em A canção do carrasco. Desafiou John Kennedy. Ficou milionário, obeso, famoso, intratável.

Em 1994, antes de contar o “evangelho segundo Jesus Cristo” [seu último livro publicado em vida, em 1997 – depois viria o póstumo O castelo na floresta, sobre a infância de Hitler, lançado só em 2007], Norman Mailer apontou sua carabina verbal de cano cerrado, acostumada a abater muitos elefantes, em direção à mastodôntica CIA, sua tromba enxerida, seus tentáculos e sua viscosidade pegajosa. Pela alça de mira de Mailer vislumbramos O fantasma da prostituta – Um romance da CIA. Trata-se de uma água-forte, impressa em tintas ácidas, feita para macular o papel e as reputações. É um livro tipicamente Mailer: espaçoso, loquaz, irado, imprudente, vesicatório. O velho Norman segue suas normas e nos transporta para a época da Guerra Fria – a Baía dos Porcos, as contrarrevoluções exportadas para a América Latina, África e Ásia, a corrida armamentista, o poder militar instalado no coração da Casa Branca, a inescrupulosidade e hipocrisia da democracia americana – só para nos lembrar que a besta sobrevive e que daqueles anos para cá nada mudou tanto assim. Ou talvez ele o tenha feito de forma tão eloquente, vitoriosa e épica (são mais de 1.300 páginas) apenas para deixar claro que ele próprio também não mudou tanto assim: continua sendo o grande, o arrogante, o inigualável, o único Norman Mailer.

10 de abril de 1994


 Jason Lima

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COMO LER UM ROMANCE

Ao começar a leitura de um romance, é comum, quando a obra possui alguma complexidade e exige uma atenção textual um pouco maior do leitor, perder-se nas complexidades da história e dos personagens. No entanto, há métodos que podem enriquecer a experiência literária, proporcionando uma compreensão mais profunda da obra como um todo.

A lição de leitura, 1912,
de Léon-Augustin L’Hermitte (França, 1844 -1925).


Um aspecto fundamental a considerar é o papel do narrador na história. Dado que os romances são obras ficcionais, os narradores são igualmente fictícios, e sua relação com a trama pode variar. Pode-se questionar se o narrador é um participante da história ou se mantém uma posição separada. Ele sabe tudo ou apenas o que determinados personagens sabem? A confiança em quem conta a história é uma questão crucial, pois narradores não confiáveis podem ser pistas valiosas para desvendar os significados ocultos de um livro. É prudente, pois, ser cauteloso em relação a narradores que parecem estar sob efeito de álcool, drogas ou algum estado alterado (como em Laranja Mecânica, de Anthony Burgess), com deficiência intelectual ou social (como em O Som e a Fúria, de William Faulkner e O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon) ou que tenham motivos para mentir, especialmente relacionados a crimes ou más condutas (como em Dom Casmurro,de Machado de Assis, ou em Lolita de Vladimir Nabokov). A compreensão da confiabilidade do narrador pode ser fundamental para desvendar as camadas mais profundas do enredo.

Uma sugestão valiosa também é buscar uma frase ou passagem breve que capture, em miniatura, a essência da experiência do leitor com a obra. Essa passagem pode ser um argumento central, um momento crucial ou até mesmo a descrição de algo aparentemente trivial, como o clima, o rosto de uma pessoa ou a sensação da pelagem de um gato. Identificar essa sentença e explicar por que ela é considerada importante, representativa ou reveladora pode conduzir a uma análise interessante e perspicaz sobre a obra como um todo.

Outro ponto crucial é analisar o estilo da narrativa. A escolha do autor em relação à estrutura, seja através de cartas, entradas de diários ou narrativa convencional, revela informações importantes sobre o que está sendo contado. A complexidade linguística, a escolha de palavras e a estrutura das frases também são elementos a serem considerados. O modo como a história é contada muitas vezes reflete o que está sendo contado.

Jovem com um livro (1886),
de Pierre Auguste Renoir (França, 1841-1919).


É igualmente útil, ao longo da leitura, resumir os principais eventos de cada capítulo ou parte. Esse exercício proporciona uma pausa para reflexão sobre as mudanças ocorridas, o crescimento dos personagens, o desenvolvimento da trama e se há um retorno ao ponto de partida. A construção de resumos sucessivos cria um esboço do romance, permitindo ao leitor visualizar a progressão da narrativa.

Além disso, observar as transformações dos personagens é uma prática relevante. Identificar como um personagem evolui ao longo de um capítulo possibilita compreender as razões por trás dessas mudanças. Essa análise contribui para uma compreensão mais profunda da psicologia dos personagens e das motivações que impulsionam a trama.

Finalmente, ordenar cronologicamente o enredo, se ainda não estiver disposto dessa forma, pode esclarecer a estrutura narrativa. Embora histórias apresentadas fora de ordem possam parecer complexas, muitas vezes a dificuldade está na disposição dos eventos e não na trama em si. A compreensão da ordem cronológica facilita a visualização do fluxo narrativo.

Essas práticas podem ajudar você a aproveitar melhor um romance. Desvendar os elementos-chave da obra amplia a compreensão e enriquece a apreciação da complexidade e riqueza literária presente no romance.

 Jason Lima

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sexta-feira, 1 de março de 2024

OS NOVE POETAS LÍRICOS DA GRÉCIA ANTIGA E A POESIA MÉLICA

No auge do Período Arcaico da Grécia, a poesia mélica surgiu, ligando-se aos desenvolvimentos sociais na polis e ao florescer cultural que acompanhava a expansão grega para a Ásia Ocidental e as ilhas do Egeu. 

 A palavra “mélica” em grego está relacionada à música e ao canto, e a poesia mélica era frequentemente acompanhada de música, daí o nome. Muitas vezes, essa poesia é também conhecida como poesia lírica, pois os poetas frequentemente usavam a lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições.

A expressividade emocional e a musicalidade marcante caracterizavam essa poesia, encontrando destaque entre os nove poetas líricos da Grécia Arcaica. Nomes como Safo e Píndaro destacavam-se nesse gênero. Estes artistas habilidosos faziam uso da lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições, resultando na designação do termo "lírica."

A poesia grega antiga era, ao mesmo tempo, uma forma literária e uma experiência coletiva destinada à apresentação pública. Acompanhada por música e dança, ela desempenhava um papel integral na vida social e cultural dos gregos antigos. Festivais religiosos, banquetes e competições eram palcos nos quais a poesia ganhava vida, envolvendo a comunidade em uma experiência emocional compartilhada.

A expressão poética grega era também um meio pragmático de interação social e discussão política. Os poetas abordavam questões de justiça, honra e a natureza do universo, fornecendo uma plataforma para criticar ou elogiar indivíduos e cidades. A poesia tornou-se uma voz influente na esfera pública, moldando opiniões políticas e sociais.

Além disso, a arte poética atuava como uma ferramenta educacional essencial na Grécia antiga, transmitindo valores e modelos de comportamento por meio de mitos. A paideia poética orientava os gregos, explorando e questionando significados mitológicos. Esses mitos eram entrelaçados na trama da sociedade, influenciando a visão de mundo e as escolhas éticas dos indivíduos. A poesia mélica estabelecia, pois, uma estreita relação com a rica mitologia grega, frequentemente explorando temas míticos em suas composições. Por exemplo, a poeta Safo tornou-se conhecida por suas representações envolventes da deusa Afrodite em suas obras, mergulhando na riqueza narrativa do panteão grego.

A formação do cânone poético, realizada pelos filólogos de Alexandria, teve um impacto duradouro no gosto literário e na transmissão cultural subsequente. A seleção criteriosa dos nove poetas líricos como representantes exemplares da poesia grega influenciou a leitura e interpretação das obras antigas em épocas posteriores. Essa catalogação proporcionou uma base para a preservação e apreciação contínua desses escritores. Os nove poetas são estes:


1. Alcman:

Poeta lírico coral da Grécia Antiga proveniente de Esparta, Alcman destaca-se como o representante inaugural do cânone alexandrino dos Nove Poetas Líricos. Ativo possivelmente no final do século VII a.C., Alcman deixou um legado de seis livros de poesia coral, a maior parte agora perdida, preservada apenas em citações de outros autores antigos e em fragmentos de papiros descobertos no Egito. Sua obra, escrita no dialeto dórico local com influências homéricas, é principalmente composta por hinos, caracterizando-se por estrofes longas formadas por versos em diferentes metros.

Quanto à sua biografia, as datas precisas de Alcman são incertas, mas provavelmente ele esteve ativo no final do século VII a.C. A origem dele é contestada, com algumas fontes sugerindo Sardes, na Lídia, e outras reivindicando Messoa, na Lacônia. Algumas tradições relatam que Alcman foi trazido como escravo para a família de Agesidas em Esparta, onde sua habilidade excepcional levou à sua emancipação. Acredita-se que ele tenha falecido devido a uma infestação de piolhos, embora essa informação possa ter sido confundida com o filósofo Alcmeão de Croton.

Em seu conjunto, a poesia de Alcman traz tópicos variados, desde a exaltação dos deuses até a natureza e os rituais festivos, destacando-se por uma linguagem visual rica e uma tonalidade leve e agradável. 

Alcman


2. Alceu:

Alceu de Mitilene (c. 625/620 a.C. - c. 580 a.C.) foi um poeta lírico da ilha grega de Lesbos, creditado por inventar a estrofe alcaica (quatro versos, sendo os dois primeiros hendecassílabo). Nasceu na classe aristocrática de Mitilene, onde esteve envolvido em disputas políticas. Ele viveu durante um período de lutas pelo poder, marcado por três tiranos sucessivos. Após o governo de Pittacus, o líder político dominante, Alceu e sua facção foram autorizados a retornar a Mitilene.

Durante seu exílio, Alceu possivelmente viajou extensivamente, incluindo uma visita ao Egito. Ele escreveu versos celebrando o retorno de seu irmão Antimenidas, um mercenário na Babilônia. O poeta era contemporâneo e compatriota de Safo, e ambos eram membros da escola lírica de Lesbos. Embora fosse sugerido que Alceu e Safo fossem amantes, isso permanece como tema de especulação.

Os trabalhos poéticos de Alceu foram compilados em dez livros, mas hoje existem apenas em forma fragmentária. Ele era conhecido por sua versatilidade em temas, abordando desde canções políticas e de amor até hinos. Os estudiosos o comparam frequentemente a Safo, destacando a variedade de seus assuntos e a simplicidade de seus metros. Poetas romanos como Horácio se inspiraram em Alceu para criar suas próprias composições líricas.

Alceu


3. Anacreon:

 Anacreon foi um poeta lírico grego, nascido por volta de 575 a.C. ou 570 a.C., em Teos, na Jônia (Turquia moderna). Reconhecido por suas canções de bebedeira e poemas eróticos, Anacreon foi incluído pelos gregos posteriores na lista canônica dos Nove Poetas Líricos. Escrevendo exclusivamente no antigo dialeto jônico, suas composições eram destinadas a serem cantadas ou recitadas ao som da lira.

A vida de Anacreon é envolta em alguma incerteza cronológica, mas ele provavelmente viveu no século VI a.C. Mudou-se para Samos, onde educou Polícrates, futuro tirano da ilha, antes de ser convidado para Atenas por Hiparco, que ascendia ao poder por volta de 528/7 a.C. Não se sabe ao certo quando Anacreon deixou Atenas, mas evidências sugerem sua presença até depois do assassinato de Hiparco em 514 a.C.

Apesar de sua reputação como autor de hinos, Anacreon também compôs líricas bacanais e amorosas. Contudo, sua representação como um poeta bêbado e luxurioso foi estabelecida na época helenística. Seus escritos influenciaram a tragédia ateniense do século V a.C., e seu impacto persistiu na literatura posterior, com autores como Horácio fazendo referências frequentes a ele.

Anacreon


4. Baquílides:

Baquílides (518 a.C. a 451 a.C.) foi um poeta lírico grego que mais tarde foi inserido na lista canônica dos Nove Poetas Líricos, que incluía seu tio Simônides. Ele é elogiado por sua habilidade narrativa, imagens vívidas e toques habilidosos que dão vida às descrições.

Baquílides frequentemente foi comparado desfavoravelmente com seu contemporâneo Píndaro. Embora compartilhem repertórios semelhantes, Baquílides é considerado mais simples e menos filosófico. Essa abordagem mais suave o tornou apreciado por leitores que encontravam prazer em sua poesia sem exigir muito esforço.

Sua carreira coincidiu com o surgimento de estilos dramáticos na poesia, representados por obras de Ésquilo ou Sófocles, sendo considerado um dos últimos poetas de grande importância dentro da tradição mais antiga da poesia lírica.

Os poemas de Baquílides são conhecidos por sua clareza e simplicidade, tornando-os uma introdução ideal ao estudo da poesia lírica grega em geral e aos versos de Píndaro em particular.

Quanto à sua vida, pouco se sabe com certeza devido às fontes compiladas muito depois de sua morte. Ele nasceu em Ioulis, na ilha de Ceos, e, segundo algumas tradições, foi banido por um tempo de sua terra natal. Sua fama cresceu gradualmente, e ele contava com patronos em várias regiões do Mediterrâneo. Suas composições eram encomendadas por aristocratas ambiciosos, e ele competiu com Píndaro por essas encomendas. Baquílides obteve sucesso notável com o patrocínio de Hieron de Siracusa. Sua obra foi colecionada no final do século III a.C. pelo estudioso Aristófanes de Bizâncio.

A maioria dos poemas sobrevive apenas em fragmentos, mas em 1896, uma descoberta de papiros no Egito trouxe à luz parte do trabalho de Baquílides, proporcionando uma visão mais completa de sua arte. 

Baquílides


5. Píndaro:

Píndaro (518 a.C. - 438 a.C.) foi um poeta lírico grego da antiga cidade de Tebas. Entre os nove poetas líricos canônicos da Grécia Antiga, sua obra é a mais bem preservada. Ele é elogiado por sua magnificência inspirada, pela beleza de seus pensamentos, pela riqueza exuberante de sua linguagem e pelo fluxo eloquente de sua retórica. Quintiliano afirmou que, entre os nove poetas líricos, Píndaro é o maior.

Sua poesia, porém, pode parecer difícil e peculiar. O comediógrafo ateniense Eupolis chegou a comentar que suas obras "já foram reduzidas ao silêncio pela falta de interesse da multidão em aprender elegância". No entanto, a descoberta de poemas de seu rival Bacílides em 1896 revelou que muitas das idiossincrasias de Píndaro eram típicas de gêneros arcaicos em vez de exclusivas do poeta.

Píndaro foi o primeiro poeta grego a refletir sobre a natureza da poesia e o papel do poeta. Sua poesia ilustra as crenças e valores da Grécia Arcaica no início do período Clássico. Ele expressa uma fé apaixonada no que os homens podem realizar pela graça dos deuses. 

Píndaro nasceu por volta de 518 a.C. em Cinoscefalas, uma vila na Beócia, perto de Tebas. Desde jovem, estudou poesia lírica em Atenas.

Sua carreira coincidiu com as Guerras Greco-Pérsicas, e ele celebrou vitórias gregas contra os invasores persas em suas odes. Píndaro usava suas odes para promover seus interesses e os de seus amigos, enaltecendo a nobreza de suas linhagens e suas vitórias atléticas. Ele viajou por toda a Grécia para atender a várias encomendas e competir com outros poetas.

Sua associação com Sicília, especialmente com o rico Hierão, causou desconforto em sua cidade natal, Tebas. Ele também recebeu críticas por elogiar Atenas em suas odes, o que levou a uma multa imposta por Tebas. 

Píndaro viveu até cerca de 80 anos, morrendo por volta de 438 a.C. Ele faleceu durante um festival em Argos, e suas cinzas foram levadas de volta a Tebas por suas filhas. Postumamente, recebeu homenagens, e sua casa em Tebas foi poupada por Alexandre, o Grande, quando ele destruiu a cidade em 335 a.C., devido aos elogios nas odes a seu ancestral.

Os valores e crenças de Píndaro são inferidos de sua poesia. Ele exaltava a poesia coral, justificando-a como uma tradição essencial. Seus deuses eram retratados tradicionalmente, sem diminuição de dignidade, e ele evitava degradá-los moralmente. Heróis míticos, sendo descendentes de uniões divinas, eram intermediários entre deuses e homens, e Píndaro os apresentava como simpáticos às ambições humanas. O poeta enfatizava que, ao homenagear tais homens, estava honrando os próprios deuses.

Píndaro, como poeta, acreditava que sua inspiração vinha das Musas, e sua habilidade era moldar essa inspiração com sabedoria e habilidade. Suas obras mostram inovação no uso de gêneros líricos, mas ele não criou novos gêneros. Ele compôs principalmente em um dialeto literário que misturava o dórico com elementos eólicos e épicos, às vezes incorporando palavras beócias.

Píndaro


6. Ibico:

Ibico foi um poeta lírico da Grécia Antiga, cidadão de Rhegium em Magna Grécia, provavelmente ativo em Samos durante o reinado do tirano Polícrates. Nascido em Rhegium, ele teria enlouquecido por amores juvenis e, curiosamente, é creditado como o inventor da "sambyke", uma cítara triangular. Sua vida é marcada por um destino trágico; capturado por bandidos em um local isolado, profetizou que as gruas que voavam acima seriam seus vingadores. Após seu assassinato, as gruas foram avistadas na cidade, revelando a verdade e originando o proverbial "as gruas de Ibico".

As narrativas sobre Ibico muitas vezes se misturam ao mito. O relato da sua morte, registrado por fontes como Plutarco, Antípatro de Sidon e mais tarde imortalizado por Friedrich Schiller em "As Gruas de Ibycus", pode ter raízes na combinação do nome do poeta com a palavra grega para a ave, "íbyx". Outro provérbio associado a Ibico destaca sua recusa nobre (ou tola) em se tornar tirano de Rhegium, optando pela carreira poética.

Ibico desempenhou um papel crucial na evolução da poesia lírica grega, atuando como mediador entre estilos orientais e ocidentais. Seu trabalho, preservado em sete livros na dialeto dórico, revela uma fusão intrincada de estilos corais e solistas. Ele abordou temas mitológicos, muitas vezes com variações originais, e estruturou seus versos em tríades, uma técnica que influenciou poetas posteriores.

Apesar de sua vida envolta em mistérios, Ibico é mais conhecido por suas composições líricas que exploram o amor e a natureza. Seus versos, ainda que fragmentados, capturam a intensidade emocional e a paixão.

Ibico


7. Safo:

Safo foi uma poeta grega nascida em Eresos ou Mitilene, na ilha de Lesbos, por volta de 630 a.C. e faleceu aproximadamente em 570 a.C. Ela é reconhecida por sua poesia lírica, destinada a ser cantada com acompanhamento musical. Na antiguidade, Safo era amplamente considerada uma das maiores poetas líricas, recebendo epítetos como "Décima Musa" e "A Poeta". A maioria de seus poemas se perdeu ao longo do tempo, restando apenas fragmentos, sendo "Ode a Afrodite" o único poema completo conhecido. A poesia de Safo era admirada na antiguidade, influenciando outros escritores. Seu estilo poético era conhecido por sua clareza, imagens vívidas e proximidade emocional.

Sobre sua vida, pouco se sabe com certeza. Ela era de uma família abastada de Lesbos, com três irmãos, Charaxos, Larichos e Eurygios. Acredita-se que tenha escrito em torno de 10.000 versos, destacando-se na poesia de amor, mas também abordando temas familiares e religiosos. Exilada para a Sicília em 600 a.C., sua morte é lendária, dizendo-se que pulou dos penhascos de Leucadia devido a um amor não correspondido pelo barqueiro Phaon.

Apesar de sua poesia ter sido amplamente admirada, muitos de seus escritos foram perdidos ao longo dos séculos, contribuindo para a mitologia e mistério em torno de sua figura. Sua influência perdura, e Safo permanece uma figura significativa na história da literatura e na representação da expressão artística feminina.

Safo


8. Simônides:

Simônides de Ceos (cerca de 556-468 a.C.) nasceu em Ioulis na ilha de Ceos. Muito considerado pelos estudiosos helenísticos, ele desempenhou um papel ativo em eventos importantes e interagiu com personalidades influentes de sua época.

Na era do Iluminismo, Lessing o comparou ao "Voltaire grego". Sua fama, influenciada por relatos coloridos de sua vida, o retratava como sábio e avarento. Simônides foi creditado com a invenção de um sistema mnemônico e contribuições para o alfabeto grego.

Como poeta, seu reconhecimento baseava-se na capacidade de apresentar situações humanas com simplicidade tocante. Quintiliano o elogiou pelo poder de evocar piedade, superando outros escritores do gênero. Ele foi especialmente associado a epitáfios, como os dos guerreiros caídos na Batalha de Termópilas.

Embora fragmentos de sua poesia tenham sobrevivido, arqueólogos em Oxyrhynchus, no Egito, continuam a descobrir novos fragmentos. Detalhes de sua vida são incertos, com relatos conflitantes sobre suas datas de nascimento e morte. Ele foi associado a Ceos, Atenas, Tessália, e passou seus últimos anos na Sicília, notadamente fazendo amizade com Hieron de Siracusa.

O impacto de Simônides durante as Guerras Persas foi significativo. Ele compôs versos comemorativos para vários estados gregos, incluindo epitáfios, epigramas dedicatórias e poemas sobre batalhas como Termópilas, Artemísio, Salamina e Plateia. Sua rivalidade com Ésquilo e seu papel na comemoração da vitória em Maratona aumentaram sua proeminência.

Simônides 


9. Estesícoro:

Estesícoro (aproximadamente 630 a.C. - 555 a.C.) ganhou destaque por contar histórias épicas em metros líricos e teve tradições antigas associadas à sua vida. Estesícoro é mais conhecido por sua oposição ao tirano Fálaris.

Apesar de ser considerado um dos nove poetas líricos importantes pelos estudiosos de Alexandria, poucos fragmentos de sua poesia sobrevivem, e ele não despertou grande interesse entre os antigos comentaristas. Descobertas recentes, como o Papiro de Lille, proporcionaram uma melhor compreensão de seu trabalho, confirmando seu papel como uma ponte entre a narrativa épica de Homero e a narrativa lírica de poetas como Píndaro.

Estesícoro nasceu em Metauros, na Calábria, por volta de 630 a.C., e morreu em Catânia, na Sicília, em 555 a.C. Ele era um poeta lírico que escrevia em dialeto dórico e produziu 26 livros de poesia. Uma tradição conta que Estesícoro ficou cego por escrever contra Helena, recuperando a visão ao compor um elogio a ela, chamado de Palinode, após um sonho.

Suas obras incluíam temas épicos, como a "Saque de Troia", "Retornos" (sobre o retorno dos guerreiros gregos de Troia) e "Geryoneis" (sobre o roubo do gado de Gerião por Héracles). Estesícoro também teve influência na representação mitológica na arte do século VI a.C. e no desenvolvimento da poesia dramática em Atenas.

Estesícoro

 Jason Lima

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