sábado, 2 de março de 2024

UMA REVOLUÇÃO NARRATIVA NO JORNALISMO

O New Journalism, ou Novo Jornalismo, ou ainda Jornalismo Literário, surgiu nos anos 1960 como um movimento que revolucionou a maneira como as histórias eram contadas no jornalismo. Essa abordagem inovadora combinava técnicas literárias com a objetividade das notícias, resultando em uma narrativa mais pessoal, envolvente e subjetiva. 

Embora o termo New Journalism tenha sido codificado por Tom Wolfe em 1973, suas raízes podem ser rastreadas até Truman Capote em 1956. Capote propôs uma abordagem mais imaginativa e lírica da reportagem, permitindo que jornalistas se inserissem na narrativa. Essa fusão entre jornalismo e técnicas literárias criou as bases para um novo modo de contar histórias.

Truman Capote


O Jornalismo Literário surgiu no contexto da contracultura nos Estados Unidos, trazendo consigo um discurso crítico e interventivo na mídia. O movimento desafiou as normas da grande imprensa e buscou inspiração no jornalismo do século XIX e início do século XX. A abordagem do Novo Jornalismo representou uma ruptura com a narrativa jornalística tradicional, aproximando-se de uma escrita mais literária.

O New Journalism introduziu uma série de técnicas narrativas que transformaram a maneira como as histórias eram apresentadas. A descrição detalhada do ambiente, a construção cena a cena, diálogos autênticos, o uso da terceira pessoa e a contextualização social tornaram-se marcas registradas desse estilo. 

Uma das contribuições mais significativas do Novo Jornalismo foi sua capacidade de transmitir a humanidade e a intimidade dos personagens. Ao empregar técnicas literárias, os jornalistas conseguiam gerar compreensão, empatia e identificação com os fatos narrados. Isso aproximava o leitor da notícia e ampliava a compreensão do público sobre os eventos e personagens envolvidos.

Apesar de sua influência, o Jornalismo Literário não escapou de críticas. A natureza subjetiva do estilo e questionamentos sobre sua classificação como um gênero distinto foram pontos de debate. O movimento ganhou popularidade nas décadas de 1960 e 1970, mas experimentou um declínio nos anos 1980.

A evolução do New Journalism deu origem ao The New New Journalism, um movimento literário que continua a tradição do jornalismo narrativo. Essa nova geração foca a não ficção baseada em reportagens detalhadas e narrativas conduzidas por histórias longas. Diferentemente das narrativas extravagantes de Tom Wolfe, o New New Journalism explora experiências cotidianas, buscando a corrente ficcional que flui sob a realidade. O foco se desloca, pois, para experiências cotidianas, explorando a ficção entrelaçada na realidade. Houve uma inovação das técnicas de imersão, como a fez Ted Conover, que trabalhou como guarda prisional e viveu entre os coiotes na fronteira do México para escrever os livros Newjack: Guarding Sing Sing e Coyotes: A Journey Across Borders with America's Mexican Migrants, respectivamente. 

Portanto, o New Journalism representou uma ruptura significativa na forma de se fazer jornalismo, incorporando elementos literários para contar histórias com maior profundidade e impacto. Apesar das críticas e do declínio em sua popularidade, o movimento influenciou profundamente o jornalismo contemporâneo, inspirando novas gerações de jornalistas a explorar as possibilidades da narrativa na construção de reportagens envolventes e humanizadas. O seu legado reside na abertura de caminhos para uma maior experimentação e inovação na prática jornalística, reconhecendo o poder da narrativa para conectar o público com os fatos e personagens de forma mais profunda e significativa.

Eduardo Bueno, no livro Textos contraculturais, crônicas anacrônicas e outras viagens, lançado pela L&PM Editores, traz um bom texto sobre a sua perspectiva do New Journalism. A seguir, coloco-o para apreciação.


O velho new journalism

Os perfis de Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer, pais fundadores do estilo literário que concedeu aos textos de não ficção as técnicas antes aplicadas apenas na ficção.

Eduardo Bueno

Quando nasceu o new journalism? Pois o new journalism pode muito bem ter nascido em 16 de novembro de 1959, no instante em que o escritor (e eventualmente jornalista) Truman Capote abriu o New York Times, à hora do desjejum (no caso dele, em torno de uma da tarde), em seu elegante apartamento em Brooklyn Heights, e deparou com uma pequena notícia, perdida em meio à página 39, cujo título dizia: “Fazendeiro rico e sua família são barbaramente assassinados”. Acontecera em Holcomb, uma cidadezinha fincada nos confins varridos pelos ventos do Kansas, no dia anterior. O lead: “Um bem-sucedido plantador de trigo, sua mulher e os dois filhos foram assassinados com tiros à queima-roupa, depois de terem sido amarrados e amordaçados”.

O parágrafo, lacônico, espartano, quase indiferente, vincou profundamente Capote – na época, com 35 anos, já o autor consagrado de Outras vozes, outros lugares e Bonequinha de luxo, figura fulgurante do jet set. Seis anos, mais de duzentos depoimentos e quatro mil páginas datilografadas depois, ele estava pronto para lançar, com soberba e empáfia, A sangue frio, o livro que desafiadoramente batizaria como “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mas o new journalism pode ter nascido também em 20 de abril de 1963, quando Tom Wolfe, então repórter do New York Herald Tribune, enviou, depois de passar a noite inteira datilografando-o loucamente, aquilo que ele próprio chamou de “um simples memorando”, destinado ao diretor da revista Esquire, e cuja primeira frase – “lá vem (Vruuum! Vruuum!) essa caranga aerodinâmica envenenada (Rahghh!) fosforescente (Thphhhhh!) fazendo a curva (Brummmmmmmmmmmm!)” – é considerada, por assim dizer, o “faça-se a luz” do new journalism. Mais tarde, o artigo virou livro, The Kandy-Kolored Tangerine-Flake Streamline Baby, e o “novo jornalismo” estava transformado em evidência inarredável.

Mas também é justo afirmar que o new journalism se materializou pela primeira vez em setembro de 1957, quando Norman Mailer publicou, nas páginas do Village Voice – jornal que ajudara a fundar em 1955 –, um longo, sombrio, sinuoso ensaio, The White Negro, sobre a rebelião dos jovens marginais norte-americanos (inspirada pela geração beat). Era intelectualizado demais, reflexivo demais – mas pelo menos conspurcava e desavergonhadamente arranhava, no tema e no estilo, o verniz acadêmico do gênero (“o ensaio”). Mailer saíra às ruas e entrevistara os garotos que rebatizou de “brancos negros”, de “humanistas radicais”, os quais, julgava ele à época, poderiam liderar “a revolução”. O tema era “novo”, o estilo era audacioso, mas seria “jornalismo”?

Os anos passaram – o novo jornalismo tornou-se velho (cronológica, não estilisticamente) –, Truman Capote, Tom Wolfe e Norman Mailer consagraram-se como autores tão grandiosos quanto os próprios egos e, no fim das contas, ficou mais ou menos estabelecido que quem inventara o tal new journalism fora mesmo Tom Wolfe com sua “baby aerodinâmica cristalizada como um floco cor de tangerina”. Todos concordaram – menos Tom Wolfe, é claro. Para ele, o “novo jornalismo” era tão velho quanto a prosa de Daniel Defoe, ou a de Balzac, Dickens e Mark Twain. Se alguém redescobrira o estilo, as honras então cabiam a Gay Talese e a seu artigo sobre o boxeador Joe Louis, publicado pela Esquire no outono de 1962. O ego de Wolfe é monumental, mas sua disposição de permanecer gauche e eternamente do contra é ainda maior.

Tom Wolfe


O que vem a ser new journalism? Pois bem: trata-se, pura e simplesmente, da aplicação das técnicas ficcionais a textos de não ficção. Seu objetivo, na definição do próprio Wolfe – avalizada pelos companheiros/concorrentes –, é descrever a realidade tão detalhada e fielmente quanto possível, conferindo a tal descrição um tratamento até então destinado exclusivamente ao romance ou ao conto. Isso, e mais: descobriu-se que um artigo jornalístico podia – deveria, na verdade – recorrer a todos os artifícios literários (diálogos, monólogos interiores, teorizações ensaísticas), simultaneamente e dentro de um espaço breve, capturando o leitor, emocional e intelectualmente. Nada mal. Mas bem difícil de concretizar.

Onde nasceu o new journalism? A sangue frio foi publicado em capítulos pela revista New Yorker, antes de virar livro. Antes de virar livro, The Kandy-Kolored... foi publicado em capítulos pela revista Esquire. O mesmo se passou com The White Negro, que, antes de ser incluído numa coletânea de ensaios de Mailer, foi publicado pelo semanário The Village Voice. Ou seja, o new journalism nasceu no seio do jornalismo – porém em revistas ou em jornais alternativos. Um tanto distante da grande imprensa, portanto.

E por que nasceu o novo jornalismo? Porque a literatura americana da virada dos anos 60 se revelou incapaz de acompanhar as vertiginosas mudanças culturais e comportamentais da nação. E a nação queria um novo texto, um novo estilo, um novo... jornalismo. Saul Bellow, John Updike, Philip Roth tremeram na base com a chegada dos “novos bárbaros”, que de imediato lhes roubaram a cena.

Respondidas as perguntas básicas e elementares do velho jornalismo – “quando, onde e por quê?” – é hora de saber “quem” lançou os alicerces do estilo que mudou o jeito de contar a história, e “como” isso foi feito.

O sangue quente de Capote

Truman Capote foi o Marcel Proust da era pós-macarthista, o Flaubert dos loucos anos pop, um artífice da palavra, condenado a viver na época em que a palavra estava sendo maculada, humilhada e ofendida, virada pelo avesso, travestida pelo avanço desmedido da publicidade, pela voracidade da mídia, pela própria futilidade dos discursos vazios da política e da comezinha vida cotidiana. Truman Capote foi um estilista meticuloso que nasceu atrasado mas se dispôs a registrar, com requinte e minúcia, a crônica das décadas que Tom Wolfe chamou de “púrpuras”: os anos 60 e 70. Foi um jet setter que amou e odiou o jet set, embora soubesse – ou talvez por isso mesmo – que jamais poderia viver sem jantares suntuosos, festas de arromba, cruzeiros a bordo de iates, villas à beira-mar. Truman Capote mordeu a mão que o alimentava e escreveu uma crônica doentiamente raivosa sobre o jet set. Truman Capote nunca foi exatamente um jornalista, mas mudaria para sempre a história do jornalismo ao redigir A sangue frio, seu “romance de não ficção”.

Ele estava submerso numa crise profissional quando abriu o New York Times naquela histórica manhã de 16 de novembro de 1959 e deparou com a notícia da morte da família Clutter, no longínquo, impensável, quase mitológico Kansas – “tão remoto quanto a lua”. Depois de convencer William Shawn, o diretor da New Yorker, de que valeria a pena enviá-lo para Holcomb – o vilarejo onde o crime ocorrera – e também de dizer ao homem que “simplesmente” não encontrava um fim para o artigo de quarenta páginas que estava escrevendo sobre Moscou, Capote embarcou num trem rumo ao Meio-Oeste. Sua viagem resultaria, seis anos mais tarde, num dos mais profundos e perfeitos documentos da América dos anos 60. Muito mais do que isso: Capote foi capaz de dissecar até os limites impostos pela literatura, pela sanidade e pela própria realidade, os meandros da vileza humana e os desatinos do destino.

O domínio emocional de Truman Capote sobre o material verdadeiramente avassalador que ele foi capaz de colher em Holcomb (mais de duzentos depoimentos, duas cartas por semana durante cinco anos de correspondência ininterrupta com os dois assassinos, entrevistas com policiais, vizinhos, psiquiatras, agentes penitenciários, parentes de matadores e mortos), seu distanciamento engajado, sua precisão descritiva, sua acuidade psicológica, seu estilo jornalisticamente irretocável e literariamente refinado, o ritmo de sua prosa, a pulsação a um só tempo frenética e contida da história, suas reflexões sobre a gratuidade de um crime brutal, o peso devastador da mão do destino tal como Capote capturou-o – dando-lhe a forma na trajetória convergente dos assassinados e dos assassinos numa noite sem estrelas nas lonjuras desoladas do Kansas –, tudo isso fez de A sangue frio um clássico eterno. 

Quando o livro enfim foi publicado, em janeiro de 1966 – poucas semanas depois do enforcamento dos assassinos, Perry Smith e Dick Hickock, na penitenciária estadual do Kansas –, a máquina da mídia (revistas, TV, jornais e rádio) tornou-se uma banda gigante a ressoar uma só melodia: Truman Capote, Truman Capote. Inimigos e desafetos saíram à caça de supostas incorreções – ou “licenças poéticas” – num livro que Capote anunciara como “rigorosamente documental”. Mais: num livro que batizara acintosamente de “o primeiro romance de não ficção da história”.

Mesmo que houvesse deslizes factuais – e não havia: os candidatos a detratores do livro só conseguiram descobrir que o cavalo da filha de Clutter não tinha sido vendido “a um forasteiro”, mas a um fazendeiro da região –, A sangue frio já seria um dos mais admiráveis relatos da tragédia americana. Ao se revelar irretocavelmente exato depois de submetido a tantos repórteres transformados em detectores de mentiras, tornou-se um livro alquímico, capaz de transfigurar a realidade e desnudá-la em toda a sua – para sempre sua – inexorabilidade insondável e brutalidade gratuita.

Tom Wolfe no ônibus dos insensatos

Tom Wolfe é o Andy Warhol das letras. Ele incorporou as latas de sopa Campbell, as cintilâncias do neon, o tilintar do dinheiro fácil, o colorido faiscante do imaginário pop – Marilyns Monroes borradas, James Deans silhuetados, a pélvis balançante de Elvis – ao vocabulário contemporâneo e ao mundo fugaz (a partir dele apreendido e capturado mesmo em sua futilidade fugidia) do jornalismo diário – ou melhor, do “novo jornalismo” diário. 

Tom Wolfe inaugurou uma nova época e fez luzir em tons mais hipnóticos o sol nas bancas de revistas. Tom Wolfe não teve preguiça para nos mostrar quem lê tanta notícia. Ou pelo menos por que as lê. Tom Wolfe é o Frank Lloyd Wright da arquitetura verbal. Seus projetos foram sempre mais ousados, mais surpreendentes – e mais utilitários – do que os dos concorrentes. Tom Wolfe é um ladrão de casaca, sacando ideias mais rapidamente do que os presentes e usurpando da realidade os temas e os tons que, na mão de jornalistas comuns, se tornariam comuns e tediosos como eles próprios e, nas mãos de Wolfe, transformaram-se em histórias tão exemplarmente elucidativas como se fossem parábolas bíblicas. Tom Wolfe é o pai fundador de uma nova religião – cínica e excludente como o próprio coração da América.

Tom Wolfe transformou a América numa imensa, inesgotável pauta para seu “novo jornalismo”. Ao descobrir, no verão de 1967, que o país estava sendo percorrido pela mais alucinada das caravanas, pelos argonautas do delírio, por ciganos lisérgicos reunidos sob o manto protetor do escritor Ken Kesey, Tom Wolfe decidiu seguir-lhes a trilha e devastar-lhes a utopia. O resultado materializou-se naquele que muitos consideram o melhor livro de Wolfe antes da comédia humana nova-iorquina que é A fogueira das vaidades. O teste do ácido do refresco elétrico é o mais implacável retrato da era hippie, o mais sarcástico e o mais corrosivo, ainda que muitas de suas páginas sejam perpassadas por uma sutil complacência (talvez um disfarce para a autopiedade de Wolfe, extensiva à humanidade).

O estilo caleidoscópico, vertiginoso, relampejante de Tom Wolfe adaptou-se com perfeição à demencial odisseia liderada por Ken Kesey e seu ônibus dos insensatos. O teste do ácido do refresco elétrico foi lançado no Brasil em fins de 1993. Passou despercebido. Vendeu pouco, foi quase ignorado pelos jornais e precisa ser garimpado nas livrarias por leitores dispostos a transpor-lhe as fronteiras. Trata-se de um livro quase operístico, despretensiosamente épico, burlesco, redigido em pequenos estilhaços de prosa sempre incontida e com o texto tropeçando numa vertente de adjetivos que, de forma incompreensível, Wolfe consegue manter não apenas a seu serviço, mas a serviço da clareza e do prazer do leitor.

A saga de Ken Kesey prescindia de um cronista tão admirável. Era alucinante por si só. Kesey, ele mesmo um grande escritor – autor de Sometimes a Great Notion e do clássico Um estranho no ninho –, era um doidão convicto e ativista. Foi preso, fugiu para o México e voltou para os Estados Unidos a tempo de desfrutar do boom do psicodelismo. Desfrutar, não: deflagrá-lo. Kesey pintou um velho ônibus escolar de 1939 com as cores mais berrantes que o espectro poderia lhe oferecer, arrebanhou o bando mais demencial que pôde juntar, convidou Neal Cassady (o lendário Dean Moriarty de On the Road) para dirigir aquela banheira sobre rodas e o grupo de rock Grateful Dead para fazer a trilha sonora ao vivo. Kesey sentia-se engajado numa guerra santa: embeber a América em LSD. And take no prisioners.

Batizado Further (“Adiante” ou “Em frente” em tradução livre), o ex-ônibus escolar passou a conduzir outra espécie de professores e alunos: foi levado a rodar pelas estradas da Califórnia, no verão de 1964, parando em cidadezinhas, montando seu circo de som e luz – longos, loucos concertos gratuitos do Dead – para que os sacerdotes Kesey e Cassady e seus coroinhas do ácido pudessem distribuir LSD para quem quisesse. E para quem não quisesse também.

Tom Wolfe perdeu boa parte da viagem. Recuperou-a com entrevistas, cartas, consultas a filmes e fitas. Conquistou a simpatia de Kesey – algo virtualmente impensável. Pegou umas caronas no ônibus antes que ele fosse definitivamente banido, junto com o próprio LSD (até então legal), pela administração Reagan – na época esse sujeito era governador da Califórnia. Com o material que tinha nas mãos, Wolfe delineou um painel dolorosamente melancólico da “nova sociedade” que a garotada de Kesey julgava estar forjando. O ônibus nos é apresentado como palco de uma tragicomédia que repete o que o “mundo exterior” tinha de pior. Um microcosmo megalomaníaco e competitivo da América, embebido em ácido e cercado pelo coturno reluzente dos tiras por todos os lados.

Quando o ônibus de Ken Kesey se revelou apenas uma bad trip, Tom Wolfe já estava longe, diagnosticando, com o mesmo rigor cubista, alguma outra doença da América.

Norman Mailer espiona a CIA

Norman Mailer é o Cassius Clay da literatura americana, sempre decidido a vencer por nocaute e inclinado a bater sem piedade, mas com técnica e elegância. Ele nunca quis ser o Mike Tyson, cara! As frases de Mailer distribuem uma sequência avassaladora de jabs nos ângulos mais impertinentes do texto e uns quatro ou cinco diretos definitivos partem na busca incessante do plot exato e do ritmo correto da prosa. Mailer pega no fígado da literatura molenga. Norman Mailer é o Ernest Hemingway da era do napalm e do isopor. Sua escrita é máscula, tabagista, confessional, egocêntrica, competitiva, agressiva, neurótica, devassa, inconformista e parece estar, às vezes, exausta e incuravelmente neurótica. De qualquer forma, sempre dá um jeito de deixar o hospital sem ter recebido alta e voltar às ruas para circular por onde os anjos temem ser vistos. Norman Mailer é um garanhão: cercas não podem contê-lo. Rédeas e selas tampouco.

Norman Mailer


Não é só o texto de Mailer que se apresenta de maneira descaradamente heterossexual, narcisista e competitiva. O próprio homem é assim. Por isso, ele entrou cedo na perseguição incessante do “tema perfeito”, da pauta exata na hora e na busca do tom inatacável – os elementos que perpassam e definem a eterna competição entre os jornalistas norte-americanos dispostos a definir o espírito da época e a cara medonha do país. Quem terá ido mais longe do que ele no cumprimento dessa tarefa?

Norman Mailer narrou a corrida à Lua em pinceladas rápidas e cínicas, sem deixar o encantamento de lado (quase duas décadas antes de Tom Wolfe compor Os eleitos). Tornou a brutalidade do boxe um espetáculo de requinte gótico. Biografou Marilyn Monroe com a devoção exigida pelo grande sonho molhado da América. Revisitou o Vietnã com sua câmera detalhista e cruel. Acompanhou a efervescência política da década de 60 com o olhar cético e meticuloso do caçador comprometido apenas com a queda da presa. Penetrou na mente de um assassino com o mesmo e espantoso rigor de Truman Capote (ainda que o tenha feito duas décadas depois), em A canção do carrasco. Desafiou John Kennedy. Ficou milionário, obeso, famoso, intratável.

Em 1994, antes de contar o “evangelho segundo Jesus Cristo” [seu último livro publicado em vida, em 1997 – depois viria o póstumo O castelo na floresta, sobre a infância de Hitler, lançado só em 2007], Norman Mailer apontou sua carabina verbal de cano cerrado, acostumada a abater muitos elefantes, em direção à mastodôntica CIA, sua tromba enxerida, seus tentáculos e sua viscosidade pegajosa. Pela alça de mira de Mailer vislumbramos O fantasma da prostituta – Um romance da CIA. Trata-se de uma água-forte, impressa em tintas ácidas, feita para macular o papel e as reputações. É um livro tipicamente Mailer: espaçoso, loquaz, irado, imprudente, vesicatório. O velho Norman segue suas normas e nos transporta para a época da Guerra Fria – a Baía dos Porcos, as contrarrevoluções exportadas para a América Latina, África e Ásia, a corrida armamentista, o poder militar instalado no coração da Casa Branca, a inescrupulosidade e hipocrisia da democracia americana – só para nos lembrar que a besta sobrevive e que daqueles anos para cá nada mudou tanto assim. Ou talvez ele o tenha feito de forma tão eloquente, vitoriosa e épica (são mais de 1.300 páginas) apenas para deixar claro que ele próprio também não mudou tanto assim: continua sendo o grande, o arrogante, o inigualável, o único Norman Mailer.

10 de abril de 1994


 Jason Lima

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COMO LER UM ROMANCE

Ao começar a leitura de um romance, é comum, quando a obra possui alguma complexidade e exige uma atenção textual um pouco maior do leitor, perder-se nas complexidades da história e dos personagens. No entanto, há métodos que podem enriquecer a experiência literária, proporcionando uma compreensão mais profunda da obra como um todo.

A lição de leitura, 1912,
de Léon-Augustin L’Hermitte (França, 1844 -1925).


Um aspecto fundamental a considerar é o papel do narrador na história. Dado que os romances são obras ficcionais, os narradores são igualmente fictícios, e sua relação com a trama pode variar. Pode-se questionar se o narrador é um participante da história ou se mantém uma posição separada. Ele sabe tudo ou apenas o que determinados personagens sabem? A confiança em quem conta a história é uma questão crucial, pois narradores não confiáveis podem ser pistas valiosas para desvendar os significados ocultos de um livro. É prudente, pois, ser cauteloso em relação a narradores que parecem estar sob efeito de álcool, drogas ou algum estado alterado (como em Laranja Mecânica, de Anthony Burgess), com deficiência intelectual ou social (como em O Som e a Fúria, de William Faulkner e O estranho caso do cachorro morto, de Mark Haddon) ou que tenham motivos para mentir, especialmente relacionados a crimes ou más condutas (como em Dom Casmurro,de Machado de Assis, ou em Lolita de Vladimir Nabokov). A compreensão da confiabilidade do narrador pode ser fundamental para desvendar as camadas mais profundas do enredo.

Uma sugestão valiosa também é buscar uma frase ou passagem breve que capture, em miniatura, a essência da experiência do leitor com a obra. Essa passagem pode ser um argumento central, um momento crucial ou até mesmo a descrição de algo aparentemente trivial, como o clima, o rosto de uma pessoa ou a sensação da pelagem de um gato. Identificar essa sentença e explicar por que ela é considerada importante, representativa ou reveladora pode conduzir a uma análise interessante e perspicaz sobre a obra como um todo.

Outro ponto crucial é analisar o estilo da narrativa. A escolha do autor em relação à estrutura, seja através de cartas, entradas de diários ou narrativa convencional, revela informações importantes sobre o que está sendo contado. A complexidade linguística, a escolha de palavras e a estrutura das frases também são elementos a serem considerados. O modo como a história é contada muitas vezes reflete o que está sendo contado.

Jovem com um livro (1886),
de Pierre Auguste Renoir (França, 1841-1919).


É igualmente útil, ao longo da leitura, resumir os principais eventos de cada capítulo ou parte. Esse exercício proporciona uma pausa para reflexão sobre as mudanças ocorridas, o crescimento dos personagens, o desenvolvimento da trama e se há um retorno ao ponto de partida. A construção de resumos sucessivos cria um esboço do romance, permitindo ao leitor visualizar a progressão da narrativa.

Além disso, observar as transformações dos personagens é uma prática relevante. Identificar como um personagem evolui ao longo de um capítulo possibilita compreender as razões por trás dessas mudanças. Essa análise contribui para uma compreensão mais profunda da psicologia dos personagens e das motivações que impulsionam a trama.

Finalmente, ordenar cronologicamente o enredo, se ainda não estiver disposto dessa forma, pode esclarecer a estrutura narrativa. Embora histórias apresentadas fora de ordem possam parecer complexas, muitas vezes a dificuldade está na disposição dos eventos e não na trama em si. A compreensão da ordem cronológica facilita a visualização do fluxo narrativo.

Essas práticas podem ajudar você a aproveitar melhor um romance. Desvendar os elementos-chave da obra amplia a compreensão e enriquece a apreciação da complexidade e riqueza literária presente no romance.

 Jason Lima

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sexta-feira, 1 de março de 2024

OS NOVE POETAS LÍRICOS DA GRÉCIA ANTIGA E A POESIA MÉLICA

No auge do Período Arcaico da Grécia, a poesia mélica surgiu, ligando-se aos desenvolvimentos sociais na polis e ao florescer cultural que acompanhava a expansão grega para a Ásia Ocidental e as ilhas do Egeu. 

 A palavra “mélica” em grego está relacionada à música e ao canto, e a poesia mélica era frequentemente acompanhada de música, daí o nome. Muitas vezes, essa poesia é também conhecida como poesia lírica, pois os poetas frequentemente usavam a lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições.

A expressividade emocional e a musicalidade marcante caracterizavam essa poesia, encontrando destaque entre os nove poetas líricos da Grécia Arcaica. Nomes como Safo e Píndaro destacavam-se nesse gênero. Estes artistas habilidosos faziam uso da lira, um instrumento musical, para acompanhar suas composições, resultando na designação do termo "lírica."

A poesia grega antiga era, ao mesmo tempo, uma forma literária e uma experiência coletiva destinada à apresentação pública. Acompanhada por música e dança, ela desempenhava um papel integral na vida social e cultural dos gregos antigos. Festivais religiosos, banquetes e competições eram palcos nos quais a poesia ganhava vida, envolvendo a comunidade em uma experiência emocional compartilhada.

A expressão poética grega era também um meio pragmático de interação social e discussão política. Os poetas abordavam questões de justiça, honra e a natureza do universo, fornecendo uma plataforma para criticar ou elogiar indivíduos e cidades. A poesia tornou-se uma voz influente na esfera pública, moldando opiniões políticas e sociais.

Além disso, a arte poética atuava como uma ferramenta educacional essencial na Grécia antiga, transmitindo valores e modelos de comportamento por meio de mitos. A paideia poética orientava os gregos, explorando e questionando significados mitológicos. Esses mitos eram entrelaçados na trama da sociedade, influenciando a visão de mundo e as escolhas éticas dos indivíduos. A poesia mélica estabelecia, pois, uma estreita relação com a rica mitologia grega, frequentemente explorando temas míticos em suas composições. Por exemplo, a poeta Safo tornou-se conhecida por suas representações envolventes da deusa Afrodite em suas obras, mergulhando na riqueza narrativa do panteão grego.

A formação do cânone poético, realizada pelos filólogos de Alexandria, teve um impacto duradouro no gosto literário e na transmissão cultural subsequente. A seleção criteriosa dos nove poetas líricos como representantes exemplares da poesia grega influenciou a leitura e interpretação das obras antigas em épocas posteriores. Essa catalogação proporcionou uma base para a preservação e apreciação contínua desses escritores. Os nove poetas são estes:


1. Alcman:

Poeta lírico coral da Grécia Antiga proveniente de Esparta, Alcman destaca-se como o representante inaugural do cânone alexandrino dos Nove Poetas Líricos. Ativo possivelmente no final do século VII a.C., Alcman deixou um legado de seis livros de poesia coral, a maior parte agora perdida, preservada apenas em citações de outros autores antigos e em fragmentos de papiros descobertos no Egito. Sua obra, escrita no dialeto dórico local com influências homéricas, é principalmente composta por hinos, caracterizando-se por estrofes longas formadas por versos em diferentes metros.

Quanto à sua biografia, as datas precisas de Alcman são incertas, mas provavelmente ele esteve ativo no final do século VII a.C. A origem dele é contestada, com algumas fontes sugerindo Sardes, na Lídia, e outras reivindicando Messoa, na Lacônia. Algumas tradições relatam que Alcman foi trazido como escravo para a família de Agesidas em Esparta, onde sua habilidade excepcional levou à sua emancipação. Acredita-se que ele tenha falecido devido a uma infestação de piolhos, embora essa informação possa ter sido confundida com o filósofo Alcmeão de Croton.

Em seu conjunto, a poesia de Alcman traz tópicos variados, desde a exaltação dos deuses até a natureza e os rituais festivos, destacando-se por uma linguagem visual rica e uma tonalidade leve e agradável. 

Alcman


2. Alceu:

Alceu de Mitilene (c. 625/620 a.C. - c. 580 a.C.) foi um poeta lírico da ilha grega de Lesbos, creditado por inventar a estrofe alcaica (quatro versos, sendo os dois primeiros hendecassílabo). Nasceu na classe aristocrática de Mitilene, onde esteve envolvido em disputas políticas. Ele viveu durante um período de lutas pelo poder, marcado por três tiranos sucessivos. Após o governo de Pittacus, o líder político dominante, Alceu e sua facção foram autorizados a retornar a Mitilene.

Durante seu exílio, Alceu possivelmente viajou extensivamente, incluindo uma visita ao Egito. Ele escreveu versos celebrando o retorno de seu irmão Antimenidas, um mercenário na Babilônia. O poeta era contemporâneo e compatriota de Safo, e ambos eram membros da escola lírica de Lesbos. Embora fosse sugerido que Alceu e Safo fossem amantes, isso permanece como tema de especulação.

Os trabalhos poéticos de Alceu foram compilados em dez livros, mas hoje existem apenas em forma fragmentária. Ele era conhecido por sua versatilidade em temas, abordando desde canções políticas e de amor até hinos. Os estudiosos o comparam frequentemente a Safo, destacando a variedade de seus assuntos e a simplicidade de seus metros. Poetas romanos como Horácio se inspiraram em Alceu para criar suas próprias composições líricas.

Alceu


3. Anacreon:

 Anacreon foi um poeta lírico grego, nascido por volta de 575 a.C. ou 570 a.C., em Teos, na Jônia (Turquia moderna). Reconhecido por suas canções de bebedeira e poemas eróticos, Anacreon foi incluído pelos gregos posteriores na lista canônica dos Nove Poetas Líricos. Escrevendo exclusivamente no antigo dialeto jônico, suas composições eram destinadas a serem cantadas ou recitadas ao som da lira.

A vida de Anacreon é envolta em alguma incerteza cronológica, mas ele provavelmente viveu no século VI a.C. Mudou-se para Samos, onde educou Polícrates, futuro tirano da ilha, antes de ser convidado para Atenas por Hiparco, que ascendia ao poder por volta de 528/7 a.C. Não se sabe ao certo quando Anacreon deixou Atenas, mas evidências sugerem sua presença até depois do assassinato de Hiparco em 514 a.C.

Apesar de sua reputação como autor de hinos, Anacreon também compôs líricas bacanais e amorosas. Contudo, sua representação como um poeta bêbado e luxurioso foi estabelecida na época helenística. Seus escritos influenciaram a tragédia ateniense do século V a.C., e seu impacto persistiu na literatura posterior, com autores como Horácio fazendo referências frequentes a ele.

Anacreon


4. Baquílides:

Baquílides (518 a.C. a 451 a.C.) foi um poeta lírico grego que mais tarde foi inserido na lista canônica dos Nove Poetas Líricos, que incluía seu tio Simônides. Ele é elogiado por sua habilidade narrativa, imagens vívidas e toques habilidosos que dão vida às descrições.

Baquílides frequentemente foi comparado desfavoravelmente com seu contemporâneo Píndaro. Embora compartilhem repertórios semelhantes, Baquílides é considerado mais simples e menos filosófico. Essa abordagem mais suave o tornou apreciado por leitores que encontravam prazer em sua poesia sem exigir muito esforço.

Sua carreira coincidiu com o surgimento de estilos dramáticos na poesia, representados por obras de Ésquilo ou Sófocles, sendo considerado um dos últimos poetas de grande importância dentro da tradição mais antiga da poesia lírica.

Os poemas de Baquílides são conhecidos por sua clareza e simplicidade, tornando-os uma introdução ideal ao estudo da poesia lírica grega em geral e aos versos de Píndaro em particular.

Quanto à sua vida, pouco se sabe com certeza devido às fontes compiladas muito depois de sua morte. Ele nasceu em Ioulis, na ilha de Ceos, e, segundo algumas tradições, foi banido por um tempo de sua terra natal. Sua fama cresceu gradualmente, e ele contava com patronos em várias regiões do Mediterrâneo. Suas composições eram encomendadas por aristocratas ambiciosos, e ele competiu com Píndaro por essas encomendas. Baquílides obteve sucesso notável com o patrocínio de Hieron de Siracusa. Sua obra foi colecionada no final do século III a.C. pelo estudioso Aristófanes de Bizâncio.

A maioria dos poemas sobrevive apenas em fragmentos, mas em 1896, uma descoberta de papiros no Egito trouxe à luz parte do trabalho de Baquílides, proporcionando uma visão mais completa de sua arte. 

Baquílides


5. Píndaro:

Píndaro (518 a.C. - 438 a.C.) foi um poeta lírico grego da antiga cidade de Tebas. Entre os nove poetas líricos canônicos da Grécia Antiga, sua obra é a mais bem preservada. Ele é elogiado por sua magnificência inspirada, pela beleza de seus pensamentos, pela riqueza exuberante de sua linguagem e pelo fluxo eloquente de sua retórica. Quintiliano afirmou que, entre os nove poetas líricos, Píndaro é o maior.

Sua poesia, porém, pode parecer difícil e peculiar. O comediógrafo ateniense Eupolis chegou a comentar que suas obras "já foram reduzidas ao silêncio pela falta de interesse da multidão em aprender elegância". No entanto, a descoberta de poemas de seu rival Bacílides em 1896 revelou que muitas das idiossincrasias de Píndaro eram típicas de gêneros arcaicos em vez de exclusivas do poeta.

Píndaro foi o primeiro poeta grego a refletir sobre a natureza da poesia e o papel do poeta. Sua poesia ilustra as crenças e valores da Grécia Arcaica no início do período Clássico. Ele expressa uma fé apaixonada no que os homens podem realizar pela graça dos deuses. 

Píndaro nasceu por volta de 518 a.C. em Cinoscefalas, uma vila na Beócia, perto de Tebas. Desde jovem, estudou poesia lírica em Atenas.

Sua carreira coincidiu com as Guerras Greco-Pérsicas, e ele celebrou vitórias gregas contra os invasores persas em suas odes. Píndaro usava suas odes para promover seus interesses e os de seus amigos, enaltecendo a nobreza de suas linhagens e suas vitórias atléticas. Ele viajou por toda a Grécia para atender a várias encomendas e competir com outros poetas.

Sua associação com Sicília, especialmente com o rico Hierão, causou desconforto em sua cidade natal, Tebas. Ele também recebeu críticas por elogiar Atenas em suas odes, o que levou a uma multa imposta por Tebas. 

Píndaro viveu até cerca de 80 anos, morrendo por volta de 438 a.C. Ele faleceu durante um festival em Argos, e suas cinzas foram levadas de volta a Tebas por suas filhas. Postumamente, recebeu homenagens, e sua casa em Tebas foi poupada por Alexandre, o Grande, quando ele destruiu a cidade em 335 a.C., devido aos elogios nas odes a seu ancestral.

Os valores e crenças de Píndaro são inferidos de sua poesia. Ele exaltava a poesia coral, justificando-a como uma tradição essencial. Seus deuses eram retratados tradicionalmente, sem diminuição de dignidade, e ele evitava degradá-los moralmente. Heróis míticos, sendo descendentes de uniões divinas, eram intermediários entre deuses e homens, e Píndaro os apresentava como simpáticos às ambições humanas. O poeta enfatizava que, ao homenagear tais homens, estava honrando os próprios deuses.

Píndaro, como poeta, acreditava que sua inspiração vinha das Musas, e sua habilidade era moldar essa inspiração com sabedoria e habilidade. Suas obras mostram inovação no uso de gêneros líricos, mas ele não criou novos gêneros. Ele compôs principalmente em um dialeto literário que misturava o dórico com elementos eólicos e épicos, às vezes incorporando palavras beócias.

Píndaro


6. Ibico:

Ibico foi um poeta lírico da Grécia Antiga, cidadão de Rhegium em Magna Grécia, provavelmente ativo em Samos durante o reinado do tirano Polícrates. Nascido em Rhegium, ele teria enlouquecido por amores juvenis e, curiosamente, é creditado como o inventor da "sambyke", uma cítara triangular. Sua vida é marcada por um destino trágico; capturado por bandidos em um local isolado, profetizou que as gruas que voavam acima seriam seus vingadores. Após seu assassinato, as gruas foram avistadas na cidade, revelando a verdade e originando o proverbial "as gruas de Ibico".

As narrativas sobre Ibico muitas vezes se misturam ao mito. O relato da sua morte, registrado por fontes como Plutarco, Antípatro de Sidon e mais tarde imortalizado por Friedrich Schiller em "As Gruas de Ibycus", pode ter raízes na combinação do nome do poeta com a palavra grega para a ave, "íbyx". Outro provérbio associado a Ibico destaca sua recusa nobre (ou tola) em se tornar tirano de Rhegium, optando pela carreira poética.

Ibico desempenhou um papel crucial na evolução da poesia lírica grega, atuando como mediador entre estilos orientais e ocidentais. Seu trabalho, preservado em sete livros na dialeto dórico, revela uma fusão intrincada de estilos corais e solistas. Ele abordou temas mitológicos, muitas vezes com variações originais, e estruturou seus versos em tríades, uma técnica que influenciou poetas posteriores.

Apesar de sua vida envolta em mistérios, Ibico é mais conhecido por suas composições líricas que exploram o amor e a natureza. Seus versos, ainda que fragmentados, capturam a intensidade emocional e a paixão.

Ibico


7. Safo:

Safo foi uma poeta grega nascida em Eresos ou Mitilene, na ilha de Lesbos, por volta de 630 a.C. e faleceu aproximadamente em 570 a.C. Ela é reconhecida por sua poesia lírica, destinada a ser cantada com acompanhamento musical. Na antiguidade, Safo era amplamente considerada uma das maiores poetas líricas, recebendo epítetos como "Décima Musa" e "A Poeta". A maioria de seus poemas se perdeu ao longo do tempo, restando apenas fragmentos, sendo "Ode a Afrodite" o único poema completo conhecido. A poesia de Safo era admirada na antiguidade, influenciando outros escritores. Seu estilo poético era conhecido por sua clareza, imagens vívidas e proximidade emocional.

Sobre sua vida, pouco se sabe com certeza. Ela era de uma família abastada de Lesbos, com três irmãos, Charaxos, Larichos e Eurygios. Acredita-se que tenha escrito em torno de 10.000 versos, destacando-se na poesia de amor, mas também abordando temas familiares e religiosos. Exilada para a Sicília em 600 a.C., sua morte é lendária, dizendo-se que pulou dos penhascos de Leucadia devido a um amor não correspondido pelo barqueiro Phaon.

Apesar de sua poesia ter sido amplamente admirada, muitos de seus escritos foram perdidos ao longo dos séculos, contribuindo para a mitologia e mistério em torno de sua figura. Sua influência perdura, e Safo permanece uma figura significativa na história da literatura e na representação da expressão artística feminina.

Safo


8. Simônides:

Simônides de Ceos (cerca de 556-468 a.C.) nasceu em Ioulis na ilha de Ceos. Muito considerado pelos estudiosos helenísticos, ele desempenhou um papel ativo em eventos importantes e interagiu com personalidades influentes de sua época.

Na era do Iluminismo, Lessing o comparou ao "Voltaire grego". Sua fama, influenciada por relatos coloridos de sua vida, o retratava como sábio e avarento. Simônides foi creditado com a invenção de um sistema mnemônico e contribuições para o alfabeto grego.

Como poeta, seu reconhecimento baseava-se na capacidade de apresentar situações humanas com simplicidade tocante. Quintiliano o elogiou pelo poder de evocar piedade, superando outros escritores do gênero. Ele foi especialmente associado a epitáfios, como os dos guerreiros caídos na Batalha de Termópilas.

Embora fragmentos de sua poesia tenham sobrevivido, arqueólogos em Oxyrhynchus, no Egito, continuam a descobrir novos fragmentos. Detalhes de sua vida são incertos, com relatos conflitantes sobre suas datas de nascimento e morte. Ele foi associado a Ceos, Atenas, Tessália, e passou seus últimos anos na Sicília, notadamente fazendo amizade com Hieron de Siracusa.

O impacto de Simônides durante as Guerras Persas foi significativo. Ele compôs versos comemorativos para vários estados gregos, incluindo epitáfios, epigramas dedicatórias e poemas sobre batalhas como Termópilas, Artemísio, Salamina e Plateia. Sua rivalidade com Ésquilo e seu papel na comemoração da vitória em Maratona aumentaram sua proeminência.

Simônides 


9. Estesícoro:

Estesícoro (aproximadamente 630 a.C. - 555 a.C.) ganhou destaque por contar histórias épicas em metros líricos e teve tradições antigas associadas à sua vida. Estesícoro é mais conhecido por sua oposição ao tirano Fálaris.

Apesar de ser considerado um dos nove poetas líricos importantes pelos estudiosos de Alexandria, poucos fragmentos de sua poesia sobrevivem, e ele não despertou grande interesse entre os antigos comentaristas. Descobertas recentes, como o Papiro de Lille, proporcionaram uma melhor compreensão de seu trabalho, confirmando seu papel como uma ponte entre a narrativa épica de Homero e a narrativa lírica de poetas como Píndaro.

Estesícoro nasceu em Metauros, na Calábria, por volta de 630 a.C., e morreu em Catânia, na Sicília, em 555 a.C. Ele era um poeta lírico que escrevia em dialeto dórico e produziu 26 livros de poesia. Uma tradição conta que Estesícoro ficou cego por escrever contra Helena, recuperando a visão ao compor um elogio a ela, chamado de Palinode, após um sonho.

Suas obras incluíam temas épicos, como a "Saque de Troia", "Retornos" (sobre o retorno dos guerreiros gregos de Troia) e "Geryoneis" (sobre o roubo do gado de Gerião por Héracles). Estesícoro também teve influência na representação mitológica na arte do século VI a.C. e no desenvolvimento da poesia dramática em Atenas.

Estesícoro

 Jason Lima

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OS NÚMEROS E OS PÃES OU MUITO MAIS QUE ISSO

Não, não estou aqui tentando colocar conceitos matemáticos abaixo. Nunca ousaria me meter numa área sobre a qual não tenho domínio. A questão é meramente linguística.

Havia no latim o verbo plicare, com significado de dobrar, enroscar, trançar. Ele deu origem a vários vocábulos portugueses. Temos esse verbo plicar na nossa língua, com o sentido de dobrar, fazer pregas em roupas.

Plica, além de significar dobra e prega, é usado como sinônimo de acento agudo de uma palavra (´) e nomeia o sinal (‘), utilizado para indicar, na fonética, a sílaba tônica – ao se antepor a ela – (/abaka’xi/); e para designar “linha” em matemática quando posto no alto à direita da letra (b’ = bê linha).

De plicare, também surgiu o nosso verbo chegar. Isso se deve à expressão plicare velam, “dobrar, enrolar a vela”, algo comum quando o barco chegava ao porto.

Várias outras palavras portuguesas surgiram do verbo latino plicare. Vejamos algumas: aconchego, amplexo, aplicar, aplicativo, complexo, complicar, cúmplice, dúplex, empregar, empreitar, espreitar, explicar, explicitar, implicar, implícito, perplexidade, réplica, simples, suplicar, tríplex, triplo.

Daí então temos também as palavras duplicar, triplicar... e multiplicar. O prefixo multi- origina-se de multus e significa muito, abundante, numeroso, em grande quantidade. Logo, multiplicar expressa, em sua origem, “aumentar, tornar várias vezes maior em número”.


Ora, então como podemos “multiplicar” por 1 ou por 0, se não haverá, como resultado, um “aumento em número”?

O resultado da multiplicação por um é o próprio número, e o resultado da multiplicação por zero é sempre zero. Não há, pois, literalmente uma multiplicação, pois não há aumento.

Por outro lado, podemos ainda pensar que o resultado da multiplicação sempre é um novo número, mesmo sendo o mesmo. Isto é, 2x1 = 2, mas este dois é outro número e não mais o primeiro, porque o primeiro 2 é um fator; o segundo 2, um produto.

Claro está que os significados das palavras se modificam com o tempo. Não podemos pensar hoje multiplicar apenas como algo a realizar um “aumento em número”. Embora a palavra originalmente significasse “dobrar várias vezes”, ao longo do tempo, o significado se expandiu para se referir a qualquer operação matemática que envolva a combinação de quantidades para obter um resultado menor, igual ou maior que o proposto inicialmente.

Como ilustração, estes são os significados de multiplicar elencados pelo Dicionário Houaiss:


1 aumentar a quantidade de (seres, objetos etc.);

1.1 render grande quantidade; fazer nascer; produzir muito;

1.2 produzir de novo; copiar, reproduzir;

1.3 produzir seres da mesma espécie; aumentar a prole; proliferar;

2 tornar(-se) difundido; espalhar-se, propagar-se;

3 insistir em, tornar mais frequente; repetir com persistência;

4 desenvolver várias atividades;

5 fazer a operação da multiplicação; repetir um número tantas vezes quantas forem as unidades de outro.

 

Observe que todos os sentidos mostrados pelo dicionário implicam a ideia de acréscimo e variedade. O prefixo multi- dá a tônica da palavra.

Vejamos o significado original de alguns derivados de plicare:

  • aplicar: dobrar para (justapor);
  • complicar: dobrar junto, embaraçar;
  • explicar: dobrar para fora (desdobrar);
  • implicar: dobrar junto, dentro, unir;
  • suplicar: dobrar para baixo (ajoelhar-se).

Mas uma outra pergunta surge: se, segundo o Evangelho de Marcos (6:30-56), Jesus conseguiu saciar a fome de quase cinco mil homens com apenas cinco pães e dois peixes, ele fez foi uma multiplicação ou uma divisão dos alimentos?

O milagre é bem conhecido como o “milagre da multiplicação dos pães e dos peixes”. Se ele tivesse multiplicado, haveria então milhares de peixes. Contudo, o texto bíblico diz assim: “E, tomando ele os cinco pães e os dois peixes, levantou os olhos ao céu, e abençoou, e partiu os pães, e deu-os aos seus discípulos para que os pusessem diante deles. E repartiu os dois peixes por todos”. Houve uma repartida, ou seja, uma divisão.

Obviamente, o termo multiplicação no contexto bíblico não significa que Jesus criou mais pães e peixes do nada, mas que ele abençoou e partiu os que tinha, de modo que eles se tornaram suficientes para todos. Portanto, não se trata de uma multiplicação matemática, mas de uma partilha generosa. Jesus não diminuiu a quantidade de comida, mas a aumentou pela sua graça.

E por que multiplicação se confunde com divisão em análises assim? A divisão afeta a nossa avaliação quantitativa do objeto. Ao aumentar o número de partes, podemos ter a impressão de que o objeto também aumentou, pois há mais elementos para contar, medir ou comparar. Essa impressão pode ser reforçada pelo efeito de contraste, ou seja, pela comparação entre o estado anterior e o posterior à divisão.

Por exemplo, ao dividir um pão em pedaços, podemos pensar que temos mais pão do que antes, pois podemos ver mais superfície de pão exposta, ou porque podemos distribuir os pedaços para mais pessoas. No entanto, essa impressão é ilusória, pois a divisão não altera a quantidade real do objeto, apenas a sua forma e a sua apresentação. A divisão é uma operação reversível, ou seja, podemos recompor o objeto original a partir das partes divididas, sem perder ou ganhar nada. A quantidade real do objeto é determinada pela sua massa, volume ou peso, que são invariantes sob a divisão. Portanto, a divisão implica apenas uma reorganização, não uma multiplicação, o que é um exemplo de falácia linguístico-cognitiva, pois se baseia em uma confusão entre os níveis de forma e de conteúdo, entre o significante e o significado, entre a aparência e a essência.

No texto bíblico, a essa relação entre divisão e multiplicação adere-se o fator gracioso, milagroso: ao mesmo tempo em que houve a divisão dos alimentos, houve a multiplicação da saciedade.

 

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Os algarismos romanos são um sistema numérico que se originou na Roma Antiga e foi utilizado por várias civilizações europeias durante séculos. Este sistema é composto por sete símbolos: I, V, X, L, C, D e M, que representam os números 1, 5, 10, 50, 100, 500 e 1000, respectivamente.

Sua origem vem do século VIII a.C., quando os romanos adotaram o sistema numérico dos etruscos, um povo que habitava a região da Toscana, na Itália. O sistema etrusco era baseado em caracteres que representavam as letras do alfabeto, mas os romanos simplificaram o sistema e desenvolveram seus próprios símbolos numéricos.

Os primeiros algarismos romanos eram simples traços, que representavam o número 1. Com o tempo, esses traços foram combinados e modificados para formar os outros símbolos. Por exemplo, o número 5 era representado por um traço horizontal e um traço diagonal que se cruzavam, formando um V. Já o número 10 era representado por dois traços cruzados em forma de X.

Essa notação foi amplamente utilizada durante o Império Romano, tanto para fins comerciais quanto para a numeração de páginas em livros e documentos. Ela também era frequentemente usada em inscrições em monumentos e edifícios públicos.

Com o colapso do Império Romano, o uso dos algarismos romanos caiu em desuso, mas não totalmente, na Europa Ocidental, sendo substituído pelo sistema de numeração indo-arábico, utilizado atualmente.

 

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Os números são entidades abstratas que representam quantidades e ordem. Eles não possuem existência física e não podem ser percebidos pelos sentidos. Quando pensamos em números, não podemos realmente visualizá-los como fazemos com objetos tangíveis. Em vez disso, usamos representações simbólicas, como os algarismos (1, 2, 3…) para expressar números. Esses símbolos são convenções que usamos para lidar com a abstração numérica.

A dificuldade de imaginar números sem pensar em objetos relacionados a eles reside na distinção entre símbolos e conteúdo. Quando pensamos em “dois carros”, a imagem dos carros aparece em nossa mente, mas a ideia de “dois” é abstrata e não pode ser representada visualmente da mesma forma. Isso sugere que, na verdade, não imaginamos o número em si, mas sim os objetos que ele representa. O número “dois” é um conceito abstrato que usamos para contar ou quantificar os carros, mas não é uma imagem mental tangível.


Alguns estudiosos argumentam que os números são categorias a priori da mente humana, ou seja, estruturas inatas que usamos para organizar nossa experiência. Essa visão sugere que os números são conceitos fundamentais que não podem ser imaginados, mas apenas concebidos por meio do pensamento abstrato.

Dessa forma, essa impossibilidade imagética tem implicações filosóficas significativas. Ela levanta questões sobre a natureza da abstração, a relação entre linguagem e pensamento e como nossa mente lida com conceitos puramente conceituais.

 

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A palavra ímpar é formada pela combinação do prefixo latino in-, que indica negação ou negatividade, com a palavra par, que também vem do latim e significa “igual”, “contraparte” ou “dupla”.

Na matemática, um número ímpar é aquele que não pode ser dividido igualmente por 2, ou seja, não possui uma contraparte que o torne igual a um número par. Essa definição matemática reflete a origem da palavra, pois o prefixo in- nega a ideia de igualdade, e par denota a igualdade ou paridade. Portanto, quando falamos sobre números “ímpares”, estamos, de certa forma, fazendo uma referência à sua natureza não igual em relação aos números pares.

Os conceitos de números pares e ímpares são fundamentais na matemática e têm uma origem muito antiga. Eles surgiram na matemática elementar e provavelmente foram reconhecidos desde o início do desenvolvimento matemático. Os matemáticos gregos antigos, como Euclides, no século III a.C., estudaram essas propriedades em detalhes em suas obras. A distinção entre números pares e ímpares é inerente ao sistema numérico e à própria natureza dos números naturais. Esses conceitos têm, pois, uma origem muito antiga, provavelmente tão antiga quanto a própria matemática.

 Jason Lima

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